sexta-feira, 14 de junho de 2013

BRUNA SURFISTINHA

NOTA 8,0

Sexo, fama, dinheiro, drogas,
humilhação e decadência são os
temas presentes na vida da garota
que deu nova imagem à prostituição
Quem é Raquel Pacheco? Atriz, escritora, artista plástica, uma mulher do meio político, enfim algum nome que fez algo expressivo pela História do Brasil ou ao menos para seu estado ou cidade? Em 2009, época das filmagens de sua cinebiografia, tais indagações já não fariam tanto sentido, mas se você ainda hoje não liga o nome a pessoa é porque está fora de órbita. Ela simplesmente é a musa inspiradora do longa que leva seu nome de guerra, Bruna Surfistinha, drama que levou multidões aos cinemas e ainda alimenta a curiosidade de muita gente, afinal apresenta uma enxuta visão de como foi a rápida ascensão, decadência e volta por cima de uma garota de programa que acabou trazendo glamour para aquela que é considerada a profissão mais antiga do mundo. Claro que ainda existem muitas pessoas que nem pensam em assistir tal produção, um preconceito que a própria “celebridade” biografada incentivou, talvez sem perceber, sujeitando-se durante um bom tempo a participações em programas de TV e cedendo entrevistas que não estavam afim de mostrar o quanto é dura e perigosa a vida de uma prostituta, mas sim em esmiuçar os detalhes picantes e curiosos dos atendimentos que Raquel fez, assim vendendo de certa forma uma imagem positiva da atividade e afrontando a moral e os bons costumes que boa parte dos brasileiros diz ainda preservar. Contudo, é preciso frisar que este trabalho do diretor estreante em cinema Marcus Baldini é uma grata surpresa capaz de deixar boquiaberto quem tem o pé atrás com a superexposição de Surfistinha na mídia, uma cinebiografia que segue os moldes hollywoodianos de produções do tipo. Deborah Secco, na época vivendo um período áureo de sua popularidade, assumiu o papel principal e se entregou de corpo e alma ao trabalho que lhe exigiu transformações físicas e imersão na mente e nos sentimentos da personagem para trazer a dignidade diante do público que a homenageada almejava e não permitir que as cenas de sexo se transformassem na chave do sucesso do filme. Baseado no livro “O Doce Veneno do Escorpião”, assinado pela própria Surfistinha e que rapidamente se tornou um campeão de vendas, o roteiro foi construído por Homero Olivetto, José de Carvalho e Antônia Pellegrino que preferiram fazer algumas alterações no tipo de narrativa para adaptar a obra para a linguagem cinematográfica. Originalmente a época da conturbada adolescência e seu futuro como prostituta que transcende as barreiras da marginalidade se intercalam, mas no longa foi feita a opção em manter o foco das atenções quando ela decide abandonar o conforto da casa dos pais pela liberdade com consequências negativas da vida nas ruas. Mas não pense que o melodrama toma conta do pedaço. Com momentos de ironia, o filme mostra que Surfistinha mais que uma profissional do sexo também foi psicóloga e idolatrada dando dicas para salvar casamentos, aconselhando em problemas, dando prazer aos menos favorecidos pela natureza e tornado-se uma personalidade que ajudou a transformar a internet como uma nova fábrica de sucessos.

Os créditos iniciais já mostram aquilo que o público espera. Deborah surge em imagens de webcam simulando um striptease para atiçar o espectador. O que surpreende é que ela está com roupas comuns, carrega um ar de ingenuidade sedutor e não está exuberante como as cenas vendidas pela publicidade do longa, muito pelo contrário. É a Raquel adolescente provando que o sexo é inerente a sua personalidade e é dessa forma que ela deseja afrontar sua família, um ponto em que o roteiro deixa a desejar. Infelizmente não ficam claros os motivos que fizeram a garota a cortar os laços familiares e aderir a prostituição, justamente talvez a principal curiosidade em relação a sua vida. De classe média paulistana e com pais que lhe proporcionavam certo conforto, mas com moderação, o longa não deixa claro qual a gota d’água que a levou a tamanha rebeldia. A própria biografada afirma que jogou tudo para o alto simplesmente porque ansiava independência em todos os sentidos. O roteiro, porém, nos convence que o estopim teria sido uma brincadeira que colegas da escola fizeram postando na internet um vídeo comprometedor dela com um rapaz. Assim, já que ela estava com a fama o melhor a fazer era deitar na cama literalmente. Ainda assim o filme não explora nesta fase “inocente” sua compulsão por roubos, a preferência em estar sempre bem vestida e com roupas da moda e sua rebeldia exposta através de fetiches que realizava em baladas, detalhes expostos no livro. A Raquel adolescente do filme é construída para manipular as emoções do espectador. Ela é a pobre coitada que se dedica aos estudos, não tem ambições profissionais, foi humilhada na escola, parece um patinho feio e que nasceu em uma família que não é a dos seus sonhos. De qualquer forma, o espectador que aceita embarcar nesta trama certamente deve estar tomado pela curiosidade em desvendar o passado daquela mulher que parecia tão realizada com a prostituição que acaba deixando passar batido esta introdução meia-boca, inclusive o fato de Deborah não convencer como uma jovem de 17 anos, até porque tal passagem é rápida e o que mais importa está pó vir. Intercalando momentos alegres e tristes que Raquel passou como garota de programa, o longa distribui fartamente cenas que não chegam a ser pornográficas, mas mostram o suficiente para satisfazer o espectador ou porque não deixá-lo envergonhado ou até mesmo rindo de certas situações. Quando sai de casa, Raquel passa a viver na residência de Larissa (Drica Moraes), uma cafetina que abriga mulheres e explora seus “talentos” entre quatro paredes. O primeiro programa da garota é um tanto sofrido, mas a recompensa financeira a entusiasma e assim pouco a pouco ela vai ficando mais desenvolta na função até que se torna a funcionária mais requisitada do local, o que lhe acarreta problemas com a inveja de outras até que consegue fazer uma pequena fortuna que permite a compra de um apartamento e um upgrade na carreira.

De casa nova, agora ela já atende sob o pseudônimo Bruna Surfistinha e utiliza as ferramentas da internet para valorizar seu negócio. Com fotos e vídeos provocantes regularmente publicados, ela ainda passa a conversar diretamente com seus clientes e até fãs, além de manter um diário virtual contando suas aventuras sexuais e avaliando seus parceiros, futuramente um espaço dedicado a suas reflexões. A procura por seus serviços superam as expectativas e ao mesmo tempo em que passa a adquirir roupas, acessórios e outros bens também aumenta seu vício em drogas e álcool, algo que já havia sido iniciado em sua época na casa de Larissa. A decadência é inerente. Esquálida, sem forças e sozinha, ela chega ao limite de suas loucuras quando passa a atender por uma merreca em um prostíbulo de periferia e eis que a ficha lhe cai: essa vida não é mais para ela. Todavia, quando tudo parecia estar perdido ela teve uma chance de recomeçar e soube aproveitar. Não é segredo nenhum contar como tal história termina afinal a própria Surfistinha, hoje preferindo ser chamada pelo seu nome de batismo, está vez ou outra cedendo suas entrevistas por aí e dando a entender que seu caminho ao sucesso foi tortuoso, mas os resultados compensaram e hoje ela não depende diretamente do sexo para viver (até quando seus relatos quentes vão lhe render ninguém sabe). Para apreciar este longa, é preciso esquecer a imagem que temos da Surfistinha da mídia, até porque os roteiristas retocaram a personagem para que o público se identificasse. É melhor apreciá-lo como uma história genérica, uma trama que reúne situações comuns a vida da maioria das garotas de programa, sejam elas atendentes de suburbanos ou de pessoas da elite. Muitos podem afirmar que Bruna Surfistinha é apenas um produto comercial e não cinema de verdade. Ok, a narrativa linear, a “moldagem” de uma protagonista e até a narrativa em off que as vezes parece ofender a inteligência do público podem ser apontados como pontos negativos, mas não se pode negar que Baldini ousou em outros aspectos. Além de inserir as cenas de sexo em momentos estratégicos e justificando suas necessidades à condução da trama, o diretor usou toda sua experiência no campo publicitário para criar junto com sua equipe de iluminação, edição e fotografia interessantes formas de afastar qualquer alusão de pornografia ao seu trabalho. Não se pode negar que ele entrega cenas impactantes, belas, emotivas e que dedica atenção especial aos detalhes, desde o sorriso libidinoso de Surfistinha em seu momento de êxtase, passando por seu olhar melancólico em seu declínio e até captando com certa ironia os detalhes físicos de seus clientes, que vão desde garotões de academia até velhos senhores. Há muito que se falar sobre esse filme se analisarmos suas simbologias e seus detalhes, tanto positivos quanto negativos, seus acertos e erros, mas o fato é que felizmente este é um trabalho que corresponde avessamente as expectativas. Não mancha a imagem do nosso cinema, pelo contrário, de certa forma mostra um amadurecimento de nossa arte cinematográfica. Qualidades técnicas e respeito ao público podem e devem ser características obrigatórias de produções comerciais. Quanto ao conteúdo, a vida da biografada, aí cada um pode tecer seus próprios comentários de acordo com seus princípios e ideais, lembrando que é preciso respeitar o ditado que diz cada cabeça é uma sentença. Merece uma conferida e porque não um vale a pena ver de novo (e sem preconceitos).

Drama - 109 min - 2009 

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