quarta-feira, 19 de junho de 2013

SUPER 8

NOTA 8,5

Aventura resgata a inocência e
a diversão típicas das produções
dos anos 80 unindo nostalgia e
originalidade para novas gerações
Hoje quando rotulamos um filme como do tipo sessão da tarde é preciso lembrar que estamos fazendo uma alusão e um elogio ao que já foi um dia a sessão vespertina homônima há décadas exibida pela Rede Globo cujo estilo foi copiado por outras emissoras, até mesmo fechadas. Os títulos segregados como recomendáveis para toda a família atualmente são desenhos, produções Disney, romances água-com-açúcar e comédias com animais falantes, mas onde estão as aventuras clássicas dos anos 80 ou similares? Steven Spielberg era um nome que geralmente estava atrelado a tais produções, seja na direção, roteiro ou produção e seus trabalhos marcaram gerações, mas infelizmente os mais novinhos não tiveram a oportunidade de conhecê-los no calor do momento. Atualmente, só mesmo nostálgicos para perderem alguns preciosos minutos do seu tempo para viverem ou reviverem tais emoções, mas seria muito injusto que a criançada e os adolescentes dos primeiros anos do século 21 crescessem sem experimentarem a sensação de acompanharem uma deliciosa aventura a moda antiga. Em tempos em que a nostalgia está em alta e as refilmagens pipocam aos montes, Super 8 é um produto extremamente bem-vindo e uma forma original de se homenagear o passado que de quebra ainda pode trazer a tona o gostinho de uma legítima sessão da tarde. Esta aventura fantasiosa desde o título deixa em evidência seus objetivos, uma referência a um antigo modelo de câmera e que muitos cineastas hoje renomados usavam na infância e adolescência para fazerem seus próprios filmes, um indício do que seriam no futuro, como é o caso de Spielberg e de J. J. Abrams, respectivamente produtor e diretor da aventura em questão. Aliás, esta obra é cheia de homenagens ao homem que concebeu E.T. – O Extraterrestre e tantos outros sucessos infanto-juvenis, o que confere um atrativo a mais para chamar a atenção dos adultos que certamente vão curtir reconhecer as referências e influências de outros títulos. As lembranças de um passado cinematográfico ainda vivo na memória de muito marmanjo podem não surtir o mesmo efeito nas novas gerações que provavelmente não conhecem algumas das obras homenageadas, mas nada que impeça a diversão. Porém, é preciso ressaltar que a aventura não tem o ritmo frenético das produções atuais. Existe ação, mas tudo segue uma linha diferenciada de narrativa, o que pode impactar negativamente alguns espectadores mais jovens. Bem, um respiro de vez em quando não faz mal a ninguém e ninguém deve ficar se sentindo um peixe fora d’água, muito pelo contrário. Como a maior parte das produções, há alguns furos no roteiro que não comprometem a trama e o sentimentalismo impresso no final deve gerar algumas reclamações, mas já que a obra é uma homenagem ao estilo "spielberguiano", certa dose de emoção no final não poderia faltar.

O roteiro criado pelo próprio Abrams se passa no ano de 1979 e nos apresenta a Joe Lamb (Joel Courtney), um adolescente que perdeu a mãe há pouco tempo e não está conseguindo ter um bom relacionamento com o pai, Jackson Lamb (Kyle Chandler), um policial dedicado que não sabe como se comportar com o filho. O menino é fã de cinema e se diverte ao lado de Charles (Riley Griffiths), Martin (Gabriel Basso) e Cary (Ryan Lee) produzindo um curta-metragem caseiro de terror, diga-se de passagem, bem trash, para participar de uma competição local para jovens aspirantes a cineastas. Joe logo se anima quando um dos amigos convida Alice (Elle Fanning) para o elenco já que está gostando dela. Utilizando uma câmera Super-8, o grupo vai de madrugada rodar às escondidas uma cena na estação ferroviária, mas uma caminhonete se choca com um trem e provoca um descarrilamento de grandes proporções. Logo o local está cercado pelo exército que procura algo misterioso que estava alojado em um dos vagões. A partir de então, estranhos acontecimentos e desaparecimentos começam a acontecer na pequena cidade de Lillian, em Ohio. Tudo indica que um ser alienígena está rondando o local, este que é apresentado aos poucos e em rápidas e escamoteadas aparições, bem ao estilo de Cloverfield – Monstro assinado pelo próprio Abrams. Aproveitando o cenário da tragédia, os jovens passam a fazer suas filmagens ao mesmo tempo em que tentam desvendar os mistérios que passam a acontecer na cidade. Assim o cineasta faz sua homenagem ao cinema, com um filme dentro do outro, e alinhavando cenas que remetem a sucessos mundiais da história cinematográfica, principalmente do gênero de aventura que levam nos créditos o nome de Spielberg. E.T. - O Extraterrestre e Contatos Imediatos do Terceiro Grau são as referências mais óbvias, mas alguns detalhes lembram Tubarão e Parque dos Dinossauros. O grupo de adolescentes envolvidos em uma trama de mistério também nos remete a Os Goonies e Conte Comigo. O humor também marca presença. O tal vídeo caseiro rende algumas situações bem engraçadas e pode ser conferido na íntegra durante a exibição dos créditos finais. Para quem espera uma superprodução de ficção científica, porém, pode tirar o cavalinho da chuva. Na realidade, este é um projeto que reúne diversas características de gêneros variados, mas a aventura com letras maiúsculas é que predomina. O fato dos personagens principais serem crianças brincando de fazer cinema, deixando a imaginação falar mais alto, ao mesmo tempo em que vivenciam uma fase de transição de idade em que precisam amadurecer enfrentando os desafios que a vida lhes impõe, desde o primeiro amor até superar a perda de um ente querido em circunstâncias inesperadas, torna a experiência de acompanhar esta trama muito mais gratificante e envolvente.

Para orquestrar toda essa originalíssima homenagem ao cinema produzido nos anos 80, Abrams certamente deve ter passado muito tempo mergulhado entre as lembranças de sua adolescência. Desde as crianças com espírito aventureiro e aficionadas por fitas de terror, passando pela curiosidade da existência de seres vivos em outros planetas, até o envolvimento do governo e militares para salvarem os americanos, uma referência as suas megalomaníacas táticas de guerrilha, cada fotograma deste longa tem um agradável cheiro, visual e porque não dizer sabor de nostalgia. Vale inclusive destacar o apoio da parte técnica que ajudou a recriar toda a atmosfera oitentista dando aquele inconfundível ar bucólico à cidade onde as ações se passam, um lugar e uma época em que brincar nas ruas seria permitido até altas horas da noite, as amizades eram reais e com fortes laços afetivos e a tecnologia em ambientes populares limitava-se ao bom e velho aparelho de TV e uma ou outra bugiganga eletrônica conquistadas após muitos pedidos aos pais e guardadas como um tesouro por muitos anos. E nem precisa dizer que o universo de Spielberg também tem um lugar especial reservado nas memórias de Abrams, que fez questão que seu mestre inspirador fosse o produtor deste trabalho. O mesmo incentivou seu pupilo a não ter medo de usar e abusar do sentimentalismo na obra, o que explica o perfil e os conflitos bem delineados de cada um dos personagens e a inocente história de amor adolescente inserida na trama. Dessa forma, Abrams acabou unindo dois filmes em um. O primeiro se refere a história de adolescentes que registram suas visões do mundo através de uma câmera caseira, documentando ao mesmo tempo seus amadurecimentos. O segundo provém da ideia de um filme de terror no qual o governo americano estaria capturando e estudando secretamente seres alienígenas, ações que quando descobertas exigiriam verdadeiros planos de guerra para salvar a população. Esta aventura certamente ajudou Abrams a definitivamente ser reconhecido como um dos cineastas de peso da Hollywood do início do século 21. Até o momento ele era mais lembrado no cinema por dar uma nova chance as aventuras espaciais e conhecidas de Star Trek. Apesar de na tela grande parecer que ele tem predileção pelo passado, na TV ele prendeu a atenção de milhões de pessoas no mundo todo com a série "Lost", que trouxe uma trama inovadora carregada de suspense. Há muito do seriado no texto da aventura em questão e até na construção visual das cenas, mas é certo que a grande influência vem mesmo do próprio cinema, como o uso de luzes estouradas e sombras em momentos estratégicos. Também é preciso se destacar o bom desempenho do elenco jovem, principalmente de Elle Fanning, a irmã da ex-menina prodígio Dakota Fanning, provando que pode caminhar na carreira com as próprias pernas. Mas ela não carrega o filme nas costas. Todo o elenco de pré-adolescentes tem importância na trama, cada um com seus bons momentos, mais uma característica dos longas dos anos 80. Esta mistura de ação, mistério e homenagens é um excelente programa para toda a família, sem dúvidas, principalmente para os cinéfilos de plantão. Porém, as crianças retratadas no filme são raridades hoje em dia e pode ser que a gurizada estranhe. Antigamente os mais novos costumavam ser ingênuos, não tinham acesso tão fácil as informações e amadureciam à força diante do boom dos lares desfeitos, mas pelo menos sonhavam, se divertiam, brincavam e prezavam o contato social e as amizades reais. Traduza as últimas palavras para o oposto que impera na época contemporânea e veremos que faz bem quem vive como Abrams e Spielberg: reverenciando o passado e evitando crescer por completo ou antes do tempo. Bons tempos que Super 8  traz de volta. De certa forma é o Spielberg dos seus áureos tempos refletido no trabalho de um fã incondicional que realizou seu próprio sonho e de quebra pode alimentar a imaginação de novas gerações que infelizmente crescem cada vez mais rápido, não só fisicamente, mas também em temos de intelecto e psicológico, e sem viver a infância plenamente. Como era bom quando sonhávamos em nos tornar adultos rapidamente, mas sem perder a inocência e sinceridade inerente a qualquer criança. 

Aventura - 112 min - 2011 - Dê sua opinião abaixo.

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