quarta-feira, 31 de julho de 2013

LABIRINTO - A MAGIA DO TEMPO

NOTA 8,5

Por trás da aparente inocência,
longa fantasioso é cheio de
mensagens subliminares
usando um jogo de manipulação
Muitos filmes sobre mundos fantásticos foram lançados na década de 2000 impulsionados pelo sucesso de obras literárias que ganharam suas versões cinematográficas como Harry Potter, O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia, mas quantas dessas produções “menores” vão no futuro ganhar o status de clássicos estilo sessão da tarde? Pois é, muita coisa bacana foi lançada nos últimos anos, mas a rapidez com que seu ciclo de vida transcorre impossibilita que elas se tornem marcantes, algo impulsionado pela repugnante cultura do imediatismo. Qual seriam então os segredos dos clássicos infanto-juvenis dos anos 80 que ainda povoam o imaginário de muitos adultos, a maioria que felizmente gostaria de agora poder vivenciar as mesmas emoções de outros tempos junto com seus filhos ou netos? As explicações mais óbvias seriam a ajuda da TV e das videolocadoras. Filmes na telinha antigamente eram verdadeiras moedas de ouro, garantia de muita audiência pelo ineditismo da ação, e se gostasse ou perdesse a hora ainda teria a possibilidade de alugar na loja mais próxima, hábitos que certamente colaboraram para a popularização de alguns títulos. Teoricamente, hoje esse quadro ainda é possível, mas diante de tantas possibilidades de entretenimento e a pressa do público em geral não há tempo para fomentar boca-a-boca sobre os filmes, salvos aqueles que recebem o apoio da mídia em massa. Bem, isso é uma discussão quente entre o tradicional e o moderno que não vem ao caso. Toda essa introdução é para tentar resgatar um pouco do clima e do impacto que causou no passado Labirinto – A Magia do Tempo, uma agradável aventura passada em um reino fantástico que certamente faz parte da lista de filmes do coração de muito marmanjo, porém, um trabalho que para conquistar novas gerações só mesmo apelando para o valor sentimental que a obra representa. Vamos por partes. Além de uma forcinha dos mais velhinhos comentando sobre as lembranças que o filme desperta e o fato de ser uma obra de fantasia, o que pode aguçar a vontade de assistir a este trabalho é a presença de Jennifer Connelly. Para muitos ela estreou em Uma Mente Brilhante, longa que lhe deu o Oscar de atriz coadjuvante, mas na realidade ela já batalhava na profissão há tempos e aqui aparece bem jovenzinha interpretando Sarah Williams, uma garota que adora contos de fantasia. Certa noite seus pais saem e pedem para que ela tome conta do seu irmão ainda bebê, Toby (mesmo nome da criança real, Toby Froud, para facilitar a sua dinâmica com os atores), mas ela não parece muito disposta e logo se irrita com seu choro. Num momento de raiva ela acaba contando resumidamente para o pequeno a história de uma jovem que não suporta mais tantas tarefas e deseja que os goblins, outra alcunha para duendes, levem seu irmão embora. O conto faz parte do livro “Labyrinth”, um de seus prediletos, e para finalizar ela ainda diz uma frase que jamais deveria nem ter passado por sua mente: “eu quero que os goblins venham e o levem embora agora!”.

terça-feira, 30 de julho de 2013

VATEL - UM BANQUETE PARA O REI

NOTA 9,0

Longa faz um retrato crítico e
histórico da realeza mostrando
que por trás da ostentação um jogo
de interesses ditava as regras 
A história do cinema é marcada por obras que não só enchem os olhos do espectador por apresentar belas imagens, mas algumas também podem dar água na boca e abrir o apetite, tanto é que já existem até publicações e sites dedicados a divulgar os filmes em que as comidas e as refeições não servem apenas como pano de fundo ou adorno, mas assumem posições de coadjuvantes ou até podem se tornar protagonistas do enredo. Com guloseimas e mesas fartas, algumas produções assumem o caráter gastronômico e a direção de arte capricha para criar um visual delicioso e aconchegante. A primeira vista, um cenário requintado é o que nos oferece Vatel - Um Banquete Para o Rei, mas esta superprodução francesa, porém falada em inglês, infelizmente raríssima de ser encontrada em mídia original ou vista na TV, tem muito mais a nos oferecer do que simplesmente aguçar nosso paladar. Baseando-se em fatos reais, o cineasta Roland Joffé, dos premiados Os Gritos do Silêncio e A Missão, construiu um filme que, apesar de ser de época, traz pontos relevantes e contemporâneos, como a busca pela excelência para obter aprovação e sucesso e temas como honra e caráter. Para degustar este enredo por completo, é preciso provar do recheio e não se contentar apenas com a cobertura. O roteiro de Tom Stoppard, adaptado da peça teatral homônima de Jeanne Labrune, nos remete até o século 17, mais precisamente em 1671 na França. O Príncipe de Condé (Julian Glover) está passando por problemas financeiros e planeja uma solução para fazer com que toda a província fique livre das dívidas. Ele decide convidar o rei Luís XIV (Julian Sands) e toda a corte de Versailles para passar um final de semana festivo em seu palácio repleto de entretenimento e saborosas iguarias culinárias e assim quem sabe fazer com que o monarca perdoasse as suas dívidas e evitasse uma guerra provocada por um desastre econômico, trazendo prosperidade a toda a região. Porém, apenas um homem poderá preparar um banquete a altura e também cuidar da diversão da comitiva real: François Vatel (Gérard Depardieu), o mordomo do Príncipe, este que não poderia se endividar ainda mais por conta desta ideia arriscada. Contudo, seu fiel escudeiro é de uma criatividade assombrosa para se virar com os alimentos e sabe que uma produção cenográfica é essencial para impressionar os convidados, ainda que para ele tais nobres lhe causassem repulsa, mas em nome da estima que sente por Condé aceita o desafio.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A PELE (2005)

NOTA 7,5

Biografia de fotógrafa visionária,
em sua versão cinematográfica,
ganha toques de fantasia para
explicar seu gosto pelo bizarro
Apesar de vira e mexe sempre estar em discussão condutas éticas para tentar colocar a sociedade em um sonhado padrão de estabilidade, é incrível como o ser humano sente atração pelo mórbido e o bizarro. Todo ser humano parece ter a vontade de experimentar o desconhecido e programas de TV, jornais impressos, revistas, sites e até mesmo o cinema cada vez mais tem procurado explorar acontecimentos que fogem do comum. É justamente depertar a curiosidade do espectador o grande trunfo de A Pele, drama que conta um pouco da história da fotógrafa americana Diane Arbus. Quem? Pois é, com o desconhecimento de seu nome por praticamente todos fora do meio intelectual, o longa acabou projetando sua publicidade para o elemento bizarro da trama, uma temática estranha, mas de apelo um pouco mais universal. Nicole Kidman é quem interpreta a artista das lentes e dos flashes, que embora não seja popular é considerada por muitos especialistas como uma das melhores profissionais que a área já teve, mas se engana quem pensa que esta é uma cinebiografia legítima. Logo no início um pequeno texto surge na tela avisando que alguns personagens e situações foram inventados, opções para tentar expressar de forma mais emocional qual teria sido a experiência interior de Diane ao longo de sua relativamente curta vida ou em outras palavras tentar compreender as motivações que a levaram a realizar trabalhos tão peculiares. Para começar a quebra de estilo, o diretor Steven Shainberg, de Secretária que também explorava os segredos e desejos secretos de uma mulher, poupa o espectador de transformar seu filme em uma linha do tempo seguindo a homenageada desde seu nascimento em 1923 até seu falecimento em 1971. A ação do longa é centrada em 1958, ano em que a fotógrafa que até então auxiliava o marido Allan (Ty Burrell), cuja carreira era a mesma voltada ao mercado publicitário e de moda, resolveu investir em seu próprio talento. Mãe de duas crianças pequenas e cuidando da casa, ela acabou se acomodando com sua vida pacata e não percebeu que esqueceu de si própria, de seus sonhos. A vontade de sair do casulo em que se fechou acontece quando ela sente necessidade de fugir das fotos tradicionais e procurar o inusitado. A chegada de um novo inquilino ao prédio em que vive é que lhe atiça a curiosidade. Sempre com o corpo coberto por um casacão e usando chapéu e máscara, Lionel Sweeney (Robert Downey Jr.) é um homem que claramente não deseja ser visto, mas ironicamente é impossível não notá-lo. Morador do apartamento que fica em cima do de Diane, constantemente o encanamento da casa dela fica entupido com um grande emaranhado de cabelos, mais uma coisa que a deixa intrigada.

domingo, 28 de julho de 2013

FALSÁRIA

Nota 6,5 Ironias e críticas são destiladas enquanto uma série de mal entendidos é desenvolvida

Existem filmes que acabam só chegando ao público com um empurrãzinho de algum fator que conspire a seu favor, mas as vezes nem com essa forcinha as coisas dão certo como é o caso do drama de época Falsária que provavelmente só chegou até nós em meados de 2005 graças a meteórica ascensão da carreira de Scarlett Johansson. Na época a moça já cultivava a fama de aceitar papéis digamos “pouco católicos”, por isso deve surpreender a muitos quando vemos que a tal mau caráter do título na verdade é interpretada por Helen Hunt. Ela dá vida a Sra. Stella Erlynne, uma mulher elegante e refinada, mas que não está mais conseguindo andar pelas ruas de Nova York dos anos 30 sem ser apontada por alguém. Praticamente todas as pessoas da alta sociedade sabem que ela sustenta seu padrão de vida com a ajuda financeira que recebe de milionários casados que buscam aventuras fora de casa, mas o cerco parece estar fechando, assim como a carteira de seus amantes. Após ver a foto de um jovem casal publicada em um jornal, ela decide partir para a costa italiana, um novo reduto da aristocracia americana, porém, já faz a viagem com segundas intenções. Rapidamente ela conhece Robert Windemere (Mark Umbers) comprando um presente para sua esposa Meg (Scarlett) e o ajuda. Em retribuição ele lhe oferece uma carona até o hotel em que está hospedada, mas acaba sendo visto por algumas pessoas de seu convício social que passam a tecer comentários precipitados. Não demora muito e ela também conhece Meg e tenta fazer o papel de amiga conselheira, mas a jovem acaba desconfiando de que ela e seu marido estão se encontrando as escondidas, ainda que Erlynne também não esconda estar flertando com o Sr. Tuppy (Tom Wilkinson) que parece não se importar com a má fama desta mulher. As desconfianças de Meg aumentam ainda mais ao serem alimentadas pelos comentários de John Darlington (Stephen Campbell Moore), amigo de longa data de Robert e que parece não confiar na lealdade do rapaz quanto ao casamento. Aos poucos, ele deixa claro que está apaixonado pela garota e vê na provocante Erlynne a chance de destruir um casamento para conseguir a mulher que deseja e a falsária, por sua vez, parece saber algum segredo sobre o casal Windemere que a ajudará financeiramente por meio de chantagens.

sábado, 27 de julho de 2013

BON COP BAD COP

Nota 6,0 Longa de ação canadense se beneficia de rixa entre cidades para explorar o humor

Os EUA reconhecidamente é um país sinônimo de cinema comercial e o gênero de ação continua sendo um dos carros-chefes dessa indústria, mesmo com as críticas negativas que longas do tipo recebem, além do fato da maioria nem chegar a passar em cinema, sendo lançada diretamente em DVD. Contudo, ainda existe platéia cativa para esses produtos, pessoas que construíram seu gosto cinematográfico influenciados por trabalhos de Arnold Schawznegger, Silvester Stallone e companhia bela, principalmente as gerações que cresceram na época do boom das locadoras, estabelecimentos que acolheram os astros brucutus quando as salas de cinema passaram a fechar as portas para eles. Mas deixando de lado os detalhes dos bastidores, é curioso que os fãs de ação hollywoodiana se acostumaram tanto a um padrão engessado que sentem dificuldades em aceitar produtos do gênero oriundos de outros países. Eles não vão mudar a vida de ninguém certamente, mas com sorte podem oferecer um divertimento de melhor qualidade que o habitual como é o caso de Bon Cop Bad Cop, mescla de ação, policial e comédia produzida pelo Canadá. A premissa do roteiro de Leila Basen, Kevin Tierney, Alex Epstein e de Patrick Huard, um dos protagonistas, pode parecer esquisita, mas vale a pena insistir. O filme começa com uma tola discussão sobre a venda de um tradicional time de hóquei canadense para os EUA. Ao mesmo tempo um homem mascarado vai sendo revelado pouco a pouco e já tem uma vítima a postos para ser executada. O corpo deste homem é encontrado em cima de uma placa rodoviária que demarca os limites de duas cidades, pernas de um lado e cabeça e tronco de outro. Dois tiras, um representante de cada município que cativam há nos certa rivalidade, são selecionados para investigar o caso, mas eles não podiam ser mais diferentes. Martin Ward (Colm Feore) é de Toronto, fala inglês e é muito correto com suas obrigações, o policial exemplar. Já David Bouchard (Huard) é de Quebec, fala francês e prefere levar a profissão sem grandes preocupações. Em comum eles têm apenas o fato de que entendem razoavelmente bem o idioma um do outro (fato esquecido lá pelas tantas quando eles passam a se comunicar fluentemente) e ambos possuem problemas de relacionamento com os filhos e não são casados.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

GIALLO - REFÉNS DO MEDO

NOTA 6,5

Procurando retomar subgênero
do suspense italiano, Dario
Argento não cumpre isso, mas não
deixa de oferecer algo diferenciado
Se engana quem pensa que os filmes sobre assassinos em série surgiram nos anos 90 como uma forma de de dar um gás ao combalido subgênero de terror que acabou virando piada devido aos indestrutíveis Michael Meyers, Freddy Krueger e Jason Voorhees, respectivamente os vilões das séries Halloween, A Hora do Pesadelo e Sexta-feira 13. Na realidade as histórias envolvendo ações dos seriais killers já são reconhecidas como um subgênero do suspense desde meados dos anos 30, mas só vieram a se tornar populares quatro décadas mais tarde. O cinema americano teve um papel importante nisso, mas curiosamente a Itália também teve participação fundamental sendo o diretor e roteirista Dario Argento um dos nomes mais importantes de tal fase, mas que acabou sendo suplantando pela ação do tempo. Após um bom tempo amargando o ostracismo, o cineasta tentou chamar a atenção com uma obra de título sugestivo: Giallo – Reféns do Medo. Sabendo da temática predileta deste profissional, seria o nome do assassino da vez uma forma de vender sem rodeios o conteúdo do filme? A resposta é não. Giallo é uma palavra de origem italiana que significa amarelo e acabou sendo empregada para catalogar um específico gênero literário e cinematográfico de suspense e romance policial do país. Tais histórias sobre detetives e bandidos com uma pegada mais forte e violenta eram publicadas em uma série de livros que tinham uma capa-padrão amarela e automaticamente foi feita a associação quando o cinema passou a investir em enredos semelhantes, uma forte corrente que certamente inspirou as produções sobre slashers, aquelas citadas no início do texto e que ganharam sobrevida com Pânico e outros produtos nos quais adolescentes são perseguidos por sádicos assassinos. Apesar de ser a raiz de produções que hoje são tão criticadas pela falta de originalidade, é certo que o resgate da fórmula giallo de assustar é bem-vinda e foge significativamente do estilo de se fazer suspense seguindo a cartilha de Hollywood. A trama é centrada na busca desesperada de Linda (Emmanuelle Seigner) pela irmã, a modelo Celine (Elsa Pataky) que é sequestrada durante um importante evento de moda em Milão. Para tanto ela conta com a ajuda do inspetor Enzo Avolfi (Adrien Brody), mais conhecido como Lobo Solitário, especialista em casos envolvendo seriais killers e que fica obcecado em encontrar Yellow (Byron Deidra – a palavra em inglês também é usada para denominar Giallo no filme), o principal suspeito e conhecido por expor suas vítima a humilhantes e torturosas situações.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

PESADELO AMERICANO

NOTA 6,5

Com várias histórias sendo
narradas ao mesmo tempo,
drama aborda como a violência
interfere no cotidiano em geral
Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, fatídico episódio que parece que de uma vez por todas revelou ao mundo a fragilidade que os poderosos americanos tentavam esconder ao máximo para não diminuir o status e o poder de sua pátria, o cinema aparentemente passou a ter mais liberdade para abordar assuntos que antes eram jogados para debaixo do tapete para não aparecem nas fotografias e filmagens de um país que há séculos cultiva a soberania e a ilusão de que a felicidade mora lá. Bem, o cinema independente é que na realidade tem essa liberdade maior para mexer em feridas, mas cada vez mais tem sido frequente que pequenas obras sobre assuntos polêmicos tenham seu valor reconhecido e acabem furando as barreiras impostas ao cinema de arte ou de autor e passem a dividir espaço com o cinemão de Hollywood. Outro ponto interessante é que tais obras também apostam muito nas tramas interligadas, aquelas em que os conflitos de diversos personagens têm algum ponto em comum ou em alguns casos são todos dependentes, sendo alguns dos mais famosos exemplos desse casamento de temática e estilo narrativo Crash – No Limite e Babel. O problema desse tipo de filme é que geralmente ele frustra o espectador. Facilmente eles ganham prêmios, em pequenos ou grandes eventos, mas a opinião dos críticos e votantes deve levar em consideração a coragem de abordar temas controversos e as dificuldades que implicam a construção de uma narrativa picotada, mas para o público comum por vezes é um tanto tedioso ou dificultoso acompanhar narrativas assim e o incômodo é potencializado quando no final das contas o pacote não é fechado com um laço que una todas as pontas soltas. Pesadelo Americano, por exemplo, é um projeto independente e cheio de boas intenções, mas que abre mão de uma conclusão apoteótica, mesmo que infeliz. Exibido em alguns festivais menos divulgados, incluindo indicações ao Independent Spirit Awards, o Oscar dos independentes, o longa dirigido por Aric Avelino e com roteiro do próprio em parceria com Steven Bagatourian surgiu a partir de um artigo do jornal “Los Angeles Times” sobre estudantes que vão à escola armados, porém, sem a intenção de utilizá-las, apenas precaução para quando saem das instituições e precisam enfrentar os perigos das ruas. A legítima defesa é compreensível, mas o inesperado sempre pode acontecer. Um adolescente em sã consciência pode não ver problemas em andar armado, mas será que em sua cabeça passa a possibilidade de que a arma pode cair em mãos erradas e provocar uma tragédia?

quarta-feira, 24 de julho de 2013

LUGARES COMUNS

NOTA 8,0

Drama argentino aborda a
velhice com respeito e ainda
fala sobre a economia do país
e a perda de valores humanos
Já faz algum tempo que países latinos que historicamente contam com um grande contingente de população idosa e tradicionalista tem investindo em produções que focam a relação destas pessoas com a contemporaneidade. Se no cinema americano os mais vividos geralmente são retratados de forma cômica beirando o caricatural ou são apresentados enfrentando graves problemas de saúde ou ainda como conformados diante da iminência da morte, outras culturas preferem retratá-los em seus filmes deixando os estereótipos de lado e apostando em retratos mais realistas e humanos, como é o caso da Argentina que possui vários exemplares de obras desse estilo. Lugares Comuns é um ótimo exemplo, um drama envolvente sobre um casal maduro que praticamente precisa recomeçar uma vida juntos e que tem como pano de fundo a crise econômica que tomou de assalto os argentinos em meados da década de 2000 (ápice da situação, mas certamente ainda um fantasma que em menor ou maior grau assola o país). Fernando Robles (Federico Luppi) trabalha há anos como professor de literatura em uma universidade em Buenos Aires, mas diante dos problemas financeiros do país ele acaba sendo forçado a se aposentar com a justificativa do limite de idade, o que para ele significa o início do fim de sua vida afinal ele não teria mais com que se ocupar boa parte do seu tempo. Ele tem direito a trabalhar por mais algum tempo, mas sabe que não pode sonhar com uma remuneração condizente com os serviços que prestou e isso o desanima. Na realidade pesou na decisão de sua dispensa o fato de que em suas aulas ele estimula seus alunos a sentirem a dor da lucidez, ou seja, questionarem informações mesmo que a verdade não seja algo positivo, teorias que batem de frente com os ideais do reitor da instituição. Paralelo a isso, Liliana (Mercedes Sampietro), sua esposa, é uma assistente social que também está desgostosa com os rumos de seu trabalho. Sem incentivos do governo, ela não tem como manter obras de caridade e se sente frustrada. Para fugir um pouco dos problemas, o casal resolve tirar alguns dias de descanso e viajar para Espanha para visitar o filho Pedro (Carlos Santamaría) que agora vive lá com a esposa Fabiana (Yael Barnatán) e o filho pequeno. A viagem aparentemente comum acaba virando um ponto-chave para a mudança de vida do professor.

terça-feira, 23 de julho de 2013

A DAMA NA ÁGUA

NOTA 7,0

Suspense com um pé na fantasia
marca virada na carreira do
cineasta M. Night Shyamalan,
mas obra é aquém do esperado
É muito bom praticamente começar uma carreira atingindo o sucesso instantâneo, mas manter-se no topo é complicado. Após o estrondoso sucesso de O Sexto Sentido o diretor M. Night Shyamalan viu seu prestígio pouco a pouco declinar a cada novo trabalho. A crítica especializada, salvo algumas exceções, e o público em geral foram severos nas avaliações, embora fique mais latente que as pessoas não compreenderam as intenções do cineasta em seus projetos seguintes. Após a avalanche de críticas negativas ao infelizmente mal interpretado A Vila, o cineasta voltou a causar barulho com A Dama na Água, projeto que trazia uma ruptura significativa em sua trajetória profissional. Além de mudar seu estilo narrativo drasticamente, tal trabalho também foi o primeiro a não ser lançado pela Disney, empresa que projetou o indiano para o mundo e lhe bancou quatro longas (antes ele já trabalhava, mas em produções menores em seu país natal). A separação aconteceu por divergências de ideias. A produtora queria lucros e o diretor arte, uma equação que dificilmente traz resultados positivos para ambos os lados. Shyamalan optou por seguir seus princípios e acabou acertando e errando. A mudança de ares foi positiva para que ele não se enrolasse ainda mais na própria armadilha que criou, a de criar filmes que obrigatoriamente se sustentam sob a expectativa de uma revelação surpresa. Por outro lado, a decisão reforçou o conceito da sorte de principiante, de que dificilmente ele chegaria a realizar uma obra de nível ao menos similar a da história do garotinho que podia ver e falar com os mortos. Em seu primeiro longa com narrativa totalmente linear, então bancado pela Warner, Shyamalan, além de dirigir, produzir e até atuar, também se encarregou de roteirizar uma trama baseando-se em um conto de ninar que contava aos seus filhos envolvendo o mundo aquático. Apesar desse detalhe, o longa está longe de ser uma fábula infantil, assumindo um lado sombrio e dramático que dialoga melhor com os adultos. Bem, isso para aqueles que deixarem o preconceito de lado e se permitirem literalmente mergulhar nesta obra. A história gira em torno de Cleveland Heep (Paul Giamatti), um ex-médico que perdeu a mulher e a filha há alguns anos e amargurado jogou tudo para o alto e decidiu viver recluso em um prédio residencial onde trabalha como zelador. Seu pacato cotidiano sofre uma transformação drástica quando passa a desconfiar que alguém está constantemente usando a piscina fora do horário permitido e certa noite ele flagra uma garota desconhecida nadando. Com pele, olhos e cabelos claríssimos e fala mansa, ela é Story (Bryce Dallas Howard), uma narf, espécie de ninfa aquática dos contos infantis que está sendo perseguida pelos scrunts, criaturas do mal parecidas com lobos que desejam impedi-la de retornar ao Mundo Azul, seu habitat natural.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

MIAMI VICE

NOTA 6,5

Adaptação de seriado de TV
investe em trama adulta, tem
produção caprichada, mas perde
pontos pelo excesso de material
Na falta de boas ideias para novos filmes, Hollywood nos últimos tempos tem revirado seu baú em busca de material para ser refilmado, mas para escamotear a falta de criatividade tem investido bastante no universo dos seriados de TV. Levar aos cinemas uma história baseada em alguma série de sucesso do passado é uma faca de dois gumes: pode apostar na nostalgia e na forte marca do produto e ser sucesso ou fracassar devido o desconhecimento das novas gerações quanto ao material original e as inevitáveis comparações que podem surgir entre o filme e os episódios do programa. Em geral produções do tipo acabam fracassando e rapidamente após o lançamento caem no ostracismo, mas é curioso como ainda há investidores que as bancam, na realidade, pode-se dizer que tais ideias só saem do papel motivadas pela emoção e não tanto pela razão. Por exemplo, o diretor Michael Mann, famoso por filmes de ação e suspense policial como Fogo Contra Fogo e Colateral, também foi o produtor de uma telessérie de muito sucesso nos anos 80 e precisou esperar mais de duas décadas para realizar um de seus grandes sonhos: a versão cinematográfica de Miami Vice, programa que durou cinco anos e marcou uma geração. Profundo conhecedor da série, ele simplesmente produziu, roteirizou e dirigiu esta reinvenção das aventuras e casos da dupla de detetives que no passado foram interpretados por Philip Michael Thomas e Don Johnson, homens que se apresentavam no melhor estilo metrossexual muito antes do termo surgir. Bem, engomadinhos levando-se em consideração o que era moda na época, característica preservada na modernização proposta pelo cineasta que optou por equilibrar o visual brega e o chique para narrar as novas aventuras de Ricardo Tubbs (Jamie Foxx) e Sonny Crockett (Colin Farrell). Ao contrário de outras séries que foram resgatadas pelo cinema em tom satírico, neste caso o trabalho é levado muito a sério (embora a série usasse os ganchos policiais apenas como pretexto para desfilar na tela gente bonita, bens materiais luxuosos e paisagens ensolaradas) e para dialogar com novas plateias não economiza na violência e no erotismo. A dupla de detetives trabalha investigando o tráfico de drogas em solo norte-americano, mais precisamente na famosa cidade que intitula o filme. Para não “chamarem a atenção”, eles estão sempre com um look bem apresentável, roupas de marca e circulam com carros invejáveis, uma forma encontrada para serem confundidos com os ricaços da região. Quando um de seus informantes morre, além do assassinato de dois agentes federais, eles são convocados pelo FBI para uma operação secreta a fim de capturar assassinos que estão agindo sob proteção do primeiro escalão do crime organizado. E assim começa uma trama de espionagem que irá se desenrolar por outros países como Paraguai, Uruguai, Haiti e até no Brasil, visto que por trás de tudo está Arcángel de Jesús Montoya (Luis Tosar), um poderoso traficante colombiano que tem contato com pólos estratégicos em países latinos. Tubbs e Crockett se disfarçam como transportadores de cargas e assumem as identidades de Burnett e Cooper para conseguirem se infiltrar no meio do tráfico e cortarem o mal pela raiz. Durante as investigações, os parceiros conhecem uma bela mulher e braço direito de Montoya, a cubana Isabella (Gong Li), uma pessoa manipuladora que trata dos investimentos pagos com o dinheiro sujo do negócio ilícito. Para conhecer melhor o esquema organizado por ela, Crockett resolve seduzi-la, mas a relação acaba extrapolando os limites dos interesses profissionais. Enquanto isso, Tubbs vai infiltrando-se cada vez mais diretamente na empresa dos narcotraficantes, mas a situação para ambos acaba fugindo do controle quando eles se veem tão envolvidos com o submundo a ponto de não distinguirem mais de que lado a lei deve exercer seu poder.

domingo, 21 de julho de 2013

A CIDADE DAS CRIANÇAS

Nota 6,5 Mescla de aventura e comédia francesa é boa opção familiar para fugir da mesmisse

É tão raro nos depararmos com produções infantis fora do circuito Hollywood que quando temos a oportunidade de assistir a algo do tipo não devemos desperdiçar a chance. Sim há muita coisa boa entre desenhos, aventuras e comédias voltadas ao público infanto-juvenil produzida fora do território americano, mas infelizmente elas ainda são distribuídas na base do conta-gotas fora de seus países de origem. Com menos pressão em faturar horrores de dinheiro, tais filmes geralmente são bem superiores aos que estamos acostumados a ofertar às nossas crianças e um bom exemplo é A Cidade das Crianças, uma deliciosa mistura de humor e aventura na qual um grupo de menores finge ser composto de adultos, mas no fundo cada um deles ainda guarda a ingenuidade e a fantasia inerente as suas faixas etárias. Baseado no livro “Timpetill: Die Stadt Ohne Eltern”, de Henry Winterfeld lançado em 1937, a trama roteirizada por Fabrice Roger-Lacan, Nicolas Peufaillit e pelo também diretor Nicolas Bary se passa no pequeno vilarejo de Timpelbach, um lugar onde as crianças literalmente mandam e desmandam o quanto querem e não há pai, professor ou autoridade que consiga controlá-los. Numa tentativa desesperada de colocar um ponto final neste caos, os adultos se unem e armam um plano para pregar uma peça na criançada a fim de provar a eles que a hierarquia da obediência é uma necessidade. Certa manhã bem cedinho todos sairiam da cidade e iriam passar o restante do dia acampados em uma região afastada, mas voltariam ao escurecer. Thomas (Leo Legrand), talvez por ser um dos mais ajuizados de toda gurizada, é informado por seu tio deste plano e promete segredo até todos retornarem. E assim, certa manhã as crianças tomam o maior susto ao ver o vilarejo deserto, mas não demora muito para que todos passem a festejar esta liberdade conquistada como num passe de mágica. A noite chega e nenhum dos sumidos retorna, assim aumentando a euforia de todos, menos de Thomas, é claro. Todavia, essa vida sem regras, sem hora para almoçar, estudar ou tomar banho, acaba se tornando um problema, o que implica em o grupo se organizar tal qual uma sociedade comum. Assim eles passam a tomar os lugares dos adultos no atendimento do restaurante e a ocupar as vagas existentes na prefeitura, por exemplo, mas as coisas se complicam quando surge uma ruptura entre eles: o grupo dos que defendem a procura para trazer os pais de volta e aqueles que desejam continuar vivendo sob suas próprias leis, ou melhor, sob a batuta de um líder indisciplinado.

sábado, 20 de julho de 2013

ENIGMA

Nota 5,0 Com pano de fundo histórico interessante, longa peca pelo excesso de informações

Há quem diga que filmes sobre guerras já esgotaram todas as possibilidades de narrativas, mas existe um público fiel para esse tipo de produto e por incrível que pareça quanto mais se pesquisa sobre esses tempos difíceis mais material é encontrado para alimentar novas produções. O período da Segunda Guerra Mundial é um dos que oferecem mais matéria-prima e o cinema é um excelente caminho para conhecermos mais profundamente tal época e sairmos do arroz com feijão que as aulas de História nas escolas oferecem. É uma pena que as vezes boas premissas acabam sendo desperdiçadas como é o caso do suspense Enigma que tenta paralelamente reconstituir fatos históricos e contar uma história fictícia envolvendo um romance mal fadado. Tom Jericho (Dougray Scott) é o matemático responsável pela descoberta do Enigma, uma máquina decodificadora de códigos secretos que os navios nazistas utilizavam para se comunicar durante os tempos de guerra. Contudo, em março de 1943, o rapaz é convocado novamente para ir a Bletchley Park, na Inglaterra, para uma nova missão. Os alemães estrategicamente alteraram o código para dificultar o monitoramento de seus submarinos e embarcações e o Serviço Secreto Britânico precisa decifrá-lo novamente, ainda mais naquele momento em que um grande comboio inglês com finalidades mercantis está em alto mar e cerca de dez mil homens estarão em perigo caso não seja descoberta em no máximo quatro dias a localização dos navios alemães. Para não deixar a trama extremamente maçante, baseando-se no romance do escritor Robert Harris, o roteirista Tom Stoppard, vencedor do Oscar pelo texto de Shakespeare Apaixonado, adorna seu suspense de guerra com uma subtrama levemente romântica. Em sua primeira temporada em Bletchley, Jericho se envolveu com Claire (Saffron Burrows), uma bela mulher que aparentemente só queria se divertir com o matemático, mas para ele o envolvimento não foi só distração. O problema é que ela simplesmente sumiu e nem a amiga com quem divide a casa, Hester Wallace (Kate Winslet), sabe de seu paradeiro, mas ela aceita ajudar Jericho nas buscas que ficam ainda mais confusas com as desconfianças de que Claire estaria realizando serviços de espionagem para os alemães.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

EDWARD MÃOS DE TESOURA

NOTA 10,0

Embora para muitos seu valor
tenha diminuído com as reprises
na TV, esta fantasia ainda diverte
e emociona como poucas obras
Qualquer pessoa que conheça o mínimo possível de cinema sabe que a parceria do diretor Tim Burton e do ator Johnny Depp é uma das mais longas e produtivas de todos os tempos. É um daqueles raros encontros cuja emoção ultrapassa os limites da ficção e mesmo quando o filme não é lá grande coisa os fãs da dupla estão apostos para exaltá-lo afinal este seria mais um tijolinho a reforçar esta sólida amizade e é um prazer inenarrável ser testemunha sentimental da construção desta relação, ainda mais sabendo que nos bastidores desta indústria a guerra de egos é intensa e os amigos da onça existem em peso. Esta trajetória começou no início dos anos 90 e provavelmente no futuro deve render alguma homenagem cinematográfica afinal ambos têm carreiras com projetos interessantíssimos e eles próprios são figuras que despertam curiosidades. Revisitar tal história é delicioso, ainda mais se voltarmos ao início de tudo. Burton é um cineasta que escreveu sua trajetória no cinema na base de bizarrices praticamente. Dono de um visual um tanto excêntrico e adepto do estilo gótico para ornamentar seus trabalhos, o campo do terror e do suspense poderia ser seu habitat natural, mas não é bem assim. Apesar de já ter trabalhado com histórias de arrepiar, o que ele mais gosta mesmo é de fazer as plateias sonharem de forma diferenciada. Com muita sinceridade e sensibilidade o diretor já conseguiu construir verdadeiros clássicos das sessões da tarde que agradam a todas as idades, desde crianças bem pequenas até os idosos, e sempre imprimindo suas marcas. Dificilmente alguém com mais de vinte anos não tem a lembrança de ao menos uma vez na vida ter esperado com ansiedade a exibição na TV ou ter entrado na fila de espera da locadora para assistir Edward Mãos de Tesoura, um daqueles filmes que marcam época mesmo contando uma singela e até certo ponto previsível história. É óbvio que aqui também faz diferença o apuro visual, mas esqueçam os efeitos especiais mirabolantes. A magia desta produção se concentra em seu aspecto artesanal, atestando que tudo realmente foi feito por mãos talentosas e precisas. O cineasta demonstra criatividade para mesclar a fantasia e referências cinematográficas e literárias de forma que até o público infantil se sentisse atraído para entrar nesse misterioso e fascinante mundo, não se assustando nem mesmo com os primeiros minutos que são mergulhados em uma atmosfera dark. Todavia, o tom de fábula está presente em todas as sequências do filme, a começar pela opção de uma senhora de idade logo na introdução passar a contar para a neta a história do personagem-título como se fosse um conto de ninar. A cidade onde a trama se passa parece um paraíso, os vizinhos se dão bem, as casas são bonitas e padronizadas e seus moradores em geral são estereotipados propositalmente, cada qual com um papel bem delineado. Tem a mulher bondosa, a sedutora, a gordinha fofoqueira, o jovem valentão, a mocinha romântica... O que tira o projeto da mesmice é justamente seu protagonista cuja personalidade, postura e visual destoam totalmente do restante da população provinciana. Pode-se dizer que tal criação seria uma metáfora, um grito para chamar a atenção. Ainda tentando ter seu trabalho aceito pelo mercado cinematográfico, Burton na época se sentia um esquisitão no meio, mas não se rendia as exigências de Hollywood e tocava sua carreira com projetos pessoais e correndo atrás dos recursos financeiros.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O APANHADOR DE SONHOS

NOTA 2,0

Baseado em obra de Stephen King,
longa engana com seu título, é
confuso, uma mistura de gêneros
e abusa de violência e escatologia
Quem é realmente aficionado por cinema certamente já não cai mais na armadilha da frase “baseado na obra de Stephen King” ou algo do gênero. Agora quem não é muito aprofundado no assunto as chances de se arrepender ao acreditar em tal golpe de publicidade são bem grandes. O famoso autor de livros de suspense, horror e alguns poucos dramas já teve boa parte de suas publicações adaptadas para o cinema, mas nem sempre os resultados em película foram satisfatórios. O Apanhador de Sonhos é um exemplo que se encaixa na lista dos equívocos. A proposta inicial era realizar um suspense cujo estopim seria a presença de criaturas alienígenas entre os humanos, algo já bastante explorado pela sétima arte, mas o problema é que além de enfadonho este trabalho ainda conta com cenas grotescas, efeitos visuais duvidosos e na reta final aposta no que há de pior dos clichês dos filmes de terror. Se a obra literária é semelhante a sua versão cinematográfica certamente King não estava em seus melhores dias. Aliás, ele escreveu o livro em 1999 enquanto se recuperava de um atropelamento, não era um momento favorável. O roteirista William Goldman já havia explorado o universo do escritor um ano antes ao adaptar seu livro Lembranças de um Verão, mas nesta nova empreitada se deu mal. A introdução promete algo interessante. Jonesy (Damian Lewis), Henry (Thomas Jane), Beaver (Jason Lee) e Pete (Timothy Olyphant) são amigos há muitos anos e parecem ter uma espécie de ligação telepática. Em flashbacks os conhecemos na fase da pré-adolescência quando eles acabam realizando um ato heróico ao salvarem o deficiente mental Douglas (Donnie Wahlberg na fase adulta do personagem) de uma situação humilhante provocada por alguns adolescentes valentões. Duddits, como se autodenomina, acaba sendo acolhido pelo grupo e em troca oferta a cada garoto algum tipo de poder paranormal. Os minutos iniciais mostram como o quarteto já adulto lida com esses dons, o que poderia indicar que um bom suspense psicológico está começando a ser construído. Logo em seguida um atropelamento que não acrescenta nada à trama já nos faz repensar as expectativas, mas vamos em frente. O grupo de amigos, com exceção de Duddits que nunca mais foi visto, tem o costume de se reunir anualmente para caçar nas florestas geladas do Maine, nos EUA, mas desta vez a viagem será muito diferente. Uma enorme nevasca atinge a região e coincidentemente um estranho caçador aparece na cabana dos rapazes pedindo ajuda, mas sem desconfiar da doença que carrega consigo, algo literalmente de outro mundo.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

CINDERELA (1950)

NOTA 9,0

Clássico conto infantil salvou
as finanças da Disney em
tempos de crise e até hoje
emociona com sua delicadeza
Não tem mais jeito. A cada ano que passa menos espaço as animações tradicionais encontram no mercado de exibição, sendo assim tais produções sobrevivem através dos lucros com locadoras e varejos, mas acabaram se tornando obras restritas a plateias de crianças bem pequenas ou de adultos nostálgicos. Os desenhos mais moderninhos são bacanas, divertem a todas as idades e a maioria está repleta de críticas ou sarcasmos implícitos, mas já faz algum tempo que esses filmes estão se tornando repetitivos ou até mesmo com histórias fracas. Nestas horas dá até saudades da simplicidade dos traços e da ingenuidade das narrativas dos longas-metragens animados antigos, corrente em que obviamente o Sr. Walt Disney e sua equipe de desenhistas e roteiristas se destacavam. Cinderela é uma opção muito bem-vinda para sair da rotina e comprovar que a genialidade destes criadores é imortal. Embora o conto da gata borralheira seja super conhecido e demasiadamente açucarado, o estilo antigo de fazer animação é o grande chamariz no caso, mas não é só isso. Além dos traços suaves e os tons aquarelados, ainda temos uma trama envolvente e a convidativa trilha sonora, enfim tudo aqui vale a pena. A história original já sofreu inúmeras modificações com o passar dos anos em suas diversas adaptações para o cinema, teatro, televisão e até na própria literatura. Embora a versão dos famosos Irmãos Grimm seja levada em conta como o texto original, o visionário empresário Disney deu sinal verde para a produção deste longa animado baseando-se no livro homônimo de Charles Perrault. Escritor de origem francesa, ele também foi o autor das adaptações mais populares de “A Bela Adormecida” e “Chapeuzinho Vermelho”. Com a direção de Clyde Gernimi, Hamilton Luske e Wilfred Jackson, o longa narra a história da bela e gentil Cinderela, uma jovem que perdeu o pai muito cedo e foi criada por sua madrasta, Lady Tremaine, em companhia de suas duas meias-irmãs. Obrigada a fazer todos os serviços domésticos da casa, a moça nunca se sentiu parte desta família e seus únicos amigos são alguns animaizinhos que a rodeiam, como alguns ratinhos. São justamente eles que ajudarão Cinderela a realizar um grande sonho: ir ao baile promovido pelo príncipe que deseja encontrar sua futura esposa. A madrasta faz de tudo para evitar que a enteada compareça ao baile, pois quer que uma de suas filhas legítimas conquiste o rico anfitrião, mas quando menos espera a moça esnobada recebe a visita da bondosa Fada Madrinha que lhe arruma um belo vestido de festa, transforma os ratinhos em cavalos e cocheiros para conduzir a carruagem feita a partir de uma abóbora e, por fim, oferece a ela um par de sapatos de cristal. Porém, toda essa magia só dura até o relógio soar a meia-noite, o que obriga Cinderela a sair correndo no melhor da festa, quando finalmente conseguiu se aproximar do príncipe. O rapaz não sabe seu nome e nem onde ela mora, tendo como única pista o sapato que ela deixa cair na escadaria do palácio.

terça-feira, 16 de julho de 2013

OS SUSPEITOS

NOTA 8,5

Intricada trama policial não
perdeu o vigor e ainda é uma
opção válida em tempos em que
o espectador é subestimado 
Os filmes policiais já tiveram seus tempos áureos, mas como tudo que é demais enjoa o gênero encontra-se em decadência a alguns anos sobrevivendo as custas de produções medianas ou medíocres que em geral não fazem mais nada que oferecer o arroz com feijão de sempre com direito a final previsível como surpresa. Para os saudosos de brincar de detetive e ladrão junto com os personagens, mas com qualidade e inteligência, o jeito geralmente é recorrer a produções antigas. Uma boa dica é rever, ou para as novas gerações descobrir, Os Suspeitos, uma intricada trama cujo roteiro foi merecidamente agraciado com o Oscar. Livremente inspirado no clássico O Segredo das Jóias, um filme com estilo noir que o famoso John Huston dirigiu em 1950, este é o segundo longa da carreira do diretor Bryan Singer que ficou em evidência nos últimos tempos por causa de suas aventuras com os mutantes dos quadrinhos "X-Men". O novato na época surpreendeu construindo uma boa história sobre homens que sonhavam em chegar ao topo, mas que seguiram caminhos errados para tanto e terminaram encontrando a própria desgraça. Para contar essas desventuras o cineasta contou com um elenco afiado e de peso (bem, hoje em dia alguns são contratados a peso de ouro, mas na época ainda eram estrelas de pouco brilho). Com uma produção modesta, o longa era como o representante dos independentes da temporada de premiações 1995/96 e infelizmente hoje em dia é mais lembrado justamente por suas indicações e prêmios conquistados, uma injustiça que precisa ser corrigida a um trabalho muito superior a produções atuais. Roteirizado por Christopher McQuarrie, a trama começa com um incêndio no cais de Porto de San Pedro, na Califórnia, no qual 27 pessoas morreram e apenas dois homens sobreviveram, um húngaro extremamente debilitado por conta das queimaduras e Roger “Verbal” Kint (Kevin Spacey), criminoso pé-de-chinelo portador de um defeito físico que saiu ileso do episódio e, como seu próprio apelido indica, não é de hesitar em falar mais do que deve. Ele será a principal testemunha que ajudará o detetive David Kujan (Chazz Palminteri) a solucionar o mistério, mas lhe farão companhia na detenção outros quatro suspeitos: o bandido de quadrilhas Michael McManus (Stephen Baldwin) e seu parceiro de crimes Fred Fenster (Benicio Del Toro), o especialista em armas pesadas Todd Hockney (Kevin Pollack) e o ex-tira corrupto Dean Keaton (Gabriel Byrne). Não é apena a quantidade numerosa de mortos que motivam tal investigação mas também o sumiço de uma quantia de dinheiro extraordinária. No barco que explodiu estaria sendo negociado um carregamento de drogas oriundo da Argentina, mas a ação foi sabotada por alguém.  As suspeitas recaem sobre um lendário terrorista da Hungria conhecido como Keyser Soze.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

APRENDENDO A MENTIR

NOTA 7,0

Comédia romântica alemã visa
fisgar público jovem, mas não
abandona a tradição de inserir
a trama em contexto histórico
Quando pensamos nos primórdios da História do cinema é comum nos lembrarmos da ingenuidade e da genialidade dos filmes mudos o que nos remete imediatamente ao cinema americano, mas muitos outros países tiveram contribuições significativas na evolução cinematográfica compreendida entre o final do século 19 até meados da década de 1930, quando com o advento do som e das cores aconteceu uma seleção natural de quem seguiria em frente e quem infelizmente acabaria suplantado pelas novas tecnologias. O tão comentado expressionismo alemão é uma das correntes mais fortes deste período inicial da sétima arte e até hoje faz escola inspirando cineastas contemporâneos, todavia, o cinema alemão durante muitos anos viveu no ostracismo, com raros lampejos de obras relevantes, mas a partir de meados de 1998 demonstrou intenções de querer voltar a disputar mercado, ainda que de forma tímida. Esqueça aquela visão quadrada de que cinema europeu necessariamente tem que ser representado por longas épicos, com figurinos e cenários luxuosos, intérpretes com rostos perfeitos e paisagens de encher os olhos. A nova (bem nem tão recente assim) safra de filmes oriundos da Alemanha tem o objetivo de cativar plateias mais jovens, busca aliar entretenimento, cultura e algum retorno comercial, coloca em cena pessoas com feições mais populares e tenta dialogar com o cotidiano e a contemporaneidade. Timidamente Corra, Lola, Corra deu o pontapé inicial nessa estratégia e talvez seu ápice tenha sido atingido com a boa repercussão de Adeus, Lênin!, mas em geral a filmografia recente alemã ainda fica restrita a mostras e festivais o que torna um achado e tanto quando nos deparamos com uma obra do tipo sendo exibida nos cinemas ou sendo lançada em DVD. Pena que piscou perdeu. Aprendendo a Mentir está longe de ser um grande filme germânico, mas é um produto que mostra que fora do circuito Hollywood pode sim existir cinema comercial, contudo, é quase uma raridade encontrá-lo hoje após anos de um lançamento praticamente invisível e tardio. Adaptado do romance “Liegen Lernen”, de Frank Goosen, a trama gira em torno de um rapaz que vê sua vida amorosa se tornar um caos graças as lembranças mal resolvidas de sua primeira paixão. Helmut (Fabian Busch) é um jovem tímido e não muito descolado, mas mesmo assim ele consegue chamar a atenção de Britta (Susanne Bormann), a garota mais popular de seu colégio. Eles começam a ficar cada vez mais próximos até que começam a namorar escondido, uma exigência dela, porém, a felicidade do casal é interrompida justamente na noite de Natal após a primeira relação deles quando a moça o avisa que decidiu deixar Berlim para ir aos EUA estudar e morar com o pai por um ano.

domingo, 14 de julho de 2013

EM BUSCA DA FELICIDADE

Nota 3,0 Inconsistência emocional do roteiro e passagens desperdiçadas reduzem a obra

Um título bonito, trama envolvendo crianças e nomes razoavelmente famosos constando nos créditos. Para completar, aquela bela publicidade destacando um ambiente bucólico em tons pastéis. Essa é a fórmula perfeita para um drama chamar a atenção, principalmente quando ele é lançado diretamente em DVD. As cores claras parecem um atestado de qualidade e se destacam em meio aos montes de filmes expostos nas prateleiras de lojas e vitrines virtuais, mas é triste constatar que nem sempre a receita dá certo como no caso de Em Busca da Felicidade, produção ligeira feito um rastilho de pólvora. A trama escrita e dirigida por Brad Isaacs tem boas intenções, mas sua realização é difícil de engolir, ainda que para espectadores menos exigentes o longa seja merecedor de elogios. Ben (Cayden Boyd) é quem narra a sua própria história de vida. Prestes a completar 13 anos, ele já se sente em condições de fazer uma avaliação de tudo o que viveu até então e o saldo é extremamente negativo. Para começar, ele afirma que seu pai (Matthew Modine) e sua mãe (Lara Flynn Boyle) jamais deveriam ter se casado, tampouco ter um filho. O garoto que recebe pouca atenção dos pais nasceu de um encontro casual entre um homem que só pensa em cuidar do seu barco, mesmo estando no Oeste do Texas a muitos quilômetros do mar, e de uma mulher apaixonada pelas estrelas hollywoodianas, tanto que, ao que tudo indica, trai o marido com tipos inspirados em personagens de filmes. Curiosamente, sua família acaba aceitando em casa a presença de Cassie (Anna Sophia Robb), uma garota que perdeu os pais em um acidente ocorrido bem na frente do restaurante deles. Os dois pré-adolescentes insatisfeitos com suas vidas resolvem se unir e fugir em busca de um plano de vida. Durante a trajetória, eles resolvem reforçar a união em um casamento simbólico e vão seguindo em frente graças a caroneiros que os ajudam e assim eles vão chegando cada vez mais perto da casa dos tios de Cassie, vividos por Heather Graham e Dylan McDermont (os parentes tanto da menina quanto do garoto não tem nomes mencionados), duas figuras um tanto atípicas e sem padrões rígidos de comportamento, detalhe relevante já que tudo indica que as ações se passam em meados da década de 1960 e em região interiorana e tradicionalista.

sábado, 13 de julho de 2013

DEMÔNIOS

Nota 1,0 Longa enfadonho recicla, e de forma péssima, os clichês de filmes sobre possessão

É curioso o fascínio que o gênero terror exerce sobre seu público aficionado e principalmente nas platéias adolescentes. Chama ainda mais a atenção a quantidade de filmes medíocres do tipo que são lançados anualmente, mas ao que tudo indica os trashs movies nunca saíram de moda e quanto mais toscas as produções melhor para agradar os espectadores cativos. Só assim para explicar a existência de fitas como Demônios e os seus diversos comentários razoavelmente positivos de populares que pipocam em sites e blogs especializados. A julgar pelo título, não é preciso ser gênio para descobrir que o filme escrito e dirigido por Warren P. Sonoda foi buscar inspiração em questões religiosas e ainda procurou abordar o tema bruxaria na mesma receita. A trama se passa na soturna escola católica para meninas St. Marks, local onde no passado a jovem aluna Elizabeth (Krysta Carter) foi possuída por uma entidade demoníaca e desapareceu. Por causa do escândalo durante anos a instituição ficou fechada, mas reabriu suas portas para agora servir como uma espécie de reformatório para moças desencaminhadas na vida. Sob a tutela do padre Drake (Ron Perlman) e da diretora Anne (Amy Ciupak) as novas alunas Alex (Jennifer Miller), Mara (Jordan Madley), Connie (Tasha May Currie), Leah (Barbara Mabolo) e Cecília (Terra Vnesa) vão viver dias terríveis sendo forçadas a orar, ter lições em latim, sofrerem castigos perversos além de viverem trancadas na escola. Seus pais a enviaram à instituição por já estarem cansados de seus comportamentos desvirtuados, como o uso de drogas e constantes acessos de raivas, mas parece que tais rebeldias eram requisitos básicos para elas entrarem em St. Marks, além do fato incomum de todas serem virgens, detalhes que começam a fazer sentido quando estranhos acontecimentos passam a colocar em risco a vida e a sanidade das garotas. Explorando as dependências proibidas do prédio, elas descobrem a história de Elizabeth que se suicidou para se defender da Legião, maneira como o demônio se apresenta afirmando que ele não é apenas uma entidade, mas sim a reunião de muitas almas más. A jovem que se matou era uma alma muito boa, portanto, não servia para propósitos maléficos.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A HORA DO ESPANTO (2011)

NOTA 7,0

Refilmagem procura manter
o clima obscuro e o tom de
humor da obra original, mas
efeitos especiais prejudicam
Em uma época em que o produto filme é tratado praticamente como um lixo até mesmo por aqueles que se dizem cinéfilos de carteirinha ou pode ser comparado a uma refeição de restaurante fast food que tem tempo cronometrado de validade e, diga-se passagem, uma vida útil bem curta, recorrer aos remakes infelizmente parece ser a única maneira de fazer com que as novas gerações conheçam produções de sucesso do passado. Os produtores de cinema, até pela falta de bons roteiros no mercado, acabam recorrendo ao túnel do tempo em busca de enredos que marcaram época acreditando que com um título famoso em mãos o sucesso é garantido, mas é certo que nas comparações entre o original e a refilmagem o precursor geralmente sai ganhando e a nova versão passa a ser alvo de críticas negativas afinal o primeiro é novidade, o que vem depois é mais do mesmo. O público provavelmente já devia estar cansado de decepções com remakes e por isso não deu muita bola para a segunda versão de A Hora do Espanto, clássico de terror dos anos 80 que conseguiu se destacar em meio a tantas produções sanguinolentas da época justamente por causar impacto nas plateias muito mais por sugestionar o medo do que o escancarando por completo. Nem mesmo a publicidade que a refilmagem chegaria aos cinemas em versão 3D fez o público se entusiasmar a sair de casa, tanto que no Brasil o longa teve uma passagem relâmpago e vergonhosa pelas salas de exibição e nem mesmo em solo americano fez barulho. Será que as pessoas já estavam calejadas de remakes duvidosos ou felizmente perceberam que os efeitos tridimensionais é apenas uma trucagem dos estúdios para roubar alguns trocados a mais de seus bolsos? Bem, realmente os efeitos em três dimensões neste caso são péssimos e nas versões comuns acabam estragando sequências inteiras pelo toque de artificialidade que conferem a elas. Por outro lado, é uma pena que alguns até hoje não tenham visto a recriação de Craig Gillespie, cineasta que despontou com a comédia dramática A Garota Ideal. Sua versão para este marco do terror não é tão boa quanto a original, mas passa longe de ser uma decepção total simplesmente porque ele tinha consciência de que este trabalho não poderia almejar ser mais do que o original foi: um delicioso “terrir”. Assim o diretor combinou diversão e tensão em doses generosas, uma mistura que parece que o cinema de horror descartou hoje em dia, mas precisou abrir mão do teor sexual que continha no primeiro filme afinal foi uma das empresas do grupo Disney que financiou o projeto. Todavia, ainda assim a obra não é açucarada, pelo contrário, conta com um delicioso clima sedutor sem precisar exibir nudez ou cenas constrangedoras. Além disso o tom de suspense foi mantido graças ao empenho da equipe cenográfica e de fotografia que capricharam para manter uma aura de mistério a cada novo take.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

SEXY BEAST

NOTA 4,0

Ben Kingsley é a alma de
produção que brinca com os
esterótipos dos gângsteres,
mas uma obra esquecível
Ben Kingsley é um dos atores mais renomados do cinema, carrega um título de nobreza, tornou-se famoso mundialmente após o Oscar pelo papel-título de Gandhi e é conhecido por escolher com cautela os seus projetos (há controvérsias), mas será que apenas sua presença pode salvar um filme ou ao menos torná-lo razoavelmente tolerável? A resposta é sim, basta tomarmos como exemplo a mescla de suspense e ação Sexy Beast, longa-metragem de estreia do cineasta britânico Jonathan Glazer que futuramente dirigiria Nicole Kidman no drama Reencarnação. Com um tempo de arte enxuto e usando a ironia como muleta, o diretor preparou uma história de gângster sem se preocupar em renovar o subgênero, apenas apostando na simplicidade. O roteiro de Louis Mellis e David Scinto começa de uma forma inusitada, que pode tanto aguçar a curiosidade quanto também fazer o espectador desistir de seguir adiante logo pelos cinco primeiros minutos de projeção. Durante os créditos iniciais conhecemos o ex-criminoso Gal (Ray Winstone), um homem que está longe de ter um belo corpo, mas mesmo assim ele está usando uma pequena sunga amarela, literalmente tostando sob o sol escaldante e em seus pensamentos narrados em off ele próprio se cobre de elogios e faz algumas piadas toscas como dizer que seu barrigão está tão quente que poderia fritar um ovo em cima dela. Parece brincadeira, mas a parada começa assim mesmo. Nessa introdução ainda fica no ar a impressão de que ele explora o trabalho de um menor de idade que realiza as tarefas domésticas, conhecemos sua esposa Deedee (Amanda Redman) no melhor estilo perua, imagem posteriormente revertida, e uma imensa pedra cai de um barranco e faz um super buraco na piscina do bon-vivant. Sabendo de antemão que é um filme protagonizado por um antigo fora-da-lei podemos deduzir que tal situação estapafúrdia seria a vingança de algum desafeto dele. Errado. O lance do rochedo não agrega nada a trama ou apenas serve literalmente para tapar um buraco lá no final. Bem, se você não achar ridículo tal início pode até ser que ache alguma graça no restante do enredo. Após anos dedicados aos crimes, Gal juntou uma boa quantia de dinheiro e trocou a fria Inglaterra pela ensolarada Espanha, onde agora curte a vida numa boa e não pensa mais voltar a sua antiga “profissão”. Contudo, uma vez bandido sempre bandido.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A CONDESSA BRANCA

NOTA 8,0

A Xangai da década de 1930,
efervescente e conflituosa, é o
cenário de uma história de amor
que une dois desiludidos
Estamos acostumados a atribuir somente ao diretor geral os créditos dos filmes. Raramente os nomes dos roteiristas são ostentados, salvo quando também comandam as ações nos sets de filmagens. Produtores até que nos últimos anos têm sido lembrados, principalmente para ajudar na venda de filmes lançados diretamente em DVD fazendo referências a sucessos do cinema destes profissionais, o que geralmente engana o espectador que acaba por fazer associações positivas entre as citações e os produtos que nem sempre podem corresponder as expectativas. Nos últimos anos, entre os produtores de cinema destacaram-se os nomes de Bob e Harvey Weinstein, dupla que em pouco mais de uma década conseguiu transformar o cinema independente e fora de Hollywood no biscoito fino das principais premiações, tanto que antes da produtora Miramax ser adquirida pela gigante Disney eles conseguiram somar mais de  uma centena de indicações e dezenas de estatuetas do Oscar. Curiosamente, pouco tempo antes da dupla sacudir o cenário cinematográfico um outro produtor era sinônimo de cinema de qualidade e digno de prêmios, mas seu nome sempre estava atrelado ao de um diretor específico. Grandes trabalhos que marcaram os anos 80 e o início dos anos 90, como Uma Janela Para o Amor e Retorno a Howards End, levavam nos créditos a grife Merchant-Ivory, ou seja, a assinatura do indiano Ismail Merchant como produtor e a do californiano James Ivory como diretor. A dobradinha foi repetida diversas vezes e sempre que um novo produto com a marca dava sinais de vida já começavam as especulações sobre possíveis prêmios, afinal suas obras ficaram conhecidas por sem dotadas de bons enredos, elencos competentes e plasticidades impecáveis. O problema é que após o ano de 1993, quando emplacaram Vestígios do Dia, a grife começou a dar sinais de desgaste e suas produções já não chamavam tanto a atenção como antes, coincidindo com a entrada maciça dos Weinsteins no mercado. A Condessa Branca é a derradeira obra de Ivory em parceria com Merchant, este que veio a falecer pouco tempo depois da conclusão das filmagens. Lançado diretamente em DVD no Brasil e sem repercussão ou publicidade, este competente e envolvente drama de época não merece tal desprezo, mesmo com a duração acima da média e o estilo convencional e acadêmico já tradicional da dupla. Não por acaso a obra nos remete a clássicos como Casablanca.

terça-feira, 9 de julho de 2013

AEON FLUX

NOTA 2,5

Baseado em série de animação
de pouca projeção, longa sobre
futuro realmente está há anos-luz
de empolgar o espectador
O gênero de ficção científica já gozou de muito prestígio décadas atrás quando as produções não só procuravam impactar o público com efeitos especiais gerados com o que havia de mais moderno em termos de tecnologia, mas também com enredos que serviam como alegoria ou faziam alusões ou críticas a temas contemporâneos à época. O tempo passou e a overdose de produções que vislumbravam como seria o futuro da humanidade acabou chegando a um nível de saturação muito grande, até porque se tornaram muito mais reféns dos efeitos visuais, e o gênero acabou se resumindo a algumas poucas produções capengas lançadas diretamente para abastecer locadoras, raramente sendo exibidas nos cinemas. Com a popularização dos jogos de vídeos games e dos seriados que se tornaram populares ao exibir visões apocalípticas do mundo futurista, a ficção científica renovou seu fôlego timidamente, o que não significa necessariamente algo bom. Se por um lado realimentou a esperança de um gênero fadado a extinção, as produções do tipo lançadas nos primeiros anos do século 21 são totalmente desnecessárias, salvo raras exceções. Um bom exemplo de tempo e dinheiro desperdiçado é Aeon Flux. Quem? Se você se fez essa indagação este é mais um motivo para afirmar que a diretora Karyn Kusama se dedicou a um trabalho insípido. O título desta aventura futurista é o mesmo nome de sua protagonista, uma heroína de pouca projeção de um modo geral, mas que de certa forma marcou a adolescência ou sua fase inicial de muito marmanjo. Exibida em meados dos anos 90 pela MTV (inclusive no Brasil), emissora que então começava a viver o ápice de sua popularidade, a série de animação feita para adultos criada por Peter Chung mostrava como estaria o Planeta Terra daqui a quatro séculos. A trama roteirizada por Phil Hay e Matt Manfredi para o filme segue a mesma premissa, porém, sua história é tão frágil e desinteressante que acaba perdendo espaço inquestionavelmente ao visual do longa, isso porque em termos técnicos a cineasta, em sua segunda experiência atrás das câmeras, só oferece o básico que se espera de uma produção de tal porte. Com tal comparação você já tem uma ideia do que te espera. Por ter dirigido um obscuro filme chamado Boa de Briga é que Karyn deve ter conseguido o passe livre para assumir a direção desta aventura que passou por inúmeros percalços em sua pré-produção. Se forem pancadarias milimetricamente coreografadas que a geração MTV quer é o que ela teria, pensaram certamente os produtores do canal que abraçaram o projeto em seu núcleo cinematográfico. O difícil é entender como Charlize Theron embarcou nessa, ainda mais sendo este o seu primeiro longa lançado após o Oscar por Monster – Desejo Assassino.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

MARGOT E O CASAMENTO

NOTA 7,5

Longa disseca a intimidade de
família problemática abordando
temas cotidianos, mas encontra
dificuldades de atingir o público
Nomes famosos em uma produção adornada por um semblante de obra alternativa ou com ares de filme para intelectuais não ajudam nas bilheterias, isso é fato, e em sua maioria ainda precisam lidar com as críticas implacáveis e negativas daquelas pessoas “fora do meio”, ou seja, o público que se sente atraído pelos atores e não pelas histórias em si. Geralmente quem acaba pagando o pato são os próprios atores que se tornam vítimas de achincalhes e repulsas, afinal para todos os efeitos são eles que colocam literalmente a cara para bater na publicidade destes trabalhos. Talvez justamente para não impactar de forma negativa os fãs de Nicole Kidman e Jack Black é que o drama Margot e o Casamento foi lançado discreta e diretamente em DVD no Brasil, ainda mais levando em consideração a ínfima bilheteria arrecadada nos EUA. Bem, podemos considerar tal atitude por parte da distribuidora responsável como um ato de respeito ao público em geral para não fazê-lo comprar gato por lebre. Os artistas mencionados somados ao romântico título podem vender erroneamente a ideia que este projeto é uma comédia açucarada, mas basta dizer que este é um drama familiar escrito e dirigido por Noah Baumbach, nome que ficou famoso no circuito alternativo com o elogiado A Lula e a Baleia, para percebermos que de comercial a obra não tem nada, pelo contrário. Parece que produções do tipo acabam por se beneficiar de ostentar um pequeno público, o que inerentemente lhe confere o status de filme-cabeça algo que, curiosamente, pode tanto afastar quanto atrair a atenção de populares. No caso do título em questão, que preserva certas semelhanças ao citado trabalho de estreia do conceituado roteirista atrás das câmeras, a rotulagem, ao que tudo indica, trouxe a indiferença, embora existam na internet comentários relativamente positivos à obra que realmente não é ruim, mas peca ao não dar brecha para que o espectador se sinta fazendo parte da trama, ou melhor, tem uma trama aparentemente sem atrativos para grande parte do público que, infelizmente, está acostumado a assistir filmes de modo passivo, as imagens devem falar por si só, assim o excesso de diálogos acaba dispersando atenção facilmente. Logo nas primeiras cenas temos a escritora Margot (Kidman) viajando de trem com o filho, o pré-adolescente Claude (Zane Pais). Eles estão a caminho do encontro com o passado desta mulher, hoje uma pessoa que demonstra ter opiniões firmes, um padrão de vida confortável e dedicada ao filho, este que no fundo sente a falta de uma figura paterna. De volta a cidade onde foi criada, ela reencontrará sua irmã Pauline (Jennifer Jason Leigh) após muitos anos devido a desavenças e diferenças de temperamentos e personalidades, embora quando jovens o relacionamento entre elas tenha sido de cumplicidade. Mesmo com o ruído estabelecido e persistente na comunicação das irmãs, Pauline convida Margot para seu casamento, talvez embriagada pelo espírito familiar inerente à ocasião. A outra, por sua vez, aceita o convite provavelmente por esconder que sente falta de laços afetivos concretos em sua vida, mas sua língua afiada pode piorar o que já estava ruim. O casamento é o motivo de um reencontro, mas de certa forma também a razão para novas desavenças entre as irmãs que hoje não são mais as mesmas de outrora, mas ainda carregam problemas que precisam ser superados.

domingo, 7 de julho de 2013

BILHETE PREMIADO

Nota 3,0 Previsível, comédia de humor negro, na falta de ousadia, tenta se segurar no romance

A cineasta Nora Ephron sem dúvidas conseguiu com vários de seus trabalhos elevar a cotação do gênero comédia romântica tornando-o popular e rentável com produções como Sintonia de Amor e Mensagem Para Você. Como muitos filmes do tipo e com temática similares começaram a ser lançados, a diretora procurou virar o século experimentando algo levemente novo: o humor negro. Lançado em 2000, Bilhete Premiado teve sua estreia adiada várias vezes até que finalmente chegou às telonas para ficar umas duas semanas em cartaz. Nem mesmo no mercado de locações funcionou. Além do fracasso em solo americano que ajudou na publicidade negativa, o longa ainda tinha outra mandinga: John Travolta. Na época o ator estava com sua carreira indo ladeira abaixo com sucessivos fiascos profissionais e esta comédia só veio a ampliar a lista. Ele dá vida a Russ Richards, o meteorologista de uma famosa emissora de TV, mas seus esforços estavam longe de serem reconhecidos como ele desejava e sua vida profissional ia de mal a pior (seria coincidência ou uma autoironia o ator encarnando tal zero à esquerda?). Praticamente falido depois que suas chances de lucros vendendo motocicletas especiais para neve derreteram devido a um inverno com temperaturas altíssimas, o cara ficou devendo até as cuecas na praça e para conseguir se reerguer resolveu montar um esquema com o amigo Gig (Tim Roth) e Crystal (Lisa Kudrow), sua namorada. A garota é a responsável por sortear os números da loteria na televisão, mas também não vê um futuro profissional promissor para si mesma. É óbvio que a ideia é fraudar o concurso e mais previsível ainda que algo dê errado. O que parecia fácil acaba se tornando uma grande encrenca e o trio de espertalhões se vê envolvido em uma trama com direito a assassinatos e outros pilantras de olho na bolada milionária. O que poderia render uma comedia razoável, mesmo com o enredo transbordando clichês, acaba se tornando um programa tedioso, talvez por culpa da própria Ephron que entende de humor meloso, mas não conhece o universo da malandragem.

sábado, 6 de julho de 2013

O AMOR DE UM PAI

 Nota 7,0 Baseado em fatos reais, longa é previsível, mas cativa com trama de amor e superação

Ah, a juventude... Como é boa a sensação de que você pode fazer tudo o que quiser e ter a esperança de que seu futuro será brilhante. No entanto, basta um passo em falso para que as coisas tomem rumos diferentes. É isso que irá aprender o jovem John (Drew Seeley), o protagonista do singelo drama O Amor de um Pai. O roteiro escrito por Bill Wells não começa muito promissor e investe pesado em clichês. Nosso personagem principal está se formando no colegial e é o estereótipo do rapaz perfeito, com um futuro promissor, bem relacionado e que é desejado por todas as garotas. Amante dos esportes, porta-voz de sua turma e esbanjando beleza e simpatia, para completar ele namora Kathy (Britt Irwin), uma das alunas mais bonitas da escola, com quem obviamente ele vence o tradicional concurso de rei e rainha do baile de formatura. Clássico não é mesmo? Apesar de muito novos, eles já tinham planos para uma vida a dois, mas uma notícia inesperada os pega de surpresa e promove mudanças drásticas no cotidiano do casal. A garota descobre estar grávida e, apesar do choque inicial, eles decidem que vão continuar juntos. Para ela a chegada de um bebê apenas somaria aos afazeres domésticos afinal não tinha planos de seguir alguma profissão, mas para John a novidade pesa. Ele gostaria de se formar em administração na conceituada Universidade de Harvard, porém, estudar cálculos e fórmulas matemáticas entre uma troca de fralda e uma canção de ninar não é nada fácil. Mesmo com os esforços do professor Cowell (Julian Christopher), que percebia no rapaz um grande potencial, levar os estudos paralelo a vida de chefe de família o desnorteava.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

CARROS 2

NOTA 6,5

Continuação de animação de
sucesso é agradável apesar de
alguns problemas, mas espera-se
mais de um produto Pixar 
A Pixar tem o poder do toque de Midas. Tudo que coloca a mão vira ouro afinal já virou sinônimo de qualidade e criatividade, assim seu público e lucros altos estarão sempre garantidos a cada novo lançamento. Bem, rendimentos consideráveis certamente ela consegue tanto nos cinemas quanto com a venda de DVDs e outras mídias, além é claro do faturamento oriundo de produtos licenciados para explorarem seus personagens, mas é bom não descuidar para não sofrer uma colisão com as críticas. Demorou bastante, mas a produtora não escapou de viver seu inferno astral. Após mais de dez filmes bem sucedidos junto ao público e colhendo elogios e prêmios, foi justamente com um produto que teoricamente já teria vencido todos os desafios possíveis ainda com o trabalho em pré-produção que a empresa derrapou. Com Carros 2, continuação do sucesso de 2006, pela primeira vez o estúdio levou uns puxões de orelha por parte da crítica especializada e até mesmo do próprio público. Claro que é impossível nunca haver um escorregão na vida de uma produtora e a vez do aclamado estúdio de animação computadorizada chegou. Na época a Disney e a Pixar se uniram de forma definitiva tanto para distribuição quanto para a produção de animações, portanto, esperava-se mais desta continuação do grande sucesso que conquistou crianças e adultos. Obviamente não é um filme péssimo, longe disso, mas em comparação aos outros títulos da companhia, inclusive o próprio original deste, deixa muito a desejar. Essa é a opinião que praticamente domina os comentários de sites, blogs, jornais e revistas, mas estes textos com enfoques comparativos acabaram prejudicando uma obra que não merecia tanto achincalhe. O problema principal é que o roteiro não parece tão atrativo e de fácil assimilação quanto o da primeira aventura de Relâmpago Mc Queen e seu amigo atrapalhado Mate. A história criada pelos diretores John Lesseter e Brad Lewis em parceria com o roteirista Dan Fogelman e finalizada por Ben Queen procurou seguir a tendência do mercado de animações e atingir dois públicos distintos ao mesmo tempo, crianças e adultos, mas o resultado final pode não ser plenamente satisfatória a ambas as faixas de público. O roteiro envereda pelo caminho das referências cinematográficas em exagero misturando elementos de filmes sobre espionagem, como das franquias dos agentes Bourne e 007, por exemplo. Além disso, tenta passar o clima acirrado que está por trás dos bastidores das corridas automobilísticas com direito a barracos televisivos e investe em uma trama sobre a guerra existente entre os combustíveis fósseis e os alternativos. Em meio a esses ganchos estranhos ao universo infantil, ironicamente, a trama adota uma postura debochada, forçando a barra com piadas que nem sempre funcionam, principalmente quando são calcadas em referências de planos de espionagem ou calcadas no universo automobilístico, sempre tendo o sotaque caipira de Mate para fazer as vezes do cara sem noção, mas metido a esperto, para quebrar o clima sisudo. Para compensar o enredo estranho, que também volta a tocar de forma tímida no assunto do progresso suplantando o antigo, o humor volta a se fazer presente na transposição de situações do cotidiano dos humanos para o universo automobilístico e, obviamente, no design dos veículos estilizados reproduzindo expressões faciais que ajudam a definir os perfis dos personagens.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

CARROS

NOTA 8,5

Pixar consegue humanizar os
carros em trama que escamoteia
crítica ao progresso acelerado, em
 sua essência implacável e egoísta
No mundo do cinema tudo é possível e quando se trata do campo das animações o céu é o limite, tanto que qualquer objeto pode ganhar vida e ser dotado de personalidade e sentimentos tal qual um ser humano comum. É justamente a humanização dos automóveis o grande trunfo de Carros, longa animado que literalmente dá vida a uma das maiores paixões do homem. A Pixar já cultivava a tradição de ter suas produções protagonizadas por objetos, animais e até monstrinhos, sendo Os Incríveis até a única animação do estúdio em que os humanos não ficavam em segundo plano, porém, no longa em destaque a empresa radicalizou e venceu o desafio de criar um universo exclusivamente habitado por seres de quatro rodas, automóveis das mais diversas marcas e estilos. Mais de 40 mil modelos de possantes foram testados até encontrar os ideais para compor o elenco do filme, exemplares que pudessem remeter a veículos reais e famosos, mais um chamariz para o público se divertir procurando referências, além das tradicionais citações a filmes de sucesso que podem ser compreendidas melhor pelos adultos, mas nada que atrapalhe a diversão da garotada. A trama gira em torno de Relâmpago McQueen, um veículo de corridas muito ambicioso e que deseja se tornar o primeiro estreante a vencer a Copa Pistão, mas a fama lhe sobe no motor e ele acredita que pode fazer tudo sozinho sem a necessidade de uma equipe de apoio. A arrogância acaba lhe custando o seu sonho. Na última disputa da temporada os seus dois pneus traseiros estouram e assim os principais adversários, o ídolo conhecido como O Rei e o traiçoeiro Chick Hicks, cruzam a linha de chegada juntos, o que leva a uma corrida extra na Califórnia para que aconteça o desempate. McQueen deseja ir até o local ainda com esperanças de que o jogo ficasse favorável para o seu lado e pede ajuda ao caminhão Mack. Ele deseja chegar antes dos outros competidores e insiste para que a viagem não tenha interrupções. O problema é que Mack acaba dormindo durante o trajeto, o que faz com que a caçamba se abra e seu amigo que também estava dormindo seja largado em plena estrada. Ao acordar, o corredor se vê sozinho e chega à pequena Radiator Springs, uma cidade do interior pouco movimentada onde ninguém nunca ouviu falar nada de sua fama ou no tal campeonato do qual ele participa. Por ter cometido uma grave infração de trânsito e destruído a principal rua da local, o esnobe carro é obrigado a asfaltá-la novamente. Sem poder ir embora, aos poucos ele faz amizade com os habitantes, como o divertido Mate e a inteligente Sally, e aprende importantes lições de vida, como o fato de que ninguém pode viver sem companhia e o dever de respeitar os mais velhos.

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