quarta-feira, 3 de julho de 2013

A CONDESSA BRANCA

NOTA 8,0

A Xangai da década de 1930,
efervescente e conflituosa, é o
cenário de uma história de amor
que une dois desiludidos
Estamos acostumados a atribuir somente ao diretor geral os créditos dos filmes. Raramente os nomes dos roteiristas são ostentados, salvo quando também comandam as ações nos sets de filmagens. Produtores até que nos últimos anos têm sido lembrados, principalmente para ajudar na venda de filmes lançados diretamente em DVD fazendo referências a sucessos do cinema destes profissionais, o que geralmente engana o espectador que acaba por fazer associações positivas entre as citações e os produtos que nem sempre podem corresponder as expectativas. Nos últimos anos, entre os produtores de cinema destacaram-se os nomes de Bob e Harvey Weinstein, dupla que em pouco mais de uma década conseguiu transformar o cinema independente e fora de Hollywood no biscoito fino das principais premiações, tanto que antes da produtora Miramax ser adquirida pela gigante Disney eles conseguiram somar mais de  uma centena de indicações e dezenas de estatuetas do Oscar. Curiosamente, pouco tempo antes da dupla sacudir o cenário cinematográfico um outro produtor era sinônimo de cinema de qualidade e digno de prêmios, mas seu nome sempre estava atrelado ao de um diretor específico. Grandes trabalhos que marcaram os anos 80 e o início dos anos 90, como Uma Janela Para o Amor e Retorno a Howards End, levavam nos créditos a grife Merchant-Ivory, ou seja, a assinatura do indiano Ismail Merchant como produtor e a do californiano James Ivory como diretor. A dobradinha foi repetida diversas vezes e sempre que um novo produto com a marca dava sinais de vida já começavam as especulações sobre possíveis prêmios, afinal suas obras ficaram conhecidas por sem dotadas de bons enredos, elencos competentes e plasticidades impecáveis. O problema é que após o ano de 1993, quando emplacaram Vestígios do Dia, a grife começou a dar sinais de desgaste e suas produções já não chamavam tanto a atenção como antes, coincidindo com a entrada maciça dos Weinsteins no mercado. A Condessa Branca é a derradeira obra de Ivory em parceria com Merchant, este que veio a falecer pouco tempo depois da conclusão das filmagens. Lançado diretamente em DVD no Brasil e sem repercussão ou publicidade, este competente e envolvente drama de época não merece tal desprezo, mesmo com a duração acima da média e o estilo convencional e acadêmico já tradicional da dupla. Não por acaso a obra nos remete a clássicos como Casablanca.

Após amargar o fracasso de À Francesa, comédia dramática contemporânea com a dupla talvez tentando angariar um novo público para restabelecer com força a grife, os profissionais foram sensatos e voltaram ao gênero que compartilham intimidade, mesmo porque eles já não eram mais jovenzinhos com tempo para errar e talvez sem perceber construíram suas carreiras de forma que equívocos não poderiam ser tolerados, seja por parte do mercado, do público ou do ego deles mesmos. Da safra dita ruim, que conta com dramas com personalidades históricas como Jefferson em Paris e Os Amores de Picasso, eles podem não ter feito fortunas tampouco colhido prêmios e elogios, mas mantiveram-se fiéis as suas essências e ideais. Acostumados a lidar com adaptações literárias, um dos méritos deste derradeiro trabalho da grife é o fato do roteiro ser uma criação original de Kazuo Ishiguro que usa um pano de fundo histórico para desenvolver uma narrativa tipicamente folhetinesca, de quebra introduzindo algumas referências que de certa forma homenageiam a História do cinema, principalmente as produções épicas das décadas de 1930 à 1950, sobrando lembranças até para musicais. Se já não fosse o bastante a curiosidade em descobrir a última obra de uma mítica união do universo cinematográfico, este trabalho ainda presenteia o espectador com a oportunidade de acompanhar o desempenho de três mulheres de uma mesma família, as já falecidas Natasha Richardson e Lynn Redgrave, além da veterana e premiada Vanessa Redgrave. Nos anos 30, a cidade de Shangai, embora glamourosa e um efervescente pólo cultural, está passando por um período político conturbado que acaba influenciando no cotidiano de toda a sociedade local. A condessa Sofia Belinskya (Natasha), uma imigrante russa, está precisando se apresentar como dançarina ou até mesmo se prostituir nos cabarés para poder sustentar sua família formada por pessoas que ainda insistem em manter seus antigos padrões de vida e seus títulos de nobreza mesmo agora que estão na miséria após serem banidas de seu país-natal como consequência da revolução socialista. Certa noite, esta mulher conhece Todd Jackson (Ralph Fiennes), um diplomata americano que acabou ficando cego em um acidente. Muito recluso e de poucos amigos, ainda assim ele continua um apaixonado pelos prazeres da vida noturna e sonha em ter seu próprio cabaré. Seu desejo torna-se realidade graças a uma aposta e com a ajuda de um misterioso amigo japonês, o espião Matsuda (Hiroyuki Sanada), e assim surge “A Condessa Branca”, a casa noturna que promete dar um respiro ao claustrofóbico dia-a-dia que Xangai vivia. Para fazer jus ao nome escolhido, nada melhor então do que ter uma legítima condessa fazendo as honras do estabelecimento e assim Sofia e Todd estreitam os laços de amizade que não tardam a se transformar em paixão.

A relação entre Sofia e Todd é intensificada pela identificação que um sente pelo histórico de vida do outro. São duas pessoas refugiadas em um país com cultura completamente diferente das suas e que almejavam uma vida melhor, mas estão decepcionados. Ela é viúva e com uma filha para criar, a pequena Katya (Madeleine Daly), além de aguentar as críticas e a arrogância de sua mãe Vera (Vanessa) e de sua tia Olga (Lynn), duas mulheres que não se conformam que seus títulos de nobrezas russos não imponham mais respeito. Ele, por sua vez, chegou a Xangai muitos anos antes e com muito otimismo, mas se decepcionou com as questões políticas locais. Aliás, a cegueira do personagem tem significados simbólicos na trama, e não só emocionais tendo relação também com o campo político, assim como os diversos personagens coadjuvantes e até mesmo figurantes estão presentes para apresentar uma síntese do grupo de habitantes de Xangai em tal época tão turbulenta, realçando suas vontades e aflições. O perfil dos protagonistas já é o suficiente para chamar a atenção dos apreciadores de grandes romances e também daqueles que buscam nos personagens subsídios para enriquecerem-se culturalmente, mas os papéis secundários também são extremamente interessantes. Por exemplo, o Sr. Matsuda é aquele tipo de personagem que você não consegue logo de cara rotulá-lo. Ele é um representante da expansão japonesa em voga na época, mas em diversos momentos não parece ser regido pela razão ou interesses materiais, tanto que serve como uma espécie de confidente de Todd e ajuda na aproximação do diplomata e da condessa. Vera e Olga não estão na trama apenas para pintar um retrato da aristocracia decadente e ressentida, mas terão grande importância na reta final marcado por grandes conflitos da China contra o exército japonês, momento em que numa ação fria as duas acabam se opondo ao casal protagonista. A Condessa Branca é um belo exemplar de produções mais recentes que tentam buscar a grandiosidade dos dramas românticos do passado apostando em uma caprichada reconstituição de época. Como de costume nas produções Merchant-Ivory, que conseguiram levar o cinema clássico em seu melhor estilo às platéias mais populares, a fotografia, a trilha sonora, os figurinos e a direção de arte são de um esplendor inquestionável, com o detalhe que esta obra é repleta de cores, uma reconstituição de cenários um pouco mais estilizada que de costume no currículo desta dupla de amantes da sétima arte, pessoas que sem dúvida escreveram seus nomes nesta História fascinante de como levar emoção às pessoas. A parceria terminou com um trabalho com direito até a alguns números musicais estratégicos e um final bastante romanceado, de certa forma um festejo involuntário para encerrar um “casamento” que deu certo por mais de 40 anos. 

Drama - 135 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

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