terça-feira, 9 de julho de 2013

AEON FLUX

NOTA 2,5

Baseado em série de animação
de pouca projeção, longa sobre
futuro realmente está há anos-luz
de empolgar o espectador
O gênero de ficção científica já gozou de muito prestígio décadas atrás quando as produções não só procuravam impactar o público com efeitos especiais gerados com o que havia de mais moderno em termos de tecnologia, mas também com enredos que serviam como alegoria ou faziam alusões ou críticas a temas contemporâneos à época. O tempo passou e a overdose de produções que vislumbravam como seria o futuro da humanidade acabou chegando a um nível de saturação muito grande, até porque se tornaram muito mais reféns dos efeitos visuais, e o gênero acabou se resumindo a algumas poucas produções capengas lançadas diretamente para abastecer locadoras, raramente sendo exibidas nos cinemas. Com a popularização dos jogos de vídeos games e dos seriados que se tornaram populares ao exibir visões apocalípticas do mundo futurista, a ficção científica renovou seu fôlego timidamente, o que não significa necessariamente algo bom. Se por um lado realimentou a esperança de um gênero fadado a extinção, as produções do tipo lançadas nos primeiros anos do século 21 são totalmente desnecessárias, salvo raras exceções. Um bom exemplo de tempo e dinheiro desperdiçado é Aeon Flux. Quem? Se você se fez essa indagação este é mais um motivo para afirmar que a diretora Karyn Kusama se dedicou a um trabalho insípido. O título desta aventura futurista é o mesmo nome de sua protagonista, uma heroína de pouca projeção de um modo geral, mas que de certa forma marcou a adolescência ou sua fase inicial de muito marmanjo. Exibida em meados dos anos 90 pela MTV (inclusive no Brasil), emissora que então começava a viver o ápice de sua popularidade, a série de animação feita para adultos criada por Peter Chung mostrava como estaria o Planeta Terra daqui a quatro séculos. A trama roteirizada por Phil Hay e Matt Manfredi para o filme segue a mesma premissa, porém, sua história é tão frágil e desinteressante que acaba perdendo espaço inquestionavelmente ao visual do longa, isso porque em termos técnicos a cineasta, em sua segunda experiência atrás das câmeras, só oferece o básico que se espera de uma produção de tal porte. Com tal comparação você já tem uma ideia do que te espera. Por ter dirigido um obscuro filme chamado Boa de Briga é que Karyn deve ter conseguido o passe livre para assumir a direção desta aventura que passou por inúmeros percalços em sua pré-produção. Se forem pancadarias milimetricamente coreografadas que a geração MTV quer é o que ela teria, pensaram certamente os produtores do canal que abraçaram o projeto em seu núcleo cinematográfico. O difícil é entender como Charlize Theron embarcou nessa, ainda mais sendo este o seu primeiro longa lançado após o Oscar por Monster – Desejo Assassino.

Logo nos primeiros minutos temos aquele manjado truque de encurtar a trama e cortar gastos resumindo ao máximo o contexto em algumas ligeiras frases, um modo de situar os espectadores viajantes, neste caso algo essencial visto o ostracismo em que vive a heroína. Descobrimos assim que no ano de 2011 um vírus mortal exterminou 99% dos seres humanos. Os poucos sobreviventes se instalaram na cidade de Bregna e procuraram ao longo dos 400 anos seguintes alternativas para reconstruir a civilização. Tais pessoas são coagidas por um forte governo ditador, cientistas que não pensam duas vezes antes de limar aqueles que julgam inconvenientes aos seus propósitos. Para combatê-los existe um grupo de resistência denominado Monican do qual Aeon Flux (Chralize) é a sua melhor agente e, portanto, a escolhida para cumprir uma importante missão: assassinar Trevor Goodchild (Martin Cssokas), o líder do governo e o provável responsável pela morte da irmã da jovem. Porém, quando tem a chance de se livrar de seu inimigo, segredos vem a tona sobre a verdadeira realidade do planeta e fazem com que a justiceira reveja seus conceitos quanto as práticas deste homem. Pior ainda, ela sente que tem alguma ligação diferenciada com Trevor. Tentando defendê-lo, Aeon acaba contrariando as ordens de Handler (Frances McDormand), uma espécie de mentora dos monicans cujo contato só é possível através de uma realidade paralela. Assim, ela acaba virando alvo da fúria do próprio grupo a que pertence, aliás, uma das poucas cenas bacanas do filme é justamente quando ocorre o ápice do conflito entre Aeon e sua amiga Sithandra (Sophie Okonedo), sequências bem editadas e coreografadas. Charlize chegou a treinar com equipes do famoso Cirque Du Soleil para dar mais veracidade às cenas de ação, dispensando uma dublê mesmo após ter se acidentado durante as filmagens, o que acarretou mais um mês de atraso à produção. Pobre moça. Não adiantou todos os seus esforços, já que a cineasta optou na mesa de edição priorizar a agilidade e focar em planos mais lentos apenas as poses que revelassem melhor as curvas do corpo escultural da super loira que ficou morena para o papel. É certo que Karyn jogou todas as responsabilidades de obter algum reconhecimento de certa forma em cima da atriz sul-africana, apostando que sua beleza e sua publicidade com o recente Oscar ganho já seriam suficientes para atrair público. Além da heroína não cativar o espectador, todos os outros personagens também parecem desprovidos de qualquer tipo de emoção. No conjunto parece que estamos acompanhando um filme baseado em algum jogo de vídeo game, sensação ainda mais evidente quando chegamos aos minutos finais e o mata-mata corre solto. Se a história fosse aquele arroz com feijão do conflito entre opressores e rebeldes com direito ao clichê de um representante de cada lado virando a casaca e unindo forças para alcançar a paz, até que esta aventurazinha seria tolerável, mas as pretensões são demais. Além de imaginar um futuro claustrofóbico, afinal fora o controle político a população de Bregna ainda precisa viver em meio a construções de concretos espremidas em meio a uma selva colossal, o roteiro ainda pretende trazer a tona questões sobre clonagem e vida eterna, discussões bizarras diante dos subsídios que Hay e Manfredi nos oferecem.

Se o filme já estava duro de aguentar em seus dois primeiros atos as coisas pioram quando Aeon descobre o que foi feito de sua finada irmã e consequentemente as razões que a levaram a não conseguir matar Trevor quando tinha chance e o porquê de no início do filme a personagem receber outro nome, mas não espere explicações científicas, espíritas ou de qualquer outra natureza. É justamente por não conter elementos realísticos ou no mínimo compreensíveis no que deveria ser o ápice do longa que o espectador se desanima e perde a vontade de chegar aos créditos finais, isso se alguém conseguir assistir cinco ou dez minutos sem deixar que seus preconceitos interfiram afinal, como já dito, são tantas as baboseiras que o cinema já apresentou sobre o futuro que fica difícil botar fé em produtos do tipo, ainda mais quando o tema está ligado a um personagem que não foi criado exclusivamente para o filme. É como se o universo apresentado em produções desse estilo fosse acessível a um pequeno nicho de espectadores, no caso, os poucos admiradores da série de animação. Tanto para realizar tal obra quanto para apreciá-la teoricamente é preciso ser íntimo desse mundo particular, mas parece que Karyn caiu de pára-quedas no projeto, ainda que ela tenha tido o bom senso de explicar de forma razoavelmente detalhada em que contexto a heroína está inserida, mas é difícil compilar em menos de duas horas tudo o que foi construído ao longo de uma série e ainda deixar o material inteligível a um número bem maior de pessoas, entre leigos e entendidos do assunto. O resultado ficou muito aquém das expectativas, não agradando nem os fãs da animação tampouco um público novo que poderia ser conquistado e garantir assim uma sobrevida à heroína nos cinemas. A decepção por parte dos executivos que deram sinal verde para o projeto foi tanta que nem mesmo arriscaram a tradicional premiére à imprensa para evitar críticas negativas, mas a tática não adiantou. Fracasso instantâneo nos EUA, a aventura já chegou a outros países com má fama e a arrecadação não cobriu seus gastos de produção, o que também inviabilizou qualquer continuação mesmo que para lançamento direto em DVD, caminho comum a projetos com potencial (bem, nem sempre), mas com público escasso. Misturando elementos oriundos do universo de Matrix (que teria sido inspirado na criação de Peter Chung) e de Lara Croft – Tom Raider, só para citar os exemplos mais óbvios de referências, esta é uma aventura que não empolga nem mesmo em termos conceituais, sendo que a Bregna idealizada não causa impacto emocional algum, principalmente porque o excesso de chroma key (imagens falsas inseridas em imagens pré-gravadas com fundo verde ou azul) tiram qualquer possibilidade do espectador achar crível tal mundo futurista, ainda mais com seres tão desinteressantes a habitando. Melhor seria a extinção da humanidade. Deixando a desejar em todos os aspectos, inclusive nas cenas de ação que perdem força por serem desprovidas de diálogos resumindo-se a uma sequências de socos, chutes e pulos, podemos dizer, guardada as devidas produções, que Aeon Flux hoje tem o mesmo valor que um filme do He-Man ou das Tartarugas Ninjas: apenas um título de curiosidade, um suvenir característico de um período, mas com a diferença de que foi lançado tardiamente, longe do burburinho que a animação original poderia ter causado, assim já nasceu com um pezinho na sepultura.

Aventura - 92 min - 2005 - Dê sua opinião abaixo.

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