sexta-feira, 26 de julho de 2013

GIALLO - REFÉNS DO MEDO

NOTA 6,5

Procurando retomar subgênero
do suspense italiano, Dario
Argento não cumpre isso, mas não
deixa de oferecer algo diferenciado
Se engana quem pensa que os filmes sobre assassinos em série surgiram nos anos 90 como uma forma de de dar um gás ao combalido subgênero de terror que acabou virando piada devido aos indestrutíveis Michael Meyers, Freddy Krueger e Jason Voorhees, respectivamente os vilões das séries Halloween, A Hora do Pesadelo e Sexta-feira 13. Na realidade as histórias envolvendo ações dos seriais killers já são reconhecidas como um subgênero do suspense desde meados dos anos 30, mas só vieram a se tornar populares quatro décadas mais tarde. O cinema americano teve um papel importante nisso, mas curiosamente a Itália também teve participação fundamental sendo o diretor e roteirista Dario Argento um dos nomes mais importantes de tal fase, mas que acabou sendo suplantando pela ação do tempo. Após um bom tempo amargando o ostracismo, o cineasta tentou chamar a atenção com uma obra de título sugestivo: Giallo – Reféns do Medo. Sabendo da temática predileta deste profissional, seria o nome do assassino da vez uma forma de vender sem rodeios o conteúdo do filme? A resposta é não. Giallo é uma palavra de origem italiana que significa amarelo e acabou sendo empregada para catalogar um específico gênero literário e cinematográfico de suspense e romance policial do país. Tais histórias sobre detetives e bandidos com uma pegada mais forte e violenta eram publicadas em uma série de livros que tinham uma capa-padrão amarela e automaticamente foi feita a associação quando o cinema passou a investir em enredos semelhantes, uma forte corrente que certamente inspirou as produções sobre slashers, aquelas citadas no início do texto e que ganharam sobrevida com Pânico e outros produtos nos quais adolescentes são perseguidos por sádicos assassinos. Apesar de ser a raiz de produções que hoje são tão criticadas pela falta de originalidade, é certo que o resgate da fórmula giallo de assustar é bem-vinda e foge significativamente do estilo de se fazer suspense seguindo a cartilha de Hollywood. A trama é centrada na busca desesperada de Linda (Emmanuelle Seigner) pela irmã, a modelo Celine (Elsa Pataky) que é sequestrada durante um importante evento de moda em Milão. Para tanto ela conta com a ajuda do inspetor Enzo Avolfi (Adrien Brody), mais conhecido como Lobo Solitário, especialista em casos envolvendo seriais killers e que fica obcecado em encontrar Yellow (Byron Deidra – a palavra em inglês também é usada para denominar Giallo no filme), o principal suspeito e conhecido por expor suas vítima a humilhantes e torturosas situações.

Com ideia original do próprio Argento (pela primeira vez não roteirizando), a trama escrita por Jim Agnew e Sean Keller tem como ponto de partida praticamente o mesmo argumento de centenas de filmes, mas a forma de trabalhá-lo é bem diferente do que estamos acostumados. Todavia, no conjunto, também não é uma obra que legitimamente represente o gênero giallo. Tradiconalmente, tais histórias constroem um clima de suspense em cima das expectativas de quem seria o assassino. Vários filmes de Argento e contemporâneos seus investiam nos closes em pequenos detalhes do vilão, sendo um dos mais marcantes as mãos cobertas com luvas de couro negro, e caprichavam nas cenas de violência, com destaque para as cores saturadas e o uso da câmera subjetiva, como se acompanhássemos as sequências sádicas pela ótica do criminoso. No trabalho em questão, o cineasta italiano, já beirando sete décadas de vida, abre mão das características do subgênero que o consagrou. Nos habituamos a acompanhar produções do tipo predispostos a sofrer por cerca de uma hora e meia até chegarmos a identidade do vilão, mas Argento propõe aqui um jogo diferente: o que esperar de um filme quando teoricamente a grande revelação é feita logo no primeiro ato? Conhecemos as feições do assassino e os motivos que o levaram a prática de atos cruéis e dali em diante somos convidados a sentir as consequências de seu passado ao mesmo tempo em que atuamos como voyeurs de cenas sádicas. Yellow não mata explicitamente, fica subentendido o destino de suas vítimas. O silêncio após um corte fatal não causa a mesma sensação angustiante que ouvir gemidos de dor durante uma longa sessão de tortura e é isso que o diretor procura captar com sua câmera. As mulheres sequestradas são levadas para um cativeiro, sofrem com humilhações e mutilações e o maníaco gosta de fotografá-las durante o processo para depois satisfazer-se sexualmente observando as imagens. Traumas de infância são temas prediletos de cineastas que lidam com horror e suspense e com este italiano não é diferente, cabendo inclusive uma associação de bullying com a cor amarela, apelido dado ao vilão devido ao tom diferenciado de sua pele. Aliás, sua caracterização e interpretação deixam um pouco a desejar, o que pode dar certo ar de produção trash ainda mais se suas cenas e torturas forem observadas fora do contexto, mas o filme apenas flerta com o “cine podreira” tendo um conteúdo razoavelmente relevante como respaldo.

É interessante observar que mesmo entregando a surpresa logo no início, o longa ainda consegue envolver o espectador, pois surge a dúvida do que o diretor ainda propõe para ocupar ao menos mais uma hora de narrativa. Não há reviravoltas ou mensagens subliminares, tudo é entegue sem fazer muita cerimônia e o suspense é praticamente nulo, mas de alguma forma não é difícil entrar nesta sádica jornada e logo o roer de unhas passa despercebido, nos acostumamos com os cortes, mutilações e sangue jorrando para tudo quanto é lado porque o impacto de saber quem é o responsável por tudo isso já não existe mais. Sem dúvidas é nessa subverssão das principais regras do gênero que encontramos os motivos dessa obra ser tão odiada quanto amada em semelhantes proporções. Aos espectadores que cresceram com a cultura de que os blockbusters americanos são o supra-sumo do cinema obviamente esta obra é um prato cheio para críticas negativas e ofensas, mas para quem está disposto a sempre experimentar coisas novas o longa é digno de alguns elogios, a começar pela já citada inversão de expectativa, porém, é longe de ser um trabalho excepcional. Argento tinha consciência de que nem Jesus agradou a todos, portanto seu possível retorno aos holofotes deveria ser seguindo seus ideiais e não modismos como a onda de suspenses que sempre reservam alguma surpresa bombástica para o final, opção que na maioria das vezes acaba sendo um tiro no pé. Guiado por sua intuição, o diretor acaba em um mesmo produto exaltando suas qualidades e ironizando seus defeitos, o principal provavelmente quanto a direção de atores, algo perceptível na interpretação de Deidra, o que pode deixar o filme ainda mais interessante para quem conhece sua filmografia, mas ações que podem ser mal interpretadas pelo público em massa, o que realmente ocorreu visto a fraca recepção da fita. Por outro lado, seus fãs devem se decepcionar com a estética “limpa” adotada. Boa iluminação, cenários e figurinos alternando tons claros e escuros, mas jamais berrantes com exceção do vermelho dos litros de sangue, edição e ângulos de câmera convencionais, tudo isso podemos interpretar como escolhas que seguem a linha do vamos fazer diferente, mas são elementos que em alguns casos são extremamente necessários. Com uma narrativa comportada, um vilão irregular (em alguns momentos involuntariamente provoca risos) e como talvez únicas surpresas o passado negro do personagem de Brody e o final na base do corte seco que demora um pouco a ser digerido, Giallo – Reféns do Mal apesar de ter um quê de Jogos Mortais e lembrar em alguns aspectos O Silêncio dos Inocentes e Seven – Os Sete Crimes Capitais não é uma opção para o espectador acostumado a maratonas de filmes no canal pago ou na internet. É um trabalho que te coloca a refletir, não necessariamente sobre o filme em si, mas sim sobre sua história de bastidores, o que ele pode significar em tempos em que o cinema de suspense e terror parecem estagnados e engessados a um modelo único de narrativa. E pensar que por trás disto está um senhor de idade que aparentemente não tem medo da morte e entende de crueldade como poucos pode deixar o programa ainda mais interessante.

Terror - 92 min - 2008 

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