segunda-feira, 1 de julho de 2013

OS GOONIES

NOTA 10,0

Aventura leva espectador
praticamente a uma outra
realidade, um tempo em que ser
criança era bem mais divertido
Hoje quando se fala em filme de aventura para toda a família os títulos que surgem em nossas mentes certamente são aqueles protagonizados por super-heróis ou então as narrativas desenvolvidas em reinos fantásticos onde tudo pode acontecer. Alguns deles são realmente excelentes, mas não há como negar que a maioria só existe por causa da tecnologia, seja por uma necessidade real ou apenas uma desculpa para fisgar público com um visual arrebatador. Se analisarmos bem, boa parte das produções desse tipo vendem embalagem e pouquíssimo conteúdo. É claro que se você questionar alguma criança ou adolescente ou até mesmo uma pessoa com seus vinte e poucos anos, idade já impregnada dos vícios negativos da geração imagem é tudo, sobre a qualidade das aventuras contemporâneas eles vão dizer que elas são excepcionais e que os efeitos especiais são essenciais. Por outro lado, se a mesma questão for feita a um adulto ou jovem que viveu intensamente os anos 80 a resposta tende a ser diferente, cabendo comparações aos popularmente conhecidos clássicos da “Sessão da Tarde”, aqueles filmes símbolos de uma geração que misturavam diversos gêneros, predominando a aventura, mas que além de oferecerem um visual arrebatador também continham histórias que dialogavam plenamente com seu público-alvo, crianças e adolescentes que ao mesmo tempo que procuravam manter o espírito infantil vivo também eram obrigadas a amadurecerem precocemente assumindo responsabilidades, mesmo que simples tarefas do dia-a-dia. Para resumir a conversa, estes tais clássicos oitentistas tinham alma, vida, emoção de pessoas apaixonadas por cinema que desejavam levar ao espectador a mesma explosão de sentimentos que sentiam quando iam a uma matinê no cinema, sensações que poderiam ser renovadas na época com o advento das fitas VHS e as reprises na TV. Hoje o gênero de aventura se resume a imagens e sons de última geração oferecidos com campanhas de marketing agressivas, mas pouco conteúdo e emoção. O papo é combustível puro para um duelo entre as antigas e novas gerações, mas o objetivo desse texto é relembrar Os Goonies, mostrar sua importância como registro histórico de uma época e agradar aos nostálgicos, mas quem curte um bom cinema também não deve se sentir fora da conversa. Com produção assinada por Steven Spielberg e direção de Richard Donner, dois nomes emblemáticos da cinematografia da época (um até hoje em evidência, o outro sobrevivendo à custa de produções medianas), este é um daqueles filmes únicos que surgem de tempos em tempos para marcar época. Em cada cena estão impressos importantes elementos que ajudaram a caracterizar a tão saudosa década de 1980 como a trilha sonora, os figurinos, hábitos de consumo e, claro, a ingenuidade e o companheirismo inerente a qualquer grupo de jovens que se uniam em uma espécie de clubinho param se divertirem e ajudarem uns aos outros. Para não dizer que tudo que é feito hoje em dia no gênero se resume ao lado comercial, Super 8 foi lançado com o intuito de homenagear esse passado cinematográfico. Não por acaso Spielberg também é o produtor da fita.

O roteirista Chris Columbus, que futuramente criaria a série Esqueceram de Mim e até estaria envolvido nos dois primeiros episódios da saga de Harry Potter, já demonstrava que conhecia bem o universo infantil e criou um roteiro bem simples e ingênuo, mas com ótimos momentos e piadas. Em uma narrativa de cerca de duas horas de duração, baseada em uma história original do generoso Spielberg, está sintetizado o que era ser criança nos anos 80. As brincadeiras, os sonhos, os personagens imaginários, as dúvidas e medos, tudinho que povoava a mente e ocupava o cotidiano da gurizada das antigas está registrado neste longa. A trama tem como ponto de partida um problema real e que até hoje é um incômodo social. Com os prédios e casas antigas do bairro de Goondocks estando prestes a serem demolidos para darem espaço a um campo de golfe e suas famílias em dificuldades financeiras, o que forçará a mudança de todos os residentes do local, um grupo de jovens entre 10 e 16 anos que cresceram juntos resolve se organizar para evitar que eles se separem. Mikey (Sean Astin), Bolão (Jeff Cohen), Bocão (Corey Feldman), Data (Jonathan Ke Quan), Brand (Josh Brolin), Andy (Kerri Green) e Stef (Martha Plimpton) em um golpe de sorte, ou talvez de azar, encontram um mapa do tesouro escondido no porão da casa de um deles. Essa seria a solução para seus problemas, pois poderiam salvar suas casas quitando os débitos. Eles partem em busca do tesouro escondido pelo pirata Willy Caolho que segundo a lenda sumiu na região há centenas de anos, porém, eles acabam indo parar em uma casa velha que na verdade é o esconderijo dos Fratelli, uma família de bandidos que também vai se interessar nessa busca. Assim, começa uma verdadeira aventura das crianças e adolescentes que terão que enfrentar, além de Jake (Robert Davi), Francis (Joe Pantoliano) e Mama Fratelli (Anne Ramsey), diversas armadilhas em cavernas e túneis subterrâneos. É interessante que a introdução rapidamente apresenta os principais personagens paralelamente. Os vilões estão fugindo da polícia após resgatar um dos membros do clã que estava preso. Enquanto isso, a turma dos Goonies é apresentada deixando evidente características das personalidades de cada um deles, além de tomarmos conhecimento do conflito que dará início a toda a aventura da garotada: mais uma vez o “progresso” desenfreado que visa lucros e não se importa com questões de ordem pessoal, característica marcante dos longas da época que já apresentavam sociedades desequilibradas, até porque eram os tempos do boom do consumismo, do crescimento da violência e da afronta a certas regras tradicionais, das famílias separadas e dos pais e mães trabalhando desesperadamente para manter padrões de vida acompanhando com certa distância o crescimento dos filhos. É nesse mundo e época caóticos e de transição de costumes que a trama se desenvolve, mas ainda assim parece que os Goonies viviam em uma realidade paralela na qual a fantasia ainda estava viva, os vizinhos se ajudavam e era possível brincar na rua até a noite sem grandes preocupações.

Diferente de outros filmes oitentistas que se tornaram clássicos juvenis, esta produção não tem o jeitão adulto de Conta Comigo tampouco o apelo erótico de Porkys, tornando-se uma pequena pérola que retrata de forma eficiente a transição da infância para a adolescência, mantendo resquícios de infantilidade nos personagens, mas em alguns deixando aflorar novos sentimentos, como o interesse amoroso. Aliás, as duas únicas garotas do grupo entraram por um acaso, já que os Goonies é um grupo predominantemente masculino, mas para o roteiro expor mais um dos dilemas inerentes a adolescência era preciso ter esse contraponto além da inserção de tais personagens colaborar com o humor da trama, como os previsíveis gritos e cara de espanto e uma bem bolada cena de desencontro amoroso (ou encontro, depende do ponto de vista). O humor ainda caracteriza momentos marcantes como as tentativas frustradas de Dado testar suas mirabolantes invenções contra os vilões e as armadilhas que encontram pelo caminho, reforçando que os Goonies são destemidos e corajosos, mas não super-heróis infalíveis, e obviamente as divertidas sequências e diálogos protagonizadas pelo gordinho Bocão que tem um talento natural para se meter em encrencas, como ficar preso em uma câmera frigorífica na companhia de um cadáver ou encontrar por um acaso o desfigurado e mentalmente debilitado Sloth (John Matuszak), que apesar de ser um membro relegado da família Fratelli é um doce de pessoa. Além do enredo esperto e ágil que abre espaço para que todos os personagens infanto-juvenis literalmente cresçam e apareçam em meio a diversos desafios, o longa tem o mérito de criar situações de perigo e armadilhas usando trucagens mecânicas e artesanais que dão uma sensação de realidade incrível. Em nenhum momento o espectador é surpreendido por algum efeito especial que destoe do restante, assim mantendo o clima realístico e de suspense. E olha que na época o cinema já usava e abusava do colorido e da agilidade proporcionados pelos efeitos computadorizados, mas Donner preferiu investir em um estilo inverso, portanto, comparações com os truques visuais de hoje em dia é covardia, embora para quem consiga embarcar no espírito aventureiro do longa seja até benéfico o mínimo uso de qualquer ferramenta virtual. Se para o espectador, por exemplo, já é de arrepiar a sequência em que os Goonies encontram o famigerado navio de Willy Caolho, imagine a reação do elenco mirim ao se deparar com a gigantesca e detalhada construção em tamanho natural somente no momento da gravação da cena. Nem é preciso imaginar, as expressões de surpresas foram captadas com entusiasmo por Donner instantaneamente, o que nos passa a clara ideia de que esta é uma obra que gira em torno de sonhos. A vontade dos realizadores em verem seus sonhos de criança se tornando realidade é a mesma motivação do elenco que por sua vez representa os desejos do público-alvo que se na época se resumia a faixa etária de até uns vinte anos, hoje essa obra pode se dar ao luxo de contar com platéias mais maduras que foram conquistadas ao longo dos anos, além é claro da turma jovem de outrora que cresceu e que hoje quer que seus filhos também sintam tal magia. Todavia, para as novas gerações o longa pode não ter o mesmo impacto devido a realidade diferenciada. Enquanto hoje estão presas dentro de casa, se divertem com brinquedos que não estimulam a imaginação, pelo contrário, apenas alimentam os instintos de violência, e os amigos são contatados via internet, nem mesmo o telefone tem mais serventia, os Goonies vivem uma vida que muitas até gostariam de ter atualmente, mas os perigos e inventos da modernidade e a intolerância das pessoas não permitem mais. Quantas crianças adorariam ter um grupinho para viver aventuras, brincar, se reunir para assistir um filme ou contar histórias, enfim, se divertir a beça? Se a vida real já não permite mais esses prazeres, o jeito é matar a vontade com a ajuda do cinema. Representante de uma das melhores safras de produções infanto-juvenis de todos os tempos, assistir Os Goonies tantos anos após seu lançamento, principalmente se for acompanhado de um adulto aficionado pelo filme e saudosista dos anos 80, pode se tornar uma interessante experiência em família ou entre amigos. A produção continua cativante e com um jeitinho de inocência perdida que precisa ser resgatado com urgência. Dá até para matar as saudades da música "Goonies R Good Enough", sucesso na voz de Cyndi Lauper nos tempos em que os videoclipes bombavam e a influência do canal MTV sobre as platéias americanas já era perceptível (a emissora não havia chegado ao Brasil ainda). Ufa! Como é difícil falar de um filme cujas lembranças fazem parte de suas próprias memórias afetivas e ainda de quebra tem tantas curiosidades de bastidores e serve como um registro histórico de um período. Para quem nunca vivenciou essa experiência, sempre é tempo para se tornar o mais novo “gooniemaníaco”.

Aventura - 117 min - 1985

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Um comentário:

leo_tdb disse...

Este filme me acompanha a vida inteira! Amo esse filme! Parabéns pelo blog e pelos comentários!

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