quarta-feira, 14 de agosto de 2013

BONS COSTUMES

NOTA 7,0

Comédia de época faz uma
crítica a hipocrisia da elite
decadente e sobre a difícil
aceitação de novos costumes
Desde pequenos somos educados a seguir alguns padrões de comportamento para não criarmos problemas e constrangimentos em família, na escola ou em público. São regras básicas para podermos viver em sociedade, mas sempre existem os rebeldes de plantão para contestar tais imposições. Viver de aparências vale a pena? É difícil fugir da mesmice, mas quem tem coragem de afrontar a moral e os costumes sabe que está comprando uma briga e tanto. Se hoje em dia a guerra entre as normas de conduta pré-estabelecidas pelas sociedades e o direito a liberdade inerente a cada indivíduo é um tanto acirrada imagine o quanto era rígido e difícil viver no começo do século 20, época em que as tradições e os padrões engessados de comportamento eram normas aprendidas desde o berço e qualquer desvio de conduta era severamente repugnado e corrigido mesmo que na marra. Contudo, mesmo com tanta vigilância, é óbvio que nem todo mundo era santinho. Muitos homens davam suas puladinhas de cerca fora do casamento e gastavam horrores em jogatinas, por exemplo, mas tinham a desculpa que tais vícios faziam parte da natureza de seu sexo, uma constatação de virilidade, mas o que dizer de uma mulher que trocasse as saias por calças, falasse o que viesse a sua cabeça e gostasse de assuntos teoricamente restritos ao mundo masculino? É justamente essa a premissa da comédia Bons Costumes que narra as dificuldades de uma jovem a frente do seu tempo para se adequar ao estilo da família de seu noivo, mas quanto mais ela tenta ser perfeita mais mete os pés pelas mãos. Na década de 1920, a americana Larita Huntington (Jessica Biel) decidiu casar-se repentinamente com o inglês John Whittaker (Ben Barnes). Jovens, bonitos e afinados um com o outro o casal não poderia ser mais perfeito, porém, a sensualidade, a extroversão e o gênio forte da moça podem se tornar empecilhos para essa união dar certo. Não que o noivo se importe com o jeito moderninho da garota, mas as coisas complicam por conta da família dele, ingleses extremamente tradicionalistas e cerimoniosos e é justamente com estas pessoas que a moça precisará aprender a conviver pacificamente visto que após o casamento John deseja morar com a esposa na mansão dos Whittakers no subúrbio londrino. Quando os jovens fazem a primeira visita como casal à família dele, Larita se depara com seu pior pesadelo, a sogra Verônica (Kristin Scott Thomas) que imediatamente não faz questão alguma de esconder que não gostou do tipo de nora que seu filho lhe arranjou, ao contrário do pai do rapaz, Jim (Colin Firth), um veterano de guerra que aprendeu forçosamente o valor da vida diante de tantas atrocidades que acompanhou e que despreza o jogo de aparências que sua esposa tenta manter, porém, tenta não deixar transparecer sua frustração com os rumos que sua vida tomou, mas sua apatia diante de tudo denuncia seu estado emocional fragilizado.

Com direção e roteiro de Stephan Elliott, o responsável pela cultuada comédia musical Priscilla – A Rainha do Deserto, o longa é baseado na peça teatral “Easy Virtue” escrita por Noel Coward em meados dos anos 20 com o intuito de criticar a hipocrisia da elite inglesa e colocar em discussão o choque entre culturas, algo que o visionário já previa que cada vez mais faria parte do cotidiano das pessoas. O texto já havia dado origem a um filme do cineasta Alfred Hitchcock datado de 1928 em sua fase menos popular e o que era uma comédia de costumes contemporânea nesta releitura se tornou uma trama de humor de época que consegue transportar o espectador a uma outra realidade, um tempo em que jogar para debaixo dos panos os podres de cada um era uma necessidade básica para sobreviver. Quem está habituado ao senso de humor inglês divulgado em produções menos badaladas, mas em geral de qualidades relevantes, sabe o que esperar deste trabalho. Esqueça o humor pastelão e os diálogos repletos de palavrões e piadas de duplo sentido. A comédia é inserida aqui em sutis doses acrescidas de um espírito crítico e cortante e o foco obviamente é a relação conturbada entre nora e sogra. Além da natural rivalidade para ver quem cuida melhor de John, as diferenças culturais e de personalidades entre elas é gritante. Verônica é uma dama que está acostumada a frequentar e preparar festas e recepções, dedica-se aos cuidados com a família e aos afazeres domésticos (entenda como dar ordens aos empregados) e tem como hobbies organizar um tradicional festival de caça e lidar com as plantas do jardim. Já Larita não é adepta de grandes badalações, dedica-se a corridas de carros e a defender os animais, não suporta flores por conta de sua alergia e dispensa uma saia rodada a favor de uma confortável calça. Causa certa tensão nesta relação também a situação econômica delas. Enquanto a inglesa tenta manter as aparências mesmo com suas economias em declínio e consequentemente o nome de sua família desvalorizando, a jovem americana parece estar com as finanças com boa saúde e podendo esbanjar o quanto pode. Já que a primeira impressão é a que fica, é certo que estas duas mulheres logo que trocaram o primeiro olhar não alimentaram esperança alguma de que poderiam vir a ser amigas, mas Larita deixou sua empáfia de lado e tentou agradar a sogra, porém, a cada nova tentativa lá vinha a megera com um novo golpe, desde um simples buquê de flores para enfeitar o quarto do casal e provocar a alergia da jovem até acusá-la de falsa defensora de animais diante de um problema que acontece como o cãozinho dos Whittakers, um episódio no fundo trágico, mas que acaba sendo apresentado com um delicioso senso de humor, ainda que possa trazer complicações para a protagonista que a esta altura já ganhou a simpatia do público que torce para que ela consiga fazer Verônica descer do salto e aceitar a realidade.

Se a sogra é uma peste, ainda mais inflamada pela decepção de que o sonho de ver seu filho casado com a vizinha milionária Sarah (Charlote Railey) acabou desmoronando e consequentemente suas chances de restabelecer o nome da família assim como suas finanças foram por água abaixo por tabela, as irmãs de John também não ficam muito atrás quando o assunto é pegar no pé da cunhada, mas ao menos são mais maleáveis. No fundo, para variar, são duas frustradas que podem acabar como a mãe e, pior ainda, solteironas. Marion (Katherine Parkinson) tem a ilusão de que um rapaz por quem se apaixonou e sumiu no mundo ainda um dia voltará para se casar com ela enquanto Hilda (Kimberley Nixon) acredita que seu sonho de se casar está mais próximo de se realizar simplesmente porque o pretendente que ela deseja é o vizinho Philip (Christian Brassington), irmão de Sarah, só resta saber se ele nutre a mesma vontade. Elliot conseguiu realizar um trabalho agradável que apesar de ser de época traz como temática principal um assunto que não importa o quanto o tempo passe continua sempre em evidência. No cinema é bastante comum abordar as relações antagonistas. Os sonhos dos jovens versus o pessimismo dos mais velhos, a experiência da mulher madura disputando um homem com a beleza de uma garota, o nerd franzino tendo que provar que sua inteligência vale mais que os músculos do cara descolado, enfim são várias formas de se trabalhar tal tema e o cineasta neste caso pegou o viés do choque cultural, visto que para todos os efeitos Larita e Verônica estão no meso patamar em termos de classe social. Todavia, as diferenças entre elas podem ser observadas até mesmo pelos seus perfis físicos e maneiras de se comportarem e se vestirem. Além de abordar muito bem a questão da tolerância (no caso seria a intolerância), o longa presenteia o público com requintados cenários e figurinos e uma bela fotografia, com Elliot sempre tomando o cuidado de colocar em algumas cenas elementos ou situações antagônicas, como em determinado momento em que Larita dança em plena sala de estar alternando com dois rapazes a parceria enquanto algumas senhoras inglesas estão sentadas lendo, uma sacada visual para mais uma vez contrastar o liberalismo americano e o recato inglês. Embora cenas assim sejam planejadas com objetivo determinado, há quem as repudie considerando uma atitude errada do diretor perante seu público, como se quisesse entregar tudo bem mastigadinho assim subestimando a inteligência de quem vê. Pura bobagem. Na realidade percebe-se a rejeição que Bons Costumes sofre por simplesmente não procurar oferecer mais do que pode. Desde a introdução, apresentando o primeiro encontro entre Larita e John em meio a uma corrida de carros, passando pelos créditos iniciais ilustrados e sonorizados por imagens e música típicas da época, o longa cerca-se de elementos que julga satisfazer aos adeptos de histórias leves e saudosistas, mas sem dúvida acaba deslanchando quando deixa a obsessão pela crítica à hipocrisia de lado e permite que o enredo flua com mais liberdade, virada que acontece justamente no citado episódio do cachorrinho. Apoiando-se na interpretação carismática de Jessica Biel, ligeiramente mais comportada e vestida que de costume, esta é uma comédia de gargalhadas nulas, mas é tão bonito visualmente e com situações tão críveis que é impossível não deixar por algumas vezes um sorrisinho estampado no rosto.

Comédia - 97 min - 2008 - Dê sua opinião abaixo.

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