quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O CORONEL E O LOBISOMEM

NOTA 6,5

Adaptação de obra literária
brasileiríssima peca pelo
tom teatral exagerado e
personagens mal delineados
O lobisomem é um dos monstros mais populares do cinema americano e já apareceu em diversos filmes, até em comédias e romances, contudo, a lenda está longe de ser uma propriedade dos ianques. O mito na realidade teria surgido em terras européias e espalhou-se rapidamente pelo mundo graças a literatura e posteriormente por outras manifestações culturais. No Brasil tal figura ganhou status de lenda do folclore nacional, até hoje amedronta cidades interioranas e já foi transformada em personagem de telenovelas, então qual o problema dela também deixar sua marca no cinema nacional? Infelizmente O Coronel e o Lobisomem não conseguiu nem deixar o mínimo sinal das garras do bichano na História da nossa produção cinematográfica. Quer dizer, isso se olharmos pela ótica comercial, mas em termos artísticos o longa timidamente representa um divisor de águas. Cercado por um clima interiorano e de comédia farsesca que serviram de chamariz para atrair multidões para assistirem O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro, neste caso a fórmula de sucesso falhou entre os populares, mas agradou razoavelmente os críticos que foram generosos com suas avaliações levando em consideração o salto qualitativo que a produção significou para nosso mercado ainda tão tímido e preso a padrões. Quem imaginaria em 2005 que nós poderíamos também criar personagens totalmente digitais sem aquela sensação tosca de imagens coladas em cenas pré-gravadas? Mas antes desse fator, o que chama atenção neste produto atende pelo nome de Guel Arraes. Como nos outros filmes citados, este cineasta especialista em verborragia e em adaptações literárias deixou sua marca aqui envolvendo-se como produtor e roteirista, o que explica as semelhanças do produto final com seus célebres trabalhos, mas a sensação de que faltaram muitas coisas para deixar a obra redondinha pode estar no fato da direção ter sido entregue à Maurício Farias, experiente diretor de TV, mas estreando no campo da sétima arte e provavelmente pouco ambientado ao universo dos contos populares interioranos. Baseado no livro homônimo de José Cândido de Carvalho datado de meados dos anos 60, a trama foi roteirizada também por Jorge Furtado e João Falcão. O trio de autores já havia adaptado a obra para um especial de TV em 1994, mas certamente perceberam que o livro tinha muito mais a oferecer do que caberia em cerca de uma hora de arte, porém, não conseguiram colocar no papel todo esse potencial visto que erraram em um ponto fundamental: construção de personagens. É uma pena que o longa por vezes dê a impressão que é justamente um programa televisivo esticado ou uma peça teatral filmada devido aos seus diálogos rebuscados e tom de voz das personagens que não raramente parecem declamar poemas evocando demasiadamente o estilo narrativo literário. As características cinematográficas foram anuladas no texto, mas acentuadas em termos visuais visto que o diretor priorizou a exploração dos cenários e locações sem o rimo frenético tão comuns as obras de Arraes que o deixou livre para trabalhar como bem desejasse.

A trama é centrada em Ponciano de Azevedo Furtado (Diogo Vilela), coronel e fazendeiro que está no tribunal brigando por conta de uma herança do avô Simião (Othon Bastos) contra seu irmão de criação, Pernambuco Nogueira (Selton Mello), filho da empregada da família e que cresceu em meio a um ambiente de riquezas, mas jamais participou ativamente dele. O duelo diante do júri aponta para uma questão que visa a segurança de todos na região, mas na realidade existem interesses muito pessoais por parte do coronel nesta rixa. A Fazenda Sobradinho foi a leilão porque o folgado Ponciano está falido e a hipoteca acabou sendo liquidada justamente por seu irmão torto, mas o coronel afirma que o rapaz é um lobisomem e não pode adquirir a propriedade para o bem de todos. Ele quer convencer o público presente na sessão de que seu meio-irmão é uma assombração, portanto seu acordo para a compra não teria validade nas leis dos homens. O acusado já havia sido expulso da fazenda anos atrás quando misteriosos acontecimentos indicavam que uma estranha criatura estaria colocando as criações de animais em risco e não tardaria a atacar os humanos. Ter conseguido a compra das terras onde foi criado e posteriormente escorraçado é tomado pelo coronel como um plano de vingança, ainda mais porque os dois também são inimigos no campo amoroso e há tempos disputam o amor da interesseira prima Esmeraldina (Ana Paula Arósio). A trama tem como cenário principal uma espécie de fórum onde Ponciano declama e esbraveja frases em tom teatral para enfatizar que Pernambuco é uma ameaça a sociedade e um mau caráter desde o berço. É o coronel que narra toda a história e em flashbacks visualizamos o histórico de vida dos meio-irmãos, mas diferentemente do livro o filme dá preferência em focar a atenção nos episódios vividos pelo reclamante, o que se torna um ponto crucial que colabora para a insatisfação do público em geral com os rumos tomados pela produção. O próprio Mello se lançou a um patamar que agora o espectador não espera nada menos dele que um papel de destaque a cada novo trabalho, se possível sempre marcado por superações. Todavia, ele é quase um figurante de luxo neste caso, passando boa parte do tempo acanhado em uma cadeira ouvindo acusações que podem ou não ser verdadeiras. Todavia, nas cenas de volta no tempo seu personagem cresce. Percebemos aos poucos a mudança de postura de Pernambuco deixando de lado a imagem de coitadinho por ser o filho da empregada e assumindo um porte mais elegante e formal paralelo ao seu enriquecimento financeiro que culminou no problema que o levou a condição de réu no tribunal, mas ainda assim seu personagem não tem um perfil bem trabalhado. Seria ele um vilão inescrupuloso e o mito do lobisomem utilizado apenas para ressaltar seu caráter? No conjunto parece que ele aceitou fazer o filme apenas por amizade aos roteiristas, turminha metida a intelectuais e visionários, e por isso não criou obstáculos para deixar Vilela brilhar. Apesar das falas complicadas cheias de invenções e palavras em desuso ou desconhecidas acentuando seu perfil obsoleto para os “novos tempos”, o papel de Ponciano é dos perfis mais ricos a serem analisados. Medroso, mentiroso, vaidoso, mas ao mesmo tempo cativante, persuasivo e profundamente humano afinal como todos ele tem seus defeitos e qualidades. Apesar de rústico, sabe como ninguém usar o poder da palavra para impressionar e conseguir o que quer, mas nem sempre o poder da lábia se faz valer. Quando um não quer dois não brigam e aí está mais um problema do longa. Parece que o coronel está brigando sozinho e nem mesmo a situação de um triângulo amoroso acirra o conflito, muito por causa da fraca mocinha que não tem seu caráter de vigarista explorado e até por conta de sua própria intérprete que não se mostra a vontade no papel e tampouco compartilha intimidade com o gênero comédia.

Curiosamente, no elenco quem se destaca são dois atores que apesar de anos de profissão, talentosos e serem lembrados por papéis coadjuvantes em novelas talvez nunca tiveram a surpresa de ouvir de alguém que eles são atores de primeiro time. Pedro Paulo Rangel dá vida à Juquinha, o fiel companheiro de Ponciano que está sempre pronto para aconselhar, embora não raramente suas ideias sejam ineficientes. Já Tonico Pereira vive Nonô Padilha, um bancário que também tenta ajudar o coronel em relação aos assuntos que dizem respeito ao seu patrimônio financeiro. Com conhecida veia cômica, ambos aparecem super a vontade em cena e bem longe dos macetes da interpretação teatral marcada pelo exagero dos demais atores que aparecem apenas em pontas, diga-se de passagem, algumas desnecessárias. Temos a participação de Marco Ricca, Lucio Mauro Filho, do finado Francisco Milani e de Andréa Beltrão, esposa do diretor. Tantos personagens são justificados pelo fato de Ponciano estar contando sua história de vida e suas passagens mais marcantes, mas novamente o problema é a falta de aprofundamentos na criação destas pessoas. Simplesmente são jogadas no enredo para dar mais movimentação, mas acabam alcançando efeito contrário fatigando ainda mais o espectador que logo pelos dez ou quinze minutos iniciais já deverá estar se perguntando onde estão a rapidez das edições de cenas e o humor esperto e espontâneo dos já citados trabalhos regionais de Arraes? É bom lembrar que ele não é diretor aqui, mas seu nome já se tornou uma grife com estilo bem definido e o mesmo atrelado ao projeto criou expectativas que não foram correspondidas. Falando nisso, não é surpresa alguma dizer que realmente a lenda do lobisomem revela-se verdadeira afinal de contas o marketing criado em torno da obra se sustentou justamente na criação do monstro digital. Sim, esqueça as fantasias toscas de filmes da Xuxa ou dos Trapalhões. Aqui o bichão aparece com direito a uma transformação razoavelmente detalhada, mas não espere longas sequências do lobisomem em cena. A proposta jamais foi fazer um filme que dependesse dos efeitos especiais, mas sim fazer uma brincadeira com uma lenda tão popular em regiões afastadas ou onde o progresso encontra dificuldades para criar raízes. O problema é que a narrativa de O Coronel e o Lobisomem não consegue fisgar totalmente o espectador que espera degustar um prato conhecido e acaba sendo apresentado a uma iguaria extremamente regional. Embora procure o tom farsesco, o humor através do exagero proposital, Farias acabou criando uma obra que não arranca uma única gargalhada do espectador, mas de qualquer forma um trabalho que o deixa constantemente com um sorriso singelo no rosto, talvez pela expectativa de no final ver o que a tecnologia nacional teria a oferecer em termos cinematográficos ou até mesmo por se sentir de alguma forma transportado para aquele universo tão provinciano em que todos gostariam de se refugiar nos momentos de estresse. Agora quem disser que esse filme é uma bobagem, um lixo certamente é puro preconceito. Ao menos valor para a História de nosso cinema ele tem, mesmo que o tempo ajude a reduzi-lo a pó na memória dos populares, coisa que, infelizmente, parece que já conseguiu.

Comédia - 106 min - 2005 

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