segunda-feira, 5 de agosto de 2013

SOBRENATURAL (2004)

NOTA 6,0

Diretamente do Vietnã, longa
não se preocupa em causar
sustos fáceis, mas sim em criar
uma atmosfera envolvente
Uma das marcas mais fortes da produção cinematográfica da década de 2000 foram os remakes de produções de horror orientais, onda que acabou abrindo as portas do mercado mundial para receber os filmes originais e outros inéditos oriundos de países como o Japão e a China. A diversificação de opções é válida, mas a consequência negativa é que o inflado número de títulos disponíveis acabou enjoando o espectador e alguns bons títulos acabaram não tendo o destaque que mereciam como é o caso do praticamente desconhecido Sobrenatural, suspense com pegada espírita realizado no Vietnã. Sim, este país não sobrevive apenas as custas das memórias do auge de seu período de guerras e tampouco se tornou um cenário totalmente devastado e inabitável. Bem, quem espera ver neste filme as paisagens vietnamitas esqueça. A ação se concentra praticamente em um único cenário, uma velha e abandonada casa com um grande quintal cheio de mato, uma propriedade aparentemente esquecida em uma região campestre e isolada. É lá que certa noite procura refúgio o escritor Loc (Tuan Cuong), especialista em livros de suspense com pitadas de romance que deseja um lugar calmo e que lhe inspire a escrever sua nova obra. Pensando que a casa estava abandonada, ele se surpreende ao ser recebido educadamente por Hoa (Kathy Nguyen) que diz que o proprietário havia viajado a algumas semanas e ela estava tomando conta do local. Logo na primeira noite, Loc começa a ouvir barulhos estranhos e a sentir a presença de mais alguém, sensações que vão se intensificando a cada nova madrugada ao mesmo tempo em que ele vai se afeiçoando por Hoa, uma garota que lembra muito as mocinhas de suas obras, jovens sonhadoras e frágeis, sempre dependentes dos homens, traídas e abandonadas. Hoa aparentemente é sozinha no mundo, um tanto misteriosa e desperta ainda mais a curiosidade do escritor quando ele recebe a visita do pai dela, o Sr. Huy (Dang Hung Son) dizendo que há tempos não consegue entrar em contato com a filha. Essa é a trama de “O Visitante”, o primeiro dos três capítulos que compõem o longa dirigido por Victor Vu, histórias que são intimamente ligadas.

O segundo capítulo é intitulado “Filha Única” e mostra Loc vivendo na tal residência, sozinho e em um estado de saúde mental precário, mas ainda assim escrevendo. No momento ele está redigindo uma história inspirada em Hoa enquanto recebe o auxílio psiquiátrico da prestativa Linh (Kathleen Luong). No Vietnã precisar de tais serviços de saúde é considerado algo vergonhoso e por isso ela visita seu paciente constantemente, até porque está realizando um estudo sobre seu caso. A proximidade fez com que eles se apaixonassem e não demora muito acabam se casando, mas o tempo passa e a harmonia do casal é abalada por causa da gravidez que não acontece. Loc obteve sucesso com seu último livro, mas desde então mudou bastante seu comportamento e estilo de escrita, o que pode estar ligado ao sentimento que ele ainda guarda dos dias em que viveu com Hoa. Ao mesmo tempo Linh começa a ter estranhas visões e sensações dentro da casa o que a leva a procurar ajuda espírita. Ela acredita que a energia carregada da casa é que está a impedindo de ter um filho, mas alguns atos que cometeu em seu passado podem estar influenciando para que seu desejo não se realize. Por fim, no terceiro capítulo, “A Vidente”, Loc está muito envelhecido, sozinho e introvertido, mas acaba aceitando receber a visita de Lan (Catherine Thuy Ai), uma médium enviada pela família de Linh, mas que na verdade é uma charlatã que realiza rituais banais que iludem as pessoas. Todavia, desta vez as coisas são diferentes e esta mulher parece ter seu sexto sentido finalmente apurado e assim conseguindo sentir as vibrações estranhas da velha casa. Seu filho Bao (Michael Minh) é também escritor, mas só consegue ter seus livros publicados graças as artimanhas de sua mãe e esse pequeno detalhe acaba virando um ponto de atrito entre Loc e o rapaz, pois ambos divergem sobre o talento que cada um possui para a escrita, mas principalmente sobre suas visões sobre o que acontece após a morte. Enquanto isso, Lan parece cada vez mais tomada pela loucura e a obsessão pelo que há de oculto na casa. No conjunto, o filme segue a estrutura de uma produção comum, uma narrativa linear, mas a opção de dividi-la em capítulos traz um charme especial, ainda que logo no início da segunda parte já fique claro o caminho que a trama irá seguir.

Roteirizado pelo próprio diretor em parceria com Nguyen Hoang Nam e Peter Vo, não há indicações de que cada um cuidou de um capítulo em específico. Provavelmente a trama foi escrita totalmente a seis mãos, visto que o longa respeita uma cadência de emoções e os acontecimentos se relacionam com perfeição. É uma pena que o longa foi lançado no Brasil diretamente em DVD e sem campanha divulgação, além de ser um homônimo de uma famosa série de TV (posteriormente um terror americano surgiu com o mesmo título), o que pode ter levado espectadores a levarem gato por lebre ou criar preconceitos taxando o produto como um legítimo caça-níquel. Também colaborou para tal impopularidade o fato do lançamento ter sido feito quando a onda dos filmes de horror orientais já estava em franca decadência. O fator novidade já havia esgotado todas as possibilidades de persuasão e realmente este trabalho em sua premissa não traz nenhuma surpresa. Qualquer pessoa que já tenha assistido meia dúzia de filmes do tipo mata facilmente a charada do mistério da casa e compreende a ligação entre os capítulos. Como a maioria dos produtos orientais as raízes da trama estão em uma crendice espírita, mas a forma que Vu optou para contar sua história de horror faz toda a diferença. Ao invés de sustos fáceis e muito sangue, o cineasta optou por investir mais na ambientação. A parte exterior da casa abandonada passa a sensação de um realismo assombroso, como se as cenas tivessem sido feitas realmente em uma construção em ruínas, fora o fato de nunca descobrirmos o que há do lado de fora de seus muros. Parece que sempre tem alguém a espreita, medo potencializado principalmente nas tomadas noturnas que privilegiam o quintal tomado por um denso matagal envolto em neblina. Para completar, um silêncio quase onipresente trata de dar a tônica do longa, assim potencializando qualquer ruído estranho. É uma pena que Sobrenatural tenha passado em brancas nuvens quando lançado e hoje é um artigo raríssimo, coisa de colecionador que pode não se dar conta, mas tem em mãos um dos melhores títulos de horror orientais. Obviamente ele não é revolucionário, possui falhas e momentos de decepções, mas só por abrir mão de alguns recursos previsíveis para assustar já é digno de uma avaliação com olhar mais positivo. Quem privilegia boas histórias certamente deve se envolver com a trama e elogiar a proposital calmaria da narrativa que mais sugestiona do que mostra, ainda que vez ou outra surja algum espectro com cabelos escorridos cobrindo o rosto para honrar a tradição do terror oriental. Faz parte do show.

Suspense - 113 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

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