segunda-feira, 9 de setembro de 2013

CÃO DE BRIGA

NOTA 4,5

Apesar do título e da presença
de ator conhecido por sua aptidão
para lutas, longa procura gancho
dramático para se sustentar
Um garoto órfão foi criado para ser uma verdadeira máquina de matar e seu instinto cruel é despertado toda que vez é libertado de sua coleira. A premissa poderia cair como uma luva para um longa de pancadaria trash ou uma comédia pastelão, mas não é que Cão de briga até que é uma diversão razoável e com toques bem-vindos de drama? Pois é preciso dar o braço a torcer. O gênero de ação, embora tenha uma legião gigantesca de fãs, raramente escapa de críticas e rotulagens. Temas repetitivos e violência gratuita colaboram para essa má impressão de antemão. Os longas de lutas orientais fazem sucesso quando tem o respaldo de contexto históricos, como os famosos épicos de tempos imperiais, mas quando os chutes e sopapos coreografados como se fosse um balé são oferecidos em uma trama contemporânea a tendência também é o público rejeitar. Com a já citada premissa somada ao nome de Jet Li como protagonista era quase certo que este trabalho do diretor Louis Leterrier, de Carga Explosiva 2, seria um fracasso total, mas até que ele passou suavemente pela crítica e até recebeu o aval de boa parte do público. Obviamente não é uma obra-prima, mas tem a honra de ser um dos melhores filmes do ator natural de Hong Kong que então buscava seu lugar ao sol em Hollywood. Após muitas atuações fracas em produções obscuras americanas, neste caso Li, já consagrado em seu país, conseguiu o projeto perfeito para comprovar que pode atuar (disfarça bem) e ainda mostrar o que sabe fazer melhor: lutar. Ele dá vida a Danny, um rapaz que desde a infância foi privado de qualquer tipo de educação tradicional para ser treinado como um cão de guarda que no futuro deveria fazer a segurança do criminoso Bart (Bob Hoskins), que vive repetindo que ele lhe deve gratidão por ter sido salvo de morrer nas ruas após ser abandonado pela mãe. Sentindo-se acuado e sem saber como se comportar em sociedade, Danny conformou-se em viver acatando as ordens de Bart, este metido até o topo da careca com negócios ilícitos, e conseguia acabar com um bando de homens somente na base de golpes e chutes, sem a necessidade de armas de qualquer tipo.  A coleira era o símbolo da submissão. Quando a usando ele era um ser humano aparentemente normal, mas quando livre dela era como se junto fosse libertada uma raiva incontrolável. Além da segurança, Bart também explora seu “protegido” para ganhar dinheiro em lutas clandestinas colocando-o para brigar com valentões com fama de invencíveis. Certa vez, ao recusar um duelo, ele compra uma briga feia com aquele que diz que sempre o protegeu.

Após fugir de uma armadilha armada por Bart e atraído por uma suave melodia, o mundinho restrito e triste de Danny muda completamente quando ele conhece Sam (Morgan Freeman), um afinador de pianos deficiente visual e que foi a primeira pessoa que o tratou como um ser humano comum. Praticamente sem falar, o rapaz conquista a simpatia e a confiança do cego que o permite frequentar sua casa a vontade, o que o leva também a se aproximar de Victória (Kerry Condon), enteada do afinador. Estas duas pessoas bondosas criam laços tão fortes de amizade com Danny que decidem ajudá-lo a resgatar a história de seu passado e evitar que ele volte ao submundo dos crimes, mas Bart quer a todo custo seu cão de guarda de volta e não medirá esforços para recuperar sua posse. Pegue eles jovens e as possibilidades são infinitas, esse é o lema deste carrasco que não esperava que mesmo após um intenso treino para transformar Danny em uma fera ainda ficaria algum resquício de humanidade nele que a qualquer momento poderia vir a se manifestar. Ao focar na adaptação do “homem-cão” à sociedade é que esta obra ganha pontos e a simpatia do público que geralmente rejeita longas de ação. A pancadaria fica em segundo plano e um leve e agradável drama começa a ser desenvolvido, oportunidade ímpar para Li mostrar que tem talento. Recebido no cinema americano em uma aguardada produção, como um vilão em Máquina Mortífera 4, durante anos o ator oriental buscou respeito em uma indústria extremamente competitiva, mas parecia que apenas seus dotes para as artes marciais é que o credenciavam a competir por alguns escassos papéis. Em contrapartida, em seu território legítimo participou de projetos elogiados como o épico Herói que exigiu do ator também dramaticidade. Com esta obra com roteiro assinado pelo francês Luc Besson (é uma coprodução entre a França e os EUA), Li teve finamente as portas abertas para entrar em Hollywood de cabeça erguida, embora não conte com o mesmo ar de simpatia que Jackie Chan por exemplo. Todavia, ele tem um rosto que inspira jovialidade e a opção de deixá-lo de boca fechada o máximo possível contribuíram para a credibilidade de seu papel, um adulto inocente que por vezes parece uma criança descobrindo o mundo, tudo parece uma novidade. São passagens como a visita de Danny a uma loja de conveniência que fisgam o emocional dos espectadores afinal quantas pessoas existem por aí que também só chegam a conhecer o mundo tardiamente pelos mais variados motivos? Como diz o ditado, antes tarde do que nunca. Contudo, mesmo vivendo um processo de humanização, o rapaz não pode se ver livre de sua coleira de forma alguma ou pelo menos demonstra ter a consciência de que ainda pode ser uma ameaça por ainda não controlar seus instintos.

Freeman, sempre mandando bem em papéis coadjuvantes, mais uma vez convence na pele de um bondoso deficiente visual. Provavelmente pelo seu estado e por seu apreço pela música, Sam é um ser com espírito mais elevado e consegue enxergar a beleza interior de Danny, uma pessoa pura e que merecia uma segunda chance para ser feliz. Como diz Victória a certa altura, a música salvou sua vida, pois ela também está intimamente ligada com seu passado que será descoberto. Contrapondo uma trilha sonora e efeitos de som pesados a melodias suaves de piano, as diferenças entre o submundo e o mundo “dos humanos do bem” também é demarcada visualmente. Embora o tom sombrio permaneça do início ao fim, é possível sentir um respiro quando Danny está na longe de Bart e seus capangas, criaturas literalmente das sombras. Embora ligeiramente acima da média para o gênero, Cão de Briga no final das contas é um projeto cheio de boas intenções, mas que fica no meio do caminho. Não agrada totalmente os fãs de adrenalina, tampouco os emotivos. As cenas de ação são bem realizadas e coreografadas, mas aparecem em quantidade insuficiente para aqueles atraídos pelo robusto título. Já em termos de dramaticidade, o nível é o mínimo possível para tirar a obra de um iminente limbo, mas longe o bastante para dizer que a narrativa vai a fundo na temática. Muito da frustração em termos de emoção se deve ao fato do protagonista não se expressar verbalmente, mas também não faz isso através de gestos e expressões eficientemente. Freeman encara o anjo bom do enredo, aquele cara que são comuns em filmes de ação e que sabem equilibrar razão e emoção, assim tendo sempre um bom conselho para dar em um momento estratégico. Por fim, a mocinha da trama deixa a desejar por ser insossa e não haver um gancho romântico para sua existência. De qualquer maneira, só a tentativa de fazer um longa de ação com justificativa já é algo a ser considerado, mas Leterrier se entrega a situações previsíveis e não consegue se segurar no drama por muito tempo, assim entregando-se na reta final aos sopapos e corre-corre. Curiosamente, a polícia nunca surge mesmo com tantos estragos e mortes que acontecem. Apesar dos furos, o conjunto pode surpreender levemente aos desacreditados no gênero e a pequena dose de drama defendida por um ídolo dos detentores de testosterona já ajuda a acrescentar algo mais a mentes praticamente movidas a adrenalina. 

Ação - 102 min - 2005 - Dê sua opinião abaixo.

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