segunda-feira, 16 de setembro de 2013

CONFIAR

NOTA 7,0

A pedofilia através da internet
é tratada neste drama através de
um único caso, mas o suficiente
para levar jovens e adultos ao debate
Com dois anos de idade já tem crianças atualmente brincando com a tecnologia. Os quebra-cabeças e os jogos de memórias materiais foram substituídos pelos virtuais. Escolas já ampliam o uso do computador nas mais diversas disciplinas e muitos alunos estudam e fazem trabalhos em grupo sem sair de casa, apenas trocando ideias através de chats na internet. Da dúvida sobre matemática para um bate-papo erótico bastam alguns poucos cliques. Qual pai realmente pode afirmar o que seu filho está fazendo nas horas que passa debruçado sobre o computador ou qualquer outra bugiganga que tenha conexão com a rede mundial de computadores? E não venha dizer que os programas que oferecem bloqueios funcionam as mil maravilhas. Com a sexualidade despertada cada vez mais cedo a molecada não mede esforços para fuçar no que for preciso e dar um jeito de encontrar o mundo proibido que a internet oferece. Você pode dizer meu filho só entra em chats sobre futebol ou a filha só que saber de conversar sobre moda, não há riscos. Será mesmo? Uma rápida busca por alguma palavra-chave ligada ao sexo e você verá que a maioria dos frequentadores de bate-papo só pensa naquilo. Muitos utilizam a internet como uma forma de extravasar frustrações e atingir o prazer virtualmente, mas outros se utilizam desta ferramenta com reais e más intenções. Além dos roubos e sequestros, é preocupante o número de abusos sexuais que só aumentam a cada ano e em todo o mundo por conta de encontros marcados com desconhecidos.  É esse o ponto de partida de Confiar, drama com toques de suspense dirigido por David Schwimmer, ator famoso pelo seriado “Friends”. Após estrear na direção pisando em terreno seguro na comédia Maratona do Amor, o ator surpreendeu com a temática de seu segundo trabalho atrás das câmeras realizando uma espécie de filme-denúncia. Há anos ele apóia uma organização que ajuda vítimas de assédio sexual, principalmente garotas em idade escolar. Dessa forma não é de se estranhar que seu filme procura abordar os mais variados lados do tema, desde a abordagem dos criminosos, o envolvimento da vítima antes e depois do encontro, passando pela reação da família ao assédio e culminando no caso chegando ao conhecimento das autoridades especializadas. Tudo isso é apresentado em cima de um único caso, mas o bastante para envolver o espectador e fazer com que ele sinta as emoções de cada uma das personagens, visto que a grande qualidade desta obra está justamente em seu elenco competente e que encontra espaço para desenvolver seus perfis de maneira totalmente convincente, principalmente depois que o crime é consumado e a relação dos pais com a filha adolescente que já não eram boas ficam ainda mais estremecidas. Exibido nos EUA em circuito restrito por conta da classificação da censura, o longa já chegou a outros países como um produto qualquer, mas não merece tal desprezo, ainda mais pela coragem de trazer uma protagonista de apenas 14 anos para tratar de uma temática em que teoricamente ela também poderia ser uma vítima na vida real, o que explica a ausência de cenas fortes de sexo.

O roteiro do novato Andy Bellin e de Robert Festinger, este muito premiado pelo drama Entre Quatro Paredes, começa previsível. A jovem Annie (Liana Liberato) está trocando mensagens através do celular e do computador com um jovem que se apresenta como um amante dos esportes, de bem com a vida e da mesma faixa etária, porém, morador de outra cidade. A garota é a filha do meio do casal Will (Clive Owen) e Lynn (Catherine Keener) e está apresentando problemas típicos da adolescência. Tem dificuldades de relacionamento com os pais que julga não entendê-la e quer fazer de tudo para parecer mais madura que sua idade na ânsia de ser aceita entre seus colegas. Seu amigo virtual é o que ela sempre desejou. Ele a compreende, lhe aconselha e não julga suas atitudes. A relação de amizade extrapola os limites virtuais quando as conversas começam a ganhar conotação sexual. Pouco a pouco ela se sente apaixonada por alguém que apenas idealiza, mas o fato de se sentir desejada por alguém faz toda diferença visto que ela não tinha o mesmo sucesso na escola, assim ela desconsidera as evidências de que está prestes a se meter em uma encrenca. O namorado desconhecido começa a revelar idades diferentes em meio as conversas justificando que tinha medo de ser rejeitado pela garota por ser mais velho, mas isso só faz aumentar a sua curiosidade em conhecê-lo. E eis que um dia ela marca um encontro com o rapaz sem avisar quem quer que seja e tem uma grande surpresa. Charlie (Chris Henry Coffey) na realidade é um homem de 35 anos, mas cheio de lábia ele consegue convencer a menina que está realmente apaixonado e no mesmo dia ele a leva para um quarto de hotel. Violentada e enganada, Annie decide imediatamente denunciá-lo por abuso sexual. Errado! Logo após a transa, filmada de modo velado e elegante, a cena seguinte mostra a garota desesperada no celular deixando um recado para Charlie pedindo explicações sobre seu repentino sumiço. Logo seu encontro secreto é descoberto, a polícia é envolvida no caso e seu deslize chega ao conhecimento de seus pais que felizmente procuram apoiá-la nesse momento doloroso e no qual a filha está muito confusa. Enquanto Will tenta colaborar ao máximo com os trabalhos do investigador Doug Tate (Jason Clarke), Annie ainda vive a ilusão de que sua primeira vez não foi um estupro e sim um ato de amor, conforme confidencia à psicóloga Gail Friedman (Viola Davis), que se limita a ouvir e a aconselhar sua paciente, nunca julgá-la. Seu papel é tentar abrir os olhos da garota para as consequências de seu ato através das confissões da própria vítima. Há quem implique com a inocência extrema de Annie, mas não duvide que tipos assim existem aos montes na vida real. Embora seja de uma família aparentemente com bom padrão financeiro, o que implica em pessoas mais bem esclarecidas por conta de uma educação de melhor nível, a candura da garota é justificada por sua busca pela autoestima que a cega, ainda que seu comportamento diante dos perigos que a tecnologia pode oferecer soe como algo ultrapassado.

O filme tinha potencial para ser um verdadeiro marco, no entanto vários fatores contribuíram para ele ser apenas um suspense ou drama acima da média. O tema é polêmico demais e automaticamente já se torna um fator que espanta público. Embora Schwimmer não extrapole visualmente, os diálogos e situações não são fáceis de engolir. Pais mais conservadores poderiam se sentir constrangidos e os filhos por sua vez também não se sentiriam a vontade, pois sabem que o filme seria como um alerta para a necessidade de um controle mais rígido quanto ao uso da internet. E quantos jovens também não teriam uma sensação desconfortável por justamente buscar no mundo virtual uma satisfação sexual semelhante a da protagonista enquanto não podem sair por aí aprontando ou para acalentarem sua autoestima? E a crítica não fica apenas no perigo dos bate-papos. Com tantas atividades agora sendo feitas diretamente no computador tornou-se fundamental uma vigilância maior em todos os tipos de sites (alerta aos pais que incentivam downloads ilegais de filmes: a maior parte das páginas desse tipo possui links diretos para conteúdos pornográficos). Aliás, Schwimmer faz o espectador se conscientizar da banalização da sexualidade em tudo. Will é publicitário e de certa forma também se sente responsável pelo que aconteceu com sua filha, não só pela má observação de seu comportamento, mas também porque ele próprio ajudou a despertar o desejo sexual da garota precocemente. Muitos podem não compreender a inserção de uma cena específica, mas que por si só vale por todo o longa pelo conteúdo que carrega. Durante o lançamento de uma grife de roupa juvenil a qual presta serviços, Will revela a um amigo que sua filha foi abusada sexualmente por persuasão e se espanta ao ouvir como comentário que ainda bem que ela não foi estuprada (ignorância ou conivência?). Logo depois o publicitário começa a passar mal ao ver que as imagens da campanha que idealizou exploram os corpos belos e sarados de jovens, provavelmente o mesmo tipo de imagem que Annie teria enviado ao pedófilo e que provocou sua obsessão em levá-la para cama, assim como tantas outras que ele deve ter ludibriado. Por fim, Confiar perde pontos por não ousar tecnicamente, parecendo um telefilme. Direção e cortes de cenas convencionais, narrativa previsível e alguns momentos com uma injeção desnecessária de adrenalina acabam tirando um pouco o brilho da produção, mas ainda assim ela cumpre seu papel de trazer a tona uma temática pesada, porém, necessária para o debate entre jovens e adultos, quiçá até mesmo entre as crianças. São muitos pontos a serem trabalhados a respeito dessa mazela da modernidade em termos sociais, emocionais, morais e até mesmo envolvendo autoridades e a mídia, por isso não se pode culpar Schwimmer pelas limitações de seu filme. Seus objetivos certamente foram cumpridos, com cenas marcantes como no momento em que o pessoal do FBI revela algumas das armadilhas que os pedófilos virtuais costumam usar ou quando o telefone de Lynn toca enquanto Annie tenta fazer contato com Charlie, mostrando que os males desta relação em segredo não se atém apenas a vítima, mas podem virar um emaranhado de problemas envolvendo quem a cerca.

Drama - 106 min - 2010 - Dê sua opinião abaixo.

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