quarta-feira, 18 de setembro de 2013

LUZES, CÂMERA, AÇÃO!

NOTA 5,0

Ironizando a obsessão pela fama
e brincando com o gênero policial,
longa tem boa premissa, mas é apenas
pontuado por momentos divertidos
A metalinguagem é um grande aliado da sétima arte e existem vários exemplos de obras que se utilizam desse recurso para homenagear, criticar ou ironizar o cinema, mas é uma pena que algumas boas ideias não vinguem totalmente como é o caso da comédia Luzes, Câmera, Ação! que brinca com o gênero suspense. Os créditos iniciais dispostos sobre imagens que fazem alusão ao mundo cinematográfico e o policial, como letreiros, sacos de pipoca e manchetes de jornais, são tão bem bolados que instigam a curiosidade do espectador, mas no final das contas o que temos é um filme pontuado por momentos de humor, porém, que não chegam a arrancar gargalhadas. A trama começa apresentando Joe Diamond (Alec Baldwin – cujo personagem revela ter vários sobrenomes, tudo para evitar que sua verdadeira identidade seja revelada) que está devendo dinheiro para criminosos e implorando um tempo extra para pagar. Na realidade ele preparou uma emboscada em um cinema para a polícia pegá-los em flagrante e serem condenados, estando disposto inclusive a perder um dedo para não correr riscos de que alegassem que não existem provas contra eles. Planos mirabolantes como esse fazem parte da rotina deste agente do FBI que após seu último caso resolvido com sucesso é selecionado para investigar um esquema de propina envolvendo um sindicato que negocia motoristas e caminhões para equipes de cinema. Para chegar ao chefão desse tipo de crime, Tommy Sanz (Tony Shalhoub), Diamond decide se passar por produtor de cinema e planeja fazer um filme que na verdade jamais seria realizado, apenas um plano para dar mais veracidade e não levantar suspeitas. Para tanto ele precisa contratar equipe técnica, atores, diretor e principalmente ter um roteiro em mãos. Steven Schats (Matthew Broderick) é um roteirista fracassado que está tentando desesperadamente vender o script de “Arizona”, história baseada em fatos reais sobre uma mulher que sofre de câncer de mama e segue em uma jornada espiritual em busca de uma lendária caverna habitada por espíritos indígenas que supostamente poderiam curá-la. Profundo não? Sem sucesso na profissão, o escritor se dedica a cuidar de um canil nos fundos de sua casa e é assim que ele conhece Diamond que o procura para conseguir um cachorrinho que substitua a sua cadelinha que cometeu suicídio na banheira de hidromassagem por não receber quase atenção do policial.

Há males que vem para o bem. Graças a história do cachorro Diamond consegue encontrar uma história decente e que pode dar credibilidade ao seu plano, assim contrata Schats como roteirista e também diretor do filme que irá supostamente bancar. Contudo, Marshal Paris (Tim Blake Nelson), irmão do escritor e também coautor do roteiro, não quer assinar os papéis que cedem os direitos autorais, mesmo agora que se dedica a carreira de ator, ainda que atuando em produções pequenas e de pouca repercussão. Contudo, a produção do longa fictício, mas extremamente real para a maioria dos envolvidos, continua sendo tocada de vento em pompa. A cidade de Rhode Island é o local escolhido pelo produtor para as filmagens, assim ele ficaria mais próximo da área de atuação de Sanz. O problema é que a região está moderninha demais para a ambientação idealizada por Schats para contar sua história edificante, mas nada que uma super recepção em um luxuoso hotel não faça o roteirista esquecer-se de qualquer reclamação.  Diamond tem tudo minimamente planejado, mas de qualquer forma terá que adquirir os serviços do tal sindicato que investiga, caso contrário o projeto seria barrado pelos criminosos e seu plano revelado. Toda a operação é acompanha pelo FBI através de câmeras escondidas e o agente só deseja seguir com a armadilha até a etapa de escalação de elenco, mas as coisas ficam tão sérias que o filme chama a atenção até mesmo de Emily French (Toni Collette), uma atriz indicada ao Oscar cheia de esquisitices. Barrada em Hollywood por conta de seus excessos, ela decidiu batalhar pelo papel principal porque se identificou com ele por ser uma suicida potencial, mas a mesma personagem está sendo disputada por Valerie Weston (Calista Flockhart), aspirante a atriz e temperamental esposa de Schats, mas que provavelmente terá que se contentar em viver uma coadjuvante.  Com o nome de uma famosa atriz atrelado, o projeto ganha proporções maiores e chances reais de ser realizado já visando lucros nos cinemas, locadoras e venda para a TV. O próprio FBI se empolga com a ideia de fazer filmes para capturar criminosos e ainda ganhar algum lucro financeiro, o que inclui até a inserção de merchandising nas produções.

Escrita e dirigida por Jeff Nathanson, esta obra é do tipo que preenche um tempo ocioso de forma agradável, mas está longe de ser memorável. Como já dito, é um trabalho pontuado por bons momentos, principalmente aqueles que fazem uma crítica a ganância e a busca pelo sucesso inerente ao ser humano. Schats fica deslumbrado com o que consegue de uma hora para a outra e fecha os olhos para o seu trabalho, praticamente não percebe que o super drama que planejava estava mais para uma paródia às produções com temáticas envolvendo problemas de saúde que costumam ser indicadas a prêmios. Quando percebe que finalmente seu irmão ia subir na vida, Marshal também corre contra o tempo para ganhar uma vaga no longa ameaçando contar certas verdades que podem estragar o projeto. Emily e Valerie são os estereótipos de muitas atrizes que andam circulando por Hollywood e adjacências. Uma em um golpe de sorte foi indicada ao prêmio máximo do cinema e de repente se viu sobre a mira da mídia, mas seu comportamento na vida particular é um verdadeiro achincalhe para sua carreira. Sua identificação com o drama da protagonista de “Arizona” lembra casos de outros atores que chegaram ao topo, caíram em desgraça graças a vícios e excessos e encontraram a redenção voltando ao cinema em papéis redentores. Já sua rival na disputa pela vaga de atriz principal é aquele velho exemplo da dependência familiar. Se o marido é roteirista e diretor do filme, qual o problema de sua esposa atuar no longa? Nenhum, desde que ela tenha talento para tanto, o que aparentemente não é o caso e sim uma obsessão pela fama. Por fim, Diamond se envolve tanto com a produção do longa fictício que acaba ele próprio perdendo os limites e assumindo realmente o papel de um produtor e deixando as investigações de lado, não honrando algumas regras de sua profissão. Todavia, este afastamento é bom para a narrativa de certa forma já que tramas policiais costumam ser cheias de citações a nomes e pistas falsas que no fundo só servem para confundir o espectador. Aqui também existe esse problema, a certa altura até esquecemos o real motivo que provocou todo esse rebuliço em torno de um filme e quando voltam a tocar no assunto já estamos desinteressados. O lance é ver qual a próxima piada sarcástica capaz de deixar certas pessoas do meio cinematográfico ruborizadas. Luzes, Câmera, Ação! termina de modo previsível, mas provando que muitas vezes as histórias dos bastidores são bem melhores que as próprias narrativas dos filmes... E como podem ser mais interessantes.

Comédia - 99 min - 2003 - Dê sua opinião abaixo.

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