terça-feira, 17 de setembro de 2013

SANTOS E PECADORES

NOTA 7,0

Apesar de soar confuso em alguns
momentos pelo excesso de nomes
mencionados, longa tem trama bem
amarrada e adrenalina em altas doses
Como sempre dito neste blog, os filmes de ação já tiveram sua fase áurea, tempos em que Arnold Schwarzenegger, Sylvester Stallone, Jean-Claude Van Damme e companhia bela eram sinônimos de lucros. Como tudo que é demais enjoa era batata que o gênero uma hora entraria em declínio. Os brucutus então tiveram que se contentar em esquecer as altas bilheterias do cinema e migrar para o campo do vídeo doméstico, área que os aceitou de braços abertos e criando um novo público cativo. E se engana quem pensa que apenas pessoas mais simplórias são adeptas das correrias, tiroteios e sopapos para todos os lados. Uma boa parcela do público de filmes de ação é composta por pessoas de nível intelectual elevado. Dedicados as suas profissões e estudos, essas pessoas na hora do lazer procuram opções mais amenas, portanto, nada de colocar o cérebro para funcionar. O negócio é relaxar, mas não a ponto de se contentar com filmes que se equilibram sob um fiapo de história. Talvez por isso algumas produções calcadas na adrenalina procurem transformar um argumento simples em algo mais elaborado como é o caso de Santos e Pecadores. Embora previsível, o longa dirigido e escrito por William Kaufman ganha pontos por pegar pesado na violência gráfica, algo raro em tempos de produções que seguem a cartilha do politicamente correto, ou quase isso. Os ferimentos expostos e os golpes comumente são substituídos por diálogos tensos ou grotescos e pelo consumo de drogas, talvez agressões que provoquem muito mais impacto no espectador que uma luta corporal. Kaufman filma de modo mais tradicional e investe nos clichês, mas graças a um pequeno detalhe salva seu trabalho do ostracismo: corpos em chamas (ficção imitando a realidade ou o contrário?). A trama começa apresentando uma das batidas policiais comandadas pelo corajoso Sean Riley (Johnny Strong) em uma área dominada por criminosos fortemente armados em Nova Orleans. A operação resulta na morte de um companheiro de trabalho deste tira durão que não pensa duas vezes antes de atirar nos bandidos. Como em qualquer boa produção Hollywoodiana do tipo, é óbvio que não sobra um vilão para contar história, todavia, Riley também não termina como herói, pelo contrário.

O Capitão da polícia Pete Trahan (Tom Berenger) não tece elogios a bravura de seu subordinado em sua última missão. Muitas pessoas reclamaram do excesso de violência nessa operação e também em algumas outras que ele ancorou o que o deixou com a imagem ruim perante sua corporação sendo considerado um tira fora de controle. Mesmo assim é confiado a Riley o caso de uma série de assassinatos brutais que resulta em corpos carbonizados, mas com vestígios de produtos químicos de extintor de incêndio, o que indica que os corpos tiveram as chamas apagadas e depois reacendidas pelo menos mais uma vez. O detetive de homicídios Will Ganz (Kevin Phillips) já está cuidando do caso, mas precisa da ajuda de um corajoso tira para apoiá-lo visto que uma inescrupulosa gangue está por trás destes cruéis assassinatos. A dupla se conhece em um estúdio de fotografia de fachada onde eram expedidos documentos falsos. O local foi invadido e todos os ocupantes foram exterminados, entre eles Sonny (Jay Moses), fotógrafo que foi queimado vivo por não cooperar com os bandidos cedendo informações que buscavam. Riley verifica que os assassinados a bala não tiveram chance de escapar, foram tiros certeiros, o que indica que a gangue é composta por pessoas com habilidades com armas e entrosamento mútuo. Logo Ganz percebe que o tira está envolvido demais com o caso e começa a especular as razões. Riley na mesma noite do crime no estúdio fotográfico foi procurado por Colin (Sean Patrick Flanery), um antigo conhecido que já colocou o policial em diversas situações complicadas no passado, mas que andava sumido. O rapaz está claramente transtornado, diz que está trabalhando em uma empresa de segurança, mas que seu retorno à Nova Orleans é rápido e provavelmente esta seria a última vez o dois se encontrariam, assim deixando no ar que ele se meteu em alguma nova encrenca. Rastreando as ligações do celular de Sonny, a dupla de policiais chega até pistas que ligam os cruéis assassinatos à Raymond Crowe (Costas Mandylor), executivo metido com negócios sujos e que tem seu nome atrelado ao da empresa em que Colin trabalhava. Para embaralhar ainda mais o quebra cabeças, é descoberto que o estranho amigo de Riley estava tentando entrar em contado com um jornalista da TV, este que então seria a primeira vítima a virar literalmente churrasquinho. Pelo exposto dá para perceber que o enredo não foi feito de qualquer maneira, embora quando falta mais meia hora de duração o grande segredo da trama já seja revelado, mas ainda há com o que preencher os minutos finais com ação quase ininterrupta.

O problema destes enredos em estilo quebra-cabeça é a quantidade de pistas jogadas que não leva a lugar algum. Um grande emaranhado de nomes surge, alguns cujos personagens nem entram em cena ou talvez sejam difíceis de identificar, e apenas uma meia dúzia de tipos são bem delineados, o que pode entediar um pouco o espectador que se não prestar atenção logo estará bocejando diante de cenas de perseguição e tiroteios aparentemente sem sentido, ainda que carregadas de doses cavalares de adrenalina. Em meio ao corre-corre e as respirações ofegantes, Kaufman tenta puxar alguns ganchos dramáticos, porém, não os desenvolve a contento. É citado logo no início que a cidade de Nova Orleans recentemente sofreu com uma violenta tempestade que matou centenas de pessoas e deixou milhares na miséria, um fato que não contribui em nada à trama principal, a não ser para a construção da personalidade de Riley. Após acompanhar tantas tragédias de perto nada mais o assusta, mas sua astúcia em casos de perigo tem uma explicação mais íntima. Seu filho morreu ainda muito pequeno vítima de leucemia e sua mulher o abandonou. Ele teve que criar coragem para encarar os obstáculos da vida sem medo, afinal estava sozinho no mundo ao contrário de Ganz que tem esposa e dois filhos e precisa preservar sua vida a todo custo. Felizmente Kaufman evita o batido clichê da dupla formada por um negro e um branco que não se entendem, sendo obrigatoriamente um metido a espertalhão e/ou conquistador e o outro atrapalhado e necessitando urgente provar o seu valor. A relação de Ganz e Riley é totalmente crível e madura, claro que uma amizade colocada em xeque na reta final quando o cerco se fecha e os polícias se encontram no olho do furacão.  Pena que também são desperdiçados ganchos como o envolvimento do irmão do jornalista vitimado, Weddo (Clifford Smith), que busca vingança, e a perseguição da própria polícia à Riley que procura fazer o bem por meios torpes, todavia, ele faz com os criminosos aquilo que os populares em geral gostariam como castigo para quem pratica o mal. Santos e Pecadores não é um filme de ação banal e sem propósitos. Apesar de alguns excessos visuais e no roteiro, tem uma história bem amarrada, instigante e que sacia a vontade dos aficionados por temáticas violentas e adrenalina. Lançado diretamente em DVD no Brasil é uma pena que goze do ostracismo enquanto lixos encabeçados por nomes famosos continuam tendo uma repercussão bem maior, mesmo que negativa. Já diz o ditado, fale bem ou fale mal, mas falem de mim.

Ação - 104 min - 2010 - Dê sua opinião abaixo.

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