sexta-feira, 27 de setembro de 2013

TUDO POR DINHEIRO (2005)

NOTA 6,0

Longa mostra o começo, a
ascensão e a decadência de
um profissional do ramo das
apostas, um mundo vicioso
Todos sabem que o cinema de Hollywood tem um caso de amor com o mundo dos esportes e praticamente todas as modalidades já serviram como temática para algum tipo de filme seja drama, ação, suspense, comédia e até romance. Algumas atividades já serviram tantas vezes como pano de fundo para histórias clichês que qualquer nova produção do tipo acaba sendo automaticamente rotulada como desinteressante e as coisas tendem a piorar quando o esporte em questão é intimamente ligado a cultura ianque, como é o caso do futebol americano. É praticamente impossível não fazer pré-julgamentos negativos de obras que geralmente não passam de um amontoado de imagens de jogos cujas regras desconhecemos acompanhadas de diálogos boa parte incompreensíveis e que no fundo servem de adorno para um conflito tolo ou previsível. Já estamos acostumados a ver histórias de superação e até de tramóias que acontecem nos bastidores das competições, mas Tudo por Dinheiro procura um viés diferente: o submundo das apostas. Sim, não é apenas nos jogos de azar que uma pessoa pode ir do céu ao inferno e vice-versa. De uma hora para a outra, ou apenas o tempo de duração de uma partida de jogo, a vida de uma pessoa pode mudar completamente de acordo com suas apostas. Vejam a contradição. Nos EUA, apostar em resultados esportivos é ilegal, mas oferecer consultoria aos interessados em prever resultados das partidas é permitido. O roteiro de Dan Gilroy parte de uma história real para contar a história de Brandon Lang (Matthew McConaughey), rapaz que desde a infância foi incentivado a se dedicar ao futebol americano, mas um problema no joelho fez com que ele abandonasse o esporte temporariamente, acreditando que ainda teria chance de futuramente ser convocado para atuar em algum time profissional, embora todas as suas tentativas para chegar a isso tenham sido frustradas. Enquanto alimenta este sonho, ele trabalha em um pequeno serviço de orientação a apostadores. Com sua experiência de campo, sua função é avaliar as chances de vitória dos times de futebol americano em determinados confrontos, assim direcionando os apostadores a fazerem investimentos mais seguros. Sua habilidade para tal atividade e sua simpatia para lidar com as pessoas chamam a atenção de Walter Abrams (Al Pacino), responsável pelo maior serviço de esportes dos EUA. Oferecendo um salário bem alto, o executivo deseja que Lang vá para Nova York para trabalhar em um programa de TV voltado ao público amante das apostas esportivas. É óbvio que o rapaz aceita e o que vemos a seguir é um filme previsível que segue uma fórmula conhecida e muito eficiente: busca pela felicidade, conquista, decadência e a redenção.

O diretor D. J. Caruso, de Paranóia, tem uma filmografia que flerta com diversos gêneros, mas nenhum grande sucesso. Neste drama vendido erroneamente como um produto de ação ou policial, ele também não conseguiu se sobressair, apesar dos esforços para transformar uma temática tipicamente americana em algo universal. Essa seria a justificativa para a citada fórmula maniqueísta que resulta em um final edificante. O lero-lero a respeito de lances e jogadas do futebol americano está presente em várias cenas, o que compromete um pouco a narrativa lá pela metade. O corte de algumas sequências do tipo seriam benéficas a obra, deixando o texto mais fluente e reduzindo consideravelmente o tempo de duração que beira duas horas, outro fator que ajuda a cansar o espectador. Mas o que importa é a lição de moral que o enredo traz, então vamos a ela. A premissa lembra produções como A Firma, O Advogado do Diabo e tantas outras nas quais uma pessoa consegue subir na vida graças a uma boa colocação no mercado, mas as alegrias não tardam a cessar quando ela percebe que milagres no mundo dos negócios não existem. O que existe é lábia, trapaça, mentiras e por fim tristeza. Pacino tem se especializado ultimamente a fazer papéis de paizão, ou melhor, de padrinho. O tempo passa para todos e é difícil manter a estrela brilhando e parece que o ator achou o caminho para se manter em evidência: ser o mentor do protagonista. Mais uma vez ele repete o papel de um homem com o dom da palavra e inteligente que deve formar o perfil de profissional ideal para substituí-lo em seu ramo. Energético e verborrágico, o ator tem momentos inspirados na pele de Abrams, um ex-viciado em jogatinas que hoje ganha a vida com o vício dos outros, como em determinado momento que diz, em outras palavras, que ninguém fica doente com o vício no jogo, a própria pessoa é a doença e o fracasso é seu remédio. O viciado não se contenta em jogar até ganhar. Ele quer perder, mesmo tendo consciência do prejuízo, para ter uma razão para pensar no amanhã. Quando revela tal pensamento, Abrams está em um grupo de ajuda, uma espécie de apoio aos viciados em jogos tal qual existe para os dependentes químicos. É a partir desse momento que Pacino mostra que seu papel não é um mero coadjuvante. Ele não sacia o seu vício apenas vendo pessoas ganhando em um dia e perdendo tudo no outro, mas ele próprio quer sentir a derrota em outros aspectos de sua vida. Para expor a dependência da jogatina, seja por necessidade, ambição ou puro prazer, o roteiro desenvolve algumas pequenas tramas paralelas que expõe pessoas de diferentes níveis sociais também envolvidas nesse mundo paradoxal, tudo para rechear o longa até que chegamos a uma sutil virada na trama.

Lang entra no mundo das altas apostas ainda reticente. Tímido, cheio de dúvidas, mas não demora muito para se sentir seduzido pela fama e dinheiro. Na mesma noite durante um jantar, por exemplo, o rapaz diz com naturalidade que nunca havia bebido uma garrafa de água tão cara, porém, logo sua inocência é esquecida para flertar com uma bela mulher que Abrams desafia-o a levar para a cama. É óbvio que ele consegue e isso faz com que seu protetor aposte ainda mais nele, pois vê que seu desejo de vencer é maior que qualquer outro sentimento. Muito persuasivo, ele consegue fazer com que Lang literalmente assuma outra personalidade. Quem nunca ao menos ouviu falar de alguém que mudou seu estilo de vida após enriquecer? O personagem de McConaughey é o símbolo de que a perda de identidade está intimamente ligada a conquista do poder. Lang é um rapaz alegre, educado, preocupado com a família, justo e sonhador, mas para poder participar do tal programa de TV para apostadores ele se transforma, muda inclusive de nome. John Anthony passa a ser então sua alcunha, um homem egocêntrico, vaidoso, mas dotado de um indiscutível poder de persuasão e que passa uma imagem de extrema segurança. Qual apostador confiaria nas dicas de um cara mal penteado e com colarinho da camisa aberto? Um gel no cabelo e um terno alinhado é o que basta para transformar Lang em outra pessoa e ele próprio assume tal papel além do necessário. O sucesso lhe trouxe dinheiro, bens materiais e o poder de conquistar quantas mulheres quisesse, mas é óbvio que em determinado momento ele vai perceber que vendeu sua alma ao diabo. A relação mestre e pupilo então sofre um abalo graças a personagem de Rene Russo, Toni Morrow, esposa de Abrams. Desde o início fica no ar que o casal vivia uma relação estranha, o que obviamente abre portas para as especulações de que a personagem se envolveria com Lang, mas como o final de uma partida de futebol em que tudo pode mudar no último minuto do segundo tempo, os filmes também podem guardar uma virada de última hora. A única coisa que não muda é aquilo que já subentendemos só em ler a sinopse: o dinheiro não traz felicidade. É uma pena que para exemplificar graficamente tal ditado Caruso se estenda demais. Tudo por Dinheiro tem uma mensagem no fundo universal, mas a forma como o enredo foi desenvolvido acaba afastando boa parte dos espectadores. Como já dito, um punhado de minutos a menos deixaria este trabalho mais redondinho e afastaria o fantasma deste ser mais um daqueles filmes chatos sobre esporte. Quem quiser se aventurar, no entanto, deve ficar satisfeito com a opção. Bem feitinho, boas atuações da dupla protagonista, algumas passagens que merecem um olhar mais atento e por fim a famigerada mensagem edificante. Produção acima da média para seu estilo.

Drama - 122 min - 2005

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