sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O SEGREDO DE VERA DRAKE

NOTA 8,5

Prática do aborto é discutida
a partir dos atos de senhora de
idade que só queria fazer o bem,
mas acabou taxada como criminosa
O aborto é um dos temas mais polêmicos que o mundo enfrenta já há muitos séculos. Moral, religião, família, honra, criminalidade, enfim são vários os aspectos em que uma gravidez indesejada pode interferir e até hoje o assunto de interromper propositalmente uma gestação gera discussões, sendo crimes gravíssimos em alguns países enquanto outros optaram por um relaxamento das leis para ao menos permitir tal ato no caso de uma criança concebida através de um ato sexual criminoso. Todavia, parece que esse problema jamais terá uma solução definitiva, mas podem vir a ser atenuado graças a trabalhos como O Segredo de Vera Drake que trazem uma visão mais intimista e detalhista do dilema. Embora a trama se passe durante a década de 1950, período pós-guerra ainda marcado por mazelas e conservadorismo, o conteúdo exposto, além de nos proporcionar uma visão dos costumes da época, ainda suscita reflexões. A personagem do título é interpretada brilhantemente por Imelda Staunton. Vera Drake é uma gentil senhora que vive em um bairro operário de Londres ao lado do marido Stanley (Philip Davis) e seus filhos já adultos, o extrovertido Sid (Daniel Mays) e a tímida Ethel (Alex Kelly). Apesar de não viverem de luxos e contarem moedas para sobreviverem, o clã vive em harmonia e não se nega a ajudar os necessitados. Vera é faxineira em casas de pessoas de posses, seu marido é mecânico, o filho trabalha numa alfaiataria e a filha testa lâmpadas e dedica seu tempo livre ao tricô, caracterizando a típica família de classe média baixa que sabe viver com o que tem e não sonha alto. Porém, aos poucos, vamos descobrindo que a solidariedade de Vera chega a limites extremos. Sem receber dinheiro algum, há vinte anos ela sai escondida de casa para ajudar moças grávidas que não poderiam criar seus filhos realizando abortos caseiros. Como se fosse uma enfermeira especializada, ela recebe com todo carinho e atenção as mulheres que lhe pedem socorro através de Lily (Ruth Sheen), uma espécie de contato secreto que agenda os encontros, e com sua voz doce e calma procura tranquilizá-las enquanto prepara o material para o procedimento. Utilizando uma bomba de sucção, uma mistura de desinfetante, sabonete e água quente era introduzida dentro do corpo da grávida e dentro de dois dias o embrião seria expelido. A benfeitora não gostava de usar o termo aborto, pois para ela tal situação era apenas mais uma forma de prestar caridade, no caso ajudando jovens carentes, esposas que deram um mau passo e mulheres que já eram mães e não podiam arcar com as despesas de mais um filho. A prática só foi legalizada na Inglaterra cerca de vinte anos depois deste episódio, ato provavelmente impulsionado pelos diversos casos de pessoas que sofreram consequências graves devido a sua ingenuidade e falta de discernimento.

Com direção e roteiro do britânico Mike Leigh, de Segredos e Mentiras, e baseado em fatos reais, este trabalho vai se revelando aos poucos. Primeiramente nos familiarizamos com o universo em que vive a protagonista e ficamos conhecendo sua posição perante a sociedade, uma forma de plantar dúvidas na cabeça do espectador sobre os motivos que levaram uma senhora tão simpática e respeitada a praticar atos ilegais. O diretor teve todo o cuidado de mostrar a personagem totalmente a vontade na sua primeira cena em ação afinal isso já faz parte de seu cotidiano tal qual lavar a louça ou varrer a casa. As sequências que mostram os procedimentos abortivos são realizadas com muita naturalidade como se fosse um exame de rotina de forma a não chocar negativamente o espectador, porém, sem deixar de mexer com suas emoções. Na mesma época os hospitais já estavam autorizados a realizar abortos, obviamente mediante a bons pagamentos em dinheiro, mas até as mulheres mais ricas preferiam a clandestinidade como forma de preservar suas honras e a de suas famílias. A vergonha de ser apontada na rua como uma devassa para elas representaria um sofrimento muito maior que qualquer dor que poderiam sentir ao introduzirem algo estranho em suas entranhas. O longa não vai a fundo nessa questão, embora complicações e mortes devessem ser corriqueiras mesmo em ambiente hospitalar, mas a sociedade e as autoridades tinham muito mais poder e facilidade para acusar as minorias, como no caso de Vera que teve o azar de atender Pamela (Liz White), uma jovem que acabou passando mal após o procedimento, foi levada a um hospital e o caso chegou aos ouvidos da polícia e consequentemente ao conhecimento da família da idosa. Procurando não manchar a reputação de desconhecidas Vera acabou arruinando sua própria imagem. Aliás, é muito curioso que fora a protagonista, nenhum dos atores embarcou no projeto já sabendo da temática. Tudo foi revelado ao elenco (excluindo obviamente as moças que ela já havia atendido antes) no mesmo instante em que a senhora foi desmascarada e todos os atores foram proibidos de falar algo sobre a produção até mesmo para os familiares. Missão impossível? Não quando um diretor respeitável está segurando as rédeas. Trabalhar com o conceituado Leigh é o sonho de muitos atores, portanto não é de se estranhar que a turma tenha aceitado trabalhar em um filme sem roteiro pré-escrito. Para alcançar o máximo de realismo o cineasta decidiu redigir o texto conforme as filmagens avançavam e as reações do elenco, proposta arriscada, mas que deu tão certo que no final das contas deu muito mais trabalho transcrever o longa para atender as exigências das premiações que necessitavam do roteiro por escrito para inscrevê-lo. A veterana Imelda provavelmente pensava que o filme terminaria com a revelação de seu segredo, mas sequer desconfiava que sua personagem ainda seria presa e levada a julgamento. A cena em que a polícia bate a sua porta é tão perfeita que é difícil imaginar que os diálogos foram improvisados e interpretados ainda sob a reação de todos quanto a surpresa de que a narrativa ainda teria desdobramentos sérios. Conhecendo o tal segredo, é justamente aguardar a reação dos demais personagens a grande expectativa do longa.

Apesar do resultado narrativo e estético ser dos melhores e seguindo o estilo europeu de se fazer cinema, mais lento e preocupado em contar uma boa história através de personagens envolventes e de fácil identificação, a produção foi sofrida. Com orçamento apertado, o cronograma perdeu uma semana de filmagens, grandes estrelas não foram contratas (Imelda só se tornou famosa após este trabalho e o oscarizado Jim Broadbent faz apenas uma ponta creditada como o juiz que determinará o destino da protagonista) e até nota-se a ausência de trilha sonora, sendo que os personagens é que cantarolam vez ou outra para quebrar um pouco o silêncio. Todavia, mais importante que o dinheiro é a criatividade e a sensibilidade de Leigh para levar adiante uma história alicerçada sob uma temática tão arriscada. Desde a concepção da ideia, estava claro que o filme não seria um avassalador sucesso de público, mas com a acolhida em massa da crítica e das premiações (Oscar, Globo de Ouro, Bafta, Festival de Veneza entre outros) o longa acabou tendo um rendimento satisfatório e conseguiu plantar na cabeça e no coração de quem assistiu a sementinha para suscitar a discussão a respeito dos vários aspectos que envolvem o aborto. Sem levantar bandeira sobre a legalização do ato, a exploração de um caso ocorrido há décadas atrás trata de revelar o quanto a sociedade em geral é hipócrita. E quantas pessoas ainda hoje, inclusive no Brasil, realizam procedimentos ilegais justamente por não se sentirem amparadas pelas leis, mesmo quando contestam serem obrigadas a dar a luz a uma criança gerada por um ato de violência? E quantas almas boas como Vera Drake ainda podem ser apontadas por aí como carniceiras? Mas será que é só por caridade mesmo que ela realiza esses serviços? O passado dela não é revelado. A única coisa que fica entendida é que se casou precocemente, talvez justamente por uma gravidez não planejada e que mudou o rumo de sua vida, mas o cineasta evita explorar a história de Vera pelo viés psicológico. Simplesmente mostra com total intimidade sua rotina, repetindo várias vezes a realização de abortos para ratificar a temática pesada, mas jamais apresenta a protagonista como um anjo de candura ou alguém com más intenções. Vera simplesmente é uma mulher comum que errou procurando fazer o bem, mas o espectador não se sente confortável em julgá-la. Embora seus procedimentos caseiros choquem se pararmos para pensar que de forma muito tranquila ela estava exterminando uma vida, não conseguimos enxergá-la com maus olhos porque realmente ela nos convence de que inocentemente acreditava estar fazendo o melhor para as mulheres que a procuravam em um momento de angústia, tanto que torcemos a seu favor durante o julgamento, diga-se de passagem, cenas de pura emoção e nas quais literalmente Imelda brilha com seus olhos ligeiramente claros e marejados de lágrimas a cada nova evidência revelada comprovando a ilegalidade de seus atos. Com muita seriedade, O Segredo de Vera Drake faz uma excelente exposição de um tema ainda envolto em muita névoa e é certo que os conceitos defendidos por cada espectador a esse respeito devem influenciar diretamente na avaliação desta obra. Será que é por isso que ela acabou não se tornando um daqueles pequenos filmes premiados cuja fama enfrenta bravamente o passar dos anos? Mexer em feridas dói, não é mesmo?

Drama - 125 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

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