sábado, 7 de dezembro de 2013

ESPÍRITOS FAMINTOS

Nota 3,5 Apesar de ser razoável, suspense não foge do clichê do fantasma que quer vingança

A onda de cinema de horror que enriqueceu os cofres e a cinematografia do oriente trouxe, apesar de muita bobagem no meio, alguns aspectos interessantes da cultura de países que levam a sério rituais funerários e a crença de que mortes violentas levam os espíritos a clamarem por vingança. O descanse em paz não é apenas uma frase de consolo, mas um objetivo que os vivos devem ajudar os desencarnados a conseguir e o filme Espíritos Famintos mostra um dos vários rituais usados para este fim. Jason Tsai (Terry Chen), a esposa Sarah (Jaime King) e o filho Sam (Regan Oey), de apenas seis anos, viajam para Xangai, na China, bem na época que se comemora o Mês do Fantasma Faminto. Eles saem do Canadá e vão para o funeral de um tio do rapaz que morreu inesperadamente e que deixou como herança para Mei (Pei-Pei Cheng), sua viúva, uma fábrica. Jason foi criado por essa família cujo patriarca era conhecido por fundar uma sociedade benevolente e também era chamado de “O Coletor de Ossos”, já que ele exumava os ossos de imigrantes e os enviava de volta a seus países de origem para serem enterrados junto aos demais familiares. Logo que chega à terra natal de seu pai Sam começa a ser atormentado por aparições de espíritos e é alertado por um nativo que o garoto e sua mãe têm almas sensíveis e que poderia ser muito perigosa a estadia em território chinês. Justamente naquele mês abria-se uma espécie de portal que dava acesso aos mortos ao mundo dos vivos, mas algumas dessas almas poderiam ser atormentadas e transformarem-se em demônios que infernizariam as vidas daqueles que os notasse. Dito e feito. Após relatar estar sendo perseguido por uma jovem fantasma, o garoto misteriosamente entra em um coma profundo de uma hora para a outra e os médicos não conseguem explicar o que há de errado com ele. Ao mesmo tempo que lida com o medo da morte do filho, Sarah ainda tem que aguentar a frieza e mau humor da tia Mei, com quem desde o início troca farpas, e tentar descobrir de quem é e o que quer o espírito que atormenta sua família.

Seguindo a cartilha do gênero versão asiática, já sabemos o que vai acontecer de antemão. A tal garota fantasma morreu sob circunstâncias mal explicadas e agora quer justiça. Também não é difícil descobrir quem deve pagar o pato. Se a família Tsai foi atraída para a China é porque aí tem coisa e algo a ver com seus familiares tidos como exemplos de tradição e solidariedade. Muito recato e amor ao próximo é de se desconfiar. Apesar da trama batida, Espíritos Famintos é até um pouco acima da média, ainda mais se levarmos em consideração o ano de sua produção quando a febre do terror oriental já tinha passado e apenas alguns poucos (e ruins) remanescentes ainda eram lançados. Conduzindo claramente um trabalho de orçamento limitado, o diretor Ernie Barbarash preferiu investir na criatividade na hora dos sustos reduzindo ao máximo o uso de efeitos digitais. Maquiagens, trucagens de câmera e iluminação e uma edição bem talhada se encarregam de auxiliar na condução da trama roteirizada por Trevor Markwart, Carl Bessai e Doug Tyalor, mas quem espera o terrorzão que o título nacional vende deve se decepcionar, ainda que ele faça alusão ao pano de fundo do filme. Durante o Senwun, o período de celebração aos mortos, existe o ritual de oferendas com o objetivo de desejar a paz dos espíritos de entes queridos e afastar as almas inquietas que se aproveitam para vagarem e atormentarem o mundo dos vivos. É uma pena que o diretor não se aprofunde nessa questão cultural e insista em tentar assustar requentando clichês, o que acaba deixando sua obra emperrada. Apesar do bom argumento e do final coerente e satisfatório (imagine uma pessoa regurgitando ossos humanos!), parece que o filme se estende além do necessário para no final das contas se resumir a velha história do desencarnado em busca de justiça para alcançar a paz eterna. Coitado de quem é escolhido para ajudar nessa missão. O Chamado, O Grito, Imagens do Além... A lista de filmes que repetem o tema é gigantesca e assim, inevitavelmente, o trabalho de Barbarash já nasceu condenado ao limbo cinematográfico, ainda que não mereça a total ignorância do público. 

Suspense - 99 min - 2007

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