quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A CRECHE DO PAPAI

NOTA 6,0

Investindo em piadas previsíveis
e deixando o elenco infantil a
vontade, comédia é rara opção para
família toda sem constranger
A vida moderna exige que homens e mulheres cada vez mais abandonem o desejo de formar famílias, preferindo a liberdade da solteirice ou no máximo a confiança que deve ser compartilhada em uma relação a dois. Agora quando entre um terceiro e pequeno elemento nessa união as coisas complicam. Um casal pode ser feliz só se encontrando a noite e/ou fins de semana, mas os filhos não podem ser prejudicados pela ausência dos pais devido a compromissos de trabalho ou com estudos. É um verdadeiro dilema. A solução nesses casos é colocar as crianças em escolas ou creches onde seriam cuidadas por profissionais especializados e ainda vivenciariam atividades educativas e recreativas, além de tomarem contato com outras pessoas da mesma idade aprendendo no dia-a-dia noções de educação, disciplina e tolerância. Parece perfeito, isso se os pimpolhos não forem matriculados em uma instituição amadora como a que serve de cenário para A Creche do Papai. Bem, pelo menos inicialmente o local não é nenhum exemplo arrebatador, servindo mesmo apenas aos pais desesperados que veem o lugar como última solução. A trama roteirizada por Geoff Rodkey mostra como dois homens com carreiras promissoras se viram de uma hora para a outra numa pior, mas deram a volta por cima aos trancos e barrancos. Charlie (Eddie Murphy) e Phil (Jeff Garlin) trabalhavam na área de publicidade de uma grande empresa alimentícia e tinham pouco tempo para passar com seus filhos, mas após falharem em uma campanha para divulgar um cereal à base de vegetais os dois são demitidos. Agora, enquanto suas esposas saem para trabalhar, eles são obrigados a cuidarem de suas crianças, mas não levam o menor jeito para a coisa. Eles decidem colocá-los em uma creche para poderem se dedicar a busca de um novo emprego, mas na região em que vivem a única disponível é a metódica e rígida instituição Chapman Academy comandada com punhos de ferro pela Srta. Gwyneth Harridan (Anjelica Huston). O modelo de educação opressor é dos males o menor. O preço é o real problema. Cada mês equivale ao pagamento de um ano de uma creche comum. O jeito então é os pais se virarem como podem, embora Ben (Khamani Griffin), filho de Charlie, seja até bastante quietinho, contentando-se com as inúmeras vezes que seu pai brinca com ele de “foguetinho”, ingenuamente acreditando estar cuidando bem do garoto.

Os dias passam e Charlie está convencido de que está se saindo bem nas funções de babá tanto quanto o desajeitado e gordinho Phil. Se eles estão dando conta de uma criança cada, que mal faria se eles se unissem para cuidar de mais umas oito ou dez se isso gerasse algum tipo de lucro? E é com esse avoado pensamento que eles decidem abrir a tal “Creche do Papai” e rapidamente preparam alguns panfletos para distribuir na região, afinal de contas o essencial para cuidar dos pequenos eles já tinham em casa: doces e brinquedos. Muitos pais se decepcionam ao descobrirem que são homens que cuidarão das crianças, mas outros não dão a mínima e deixam claro que qualquer um que ficar com seus anjinhos por algumas horas estarão lhes fazendo um favor e tanto. O dia-a-dia mostra que as coisas não são fáceis como pareciam. Cada criança tem uma personalidade diferente e choros, brigas e muita bagunça esperam pela dupla responsável pela creche a cada novo nascer do Sol, isso sem falar nos imprevistos envolvendo necessárias e urgentes idas ao banheiro (comendo tanto besteira já dá para imaginar a piada clichê que vem por aí). Contudo, a liberdade que eles dão aos pequenos cativa a todos eles que certamente elogiam a instituição aos pais e estes tratam de fazer um boca-a-boca favorável, de modo que logo o número de pimpolhos matriculados passa a aumentar significativamente, inclusive levando alunos da Chapman Academy trocarem de escola. Ao ver suas salas de aula quase entregues às moscas, a Srta. Harridan resolve tomar providências, mesmo que precise lançar mão de meios ilegais para acabar com a concorrência assim como fez no passado com outras pedras em seu caminho. Enquanto isso, a casa de Charlie é o paraíso dos menores indisciplinados, não parecendo existir limites para a diversão. É óbvio que para atender seu público-alvo esta comédia investe na zoeira da gurizada, no jeito naturalmente patético de Garlin e nas caretas e espontaneidade de Murphy, este beneficiado pela direção de Steve Carr com quem já havia trabalhado em Dr. Dolittle 2. Aliás, o projeto parece ter sido idealizado exclusivamente para o ator que na época estava com a carreira em crise. Outrora garantia de sucesso para tudo que levasse seu nome, ele acumulava no início dos anos 2000 como único trabalho relevante a dublagem do personagem Burro de Shrek e suas continuações. Contudo, o humor de seu parceiro se sobressai neste caso.

Com esta comédia que marcou a volta de Murphy às grandes bilheterias, também ressurgiu a esperança de que um humor mais recatado e familiar ainda tinha espaço. Apesar de piadas fáceis, previsíveis e algumas escatológicas, tudo é aceito com maior facilidade por estarmos diante da inocência infantil. A maioria das situações de humor, que vão desde imaginar-se sendo um famoso super-herói a realizar literalmente uma merda no banheiro, passam pelo crivo dos adultos que compreendem que as ações são feitas para entreter e se comunicar com o público infantil, pessoas que assim como as estrelinhas da fita ainda não tem o discernimento do que é certo e errado, mas isso não quer dizer que os maiores de idade não vão se divertir, podendo inclusive lembrar-se vagamente de clássicos antigos estilo sessão da tarde como Um Tira no Jardim de Infância no qual o grandalhão Arnold Schwarzenegger tenta domar um turminha endiabrada. Em meio a tanta algazarra, tendo obviamente seu ápice em meio a um dia ensolarado no parque, situação providencial para a vilã da trama dar o bote final, é alinhavado paralelamente um entrecho mais dramático envolvendo a união de Charlie e Phil a seus filhos, mas o ponto forte acaba sendo a entrada de um terceiro funcionário na creche. Um fiscal faz uma vista surpresa para avaliar as instalações e o trabalho dos papais e diz que pelo número de matriculados um outro cuidador seria necessário. Coincidentemente neste dia eles recebem a visita de Marvin (Steve Zahn), um amigo da dupla que parece ter a mentalidade e o espírito infantil aflorado, e imediatamente ele é nomeado para trabalhar, diga-se de passagem, quem realmente fará as vezes de educador talvez sem perceber. Com referências à cultura pop e humor sadio que pouco afronta a inteligência do espectador (isso se ele levar de boas a produção sem deixar o seu lado crítico falar mais alto), A Creche do Papai é um exemplo raro neste início de século de comédia que pode ser vista em família sem pudores, um trabalho simplório, mas agradável, eficiente e que dentro da irregular filmografia de Murphy é quase um tesouro. A conclusão feliz já é conhecida de antemão, mas o grande senão da obra é o destino dado a personagem da talentosa Anjelica Huston, uma cena improvável para uma atriz de seu porte. 

Comédia - 93 min - 2002

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