terça-feira, 7 de janeiro de 2014

MATADORES DE VELHINHA

NOTA 8,5

Irmãos Coen investem em uma
refilmagem com mescla de humor
negro e pastelão, criando uma obra que
dialoga melhor com diferentes públicos
Os filmes dos irmãos Ethan e Joel Coen costumam gozar de prestígio entre a crítica e o público e seus fãs aguardam ansiosos cada novo lançamento. Todavia, alguns de seus trabalhos acabaram passando em brancas nuvens, não repercutindo como deveriam como é o caso da comédia de humor negro Matadores de Velhinha, o primeiro trabalho não original da dupla. Neste caso eles optaram por readaptar um filme inglês datado de 1955 que no Brasil foi lançado com o título O Quinteto da Morte. Apesar da alcunha sinistra, a obra era uma comédia protagonizada pelos famosos Alec Guiness e um então desconhecido Peter Sellers, que mais a frente faria sucesso em A Pantera Cor-de-Rosa. O batismo da nova versão veio a calhar e vende melhor o conteúdo do filme, uma comédia divertida e com momentos sinistros, mas que infelizmente é considerada um dos trabalhos mais fracos dos Coen, talvez porque seja a obra mais assimilável que realizaram. A premissa é bastante básica e propõe situações previsíveis, o que pode agradar pessoas que ficaram boiando ao assistir outros filmes dos irmãos, geralmente cheio de críticas e significados implícitos. Não que eles abandonem suas características cinematográficas aqui, mas elas estão mais comedidas que de costume. Tom Hanks dá vida ao professor Goldthwait Higginson Dorr, um homem bem apessoado, culto e também um assaltante. Isso mesmo. Por trás do verniz de boa pessoa existe um ambicioso criminoso, mas que evita ao máximo recorrer a violência para conquistar seus objetivos. No momento ele tem arquitetado um plano para roubar o dinheiro da caixa-forte de um barco-cassino, mas para colocar a ação em prática precisa recrutar alguns cúmplices e escolher um local onde possa escavar um túnel e invadir o antro de jogatina sem ser percebido. O porão da senhora Marva Munson (Irma P. Hall) é escolhido para ser a porta de entrada para a busca do dinheiro que fica armazenado em um escritório subterrâneo próximo a área onde o barco está atracado. Esta idosa muito religiosa vive em uma isolada e simpática casa à beira do rio Mississipi e não estranha quando o professor bate à sua porta querendo alugar um quarto. Certamente ficou tocada ao saber que ele deseja se reunir com certa frequência com um grupo de colegas músicos para ensaiarem canções religiosas no porão do lugar.

Parecia que o plano não tinha chance alguma de sofrer com empecilhos, mas é justamente a inocente e bondosa velhinha que vai tratar de atrapalhar tudo involuntariamente. Irma P. Hall encarna uma personagem parecida com tantas outras que já vimos em produções com elenco predominantemente negro. De raízes interioranas, ela tem jeito de matrona, vai frequentemente à igreja, preza pelos bons costumes e embora pareça desligada ela no fundo demonstra ser mais esperta que todo o conjunto de quinteto de ladrões ou então a sorte é sua grande companheira. Pode parecer uma criação estereotipada, porém, é totalmente crível e cativante, literalmente enche a tela com sua presença. Hanks também se sai bem no campo do humor, diga-se de passagem, no qual o vemos com pouca frequência, aproveitando-se de seu visual fake composto de terno bege, gravata borboleta, topete, bigodinho, barbicha e até próteses dentárias, fora a escolha de um sotaque sulista peculiar e um vocabulário rebuscado, tudo para criar um personagem propositalmente caricatural, ao mesmo tempo antiquado e amedrontador. E quanto a quadrilha de assaltantes, eles passam longe do estereótipo de criminosos astutos e inteligentes, são apenas ladrões que poderiam se complicar até mesmo para roubar um pirulito de uma criança. Sonham com os milhões do cassino, mas certamente perderiam tudo em pouco tempo e logo estariam as voltas com um novo plano para faturarem alto. O bando é formado por tipos curiosos, cada qual com características e habilidades bem definidas atendendo as exigências de um anúncio que Dorr colocou em um jornal, tendo em comum apenas o fato de serem incompetentes para o crime, mas obviamente nenhum deles reconhece a sua inabilidade para a coisa. De especialista em explosivos a um ex-general vietnamita que diz saber tudo sobre escavações de túneis, quem se destaca é Marlon Wayans, o negro franzino que praticamente se tornou sinônimo do filme Todo Mundo em Pânico. Sua interpretação como Gawain consegue ser saudavelmente irritante com suas falas cheias de gírias e expressões de malandro de rua, coisas que irritam a Sra. Munson que não pensa duas vezes antes de lhe dar uns cascudos por tal comportamento. Ela odeia o estilo “hippity-hop”. Já o personagem de Tzi Ma, o tal general de cara sisuda, provoca risos com seu bizarro hábito de esconder cigarros acesos dentro da boca com a ajuda da língua. Os Coen escreveram divertidas cenas para apresentar os bandidos apostando na comédia besteirol, ainda que tenham evitado criar conflitos entre eles no primeiro encontro de todo o grupo, mas o texto não pende para esse lado anárquico e segue uma linha de humor mais refinado. Tudo bem, eles lançam mãos de clichês manjados para causar riso fácil como o problema intestinal que teima em aparecer na hora errada ou o brucutu que assusta com sua musculatura avantajada, mas causa pena com sua cara de bocó, todavia, não chegam comprometer no conjunto.

Por diversas vezes os cineastas, que então assinavam oficialmente pela primeira vez a direção além da habitual parceria nos créditos de roteiristas, reforçam as características dos personagens sem medo de repetir piadas afinal de contas por várias vezes os bandidos terão que se apressar para sumirem com ferramentas, apagar cigarros, enxugar o suor e se alinharem e tomarem em suas mãos instrumentos musicais. É que a Sra. Munson, como exímia apreciadora de boa música, constantemente aparece de surpresa no porão da casa e acaba atrapalhando o “ensaio” da banda. À medida que a idosa passa a incomodar, um plano B é preciso ser colocado em prática e a roliça cabeça da religiosa fica em jogo. Se já são atrapalhados para fazer coisa errada na surdina, imagine o que não acontece quando os malandros tentam se livrar da velha sem deixar rastros. A sequência de tentativas frustradas é hilária. Exibido em competição no Festival de Cannes, o que só ajudou a aumentar as expectativas em torno da fita, Matadores de Velhinhas infelizmente foi menosprezado pela crítica especializada e consequentemente o público foi contagiado, mas assim como outras obras dos Coen que foram recebidas friamente quando lançadas e hoje gozam de prestígio por estarem inseridas praticamente no catálogo de uma grife cinematográfica, este trabalho merece ser descoberto. É óbvio que não se deve compará-lo aos premiados Fargo ou Onde os Fracos Não têm Vez, mas também é errado dizer que destoa no currículo da dupla, sendo possível encontrar semelhanças entre esta obra e a comédia E Aí Meu Irmão, Cadê Você?, ambas caracterizadas por a narrativa ser desenvolvida em uma ambientação bucólica, fotografia que privilegia tons ensolarados e a importância da trilha sonora resgatando um gênero musical, no caso as canções gospel. É interessante que com exceção das cenas em que conhecemos os criminosos recrutados por Dorr, todo o restante do longa nos passa a ideia de estarmos acompanhando uma trama de época, tipo dos anos 50, muito graças a direção de arte que caprichou nos cenários principais para dar aquele toque de casa de vovó de antigamente e também pelos figurinos trajados e os diálogos travados entre o protagonista e a idosa. Com tanta comédia idiota na praça, esta produção facilmente ganha status de cult.

Comédia - 104 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

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