terça-feira, 14 de janeiro de 2014

MEU NAMORADO É UM ZUMBI

NOTA 7,0

Comédia com pitadas de crítica
social e romance apresenta um
novo perfil de mortos-vivos,
criatura pensantes e sentimentais
Depois que a saga Crepúsculo tratou de desvincular a imagem de vampiros e lobisomens exclusivamente ao gênero terror, agora chegou a vez dos mortos-vivos invadirem outras categorias. Com a repercussão da franquia cinematográfica baseada nos livros de Stephenie Meyer, os estúdios de cinema começaram a correr contra o tempo para encontrarem outros roteiros com temáticas parecidas (junção de romance teen com figuras medonhas) e nada melhor que um livro de sucesso para atender as expectativas de uma produção feita a toque de caixa para aproveitar uma onda positiva, afinal a história já está pronta, basta alguns retoques de adaptação. Meu Namorado é um Zumbi é baseado na obra “Sangue Quente”, de Isaac Marion, todavia, a relação dos vivo com os mortos já foi tratada pelo cinema fora do campo de horror, como nas comédias Todo Mundo Quase Morto e Zumbilândia, mas o que deve ter chamado a atenção do diretor Jonathan Levine no projeto é que não era simplesmente apostar em um elemento estranho adicionado ao humor, mas também somá-lo a uma veia romântica, uma mistura improvável que no final das contas dá certo, isso se você não esperar nada mais que uma opção descompromissada. A trama se passa em um cenário pós-apocalíptico, quando os poucos humanos que sobreviveram refugiam-se em uma cidade isolada por um grande muro. Liderados pelo general punhos de ferro Grigio (John Malkovich), o grupo realiza diversas missões, armados até os dentes, fora dos limites da área segura para conseguirem o necessário para sobreviverem. Os mortos-vivos são os vilões da história, no entanto, eles próprios não se veem como uma ameaça. Um dos que mais sofre com essa crise existencial é o jovem R. (Nicholas Hoult), responsável por narrar a história sob seu ponto de vista. Ele passa os dias de forma introspectiva vagando por um aeroporto abandonado nos arredores da tal cidade protegida. Quando a fome bate, ele reluta contra seus próprios ideais e precisa ir a caça de algum humano incauto para comer seu cérebro. O problema é que a ingestão desta iguaria também os alimenta com as memórias e sentimentos das vítimas. Certo dia, R. ataca Perry (Dave Franco), namorado de Julie (Teresa Palmer), e imediatamente o amor do rapaz recém-falecido é transmitido para o jovem zumbi que trata de salvar a garota do ataque de outros companheiros esfomeados e a leva para viver com ele dentro de um velho avião.

R. não consegue domar seus sentimentos e tenta iniciar um romance com Julie. Apesar das dificuldades para se expressar típicas dos zumbis (ou a forma que o cinema nos ensinou a enxergá-los, ainda que na narração tal defeito suma), o rapaz até que tem uma aparência bem conservada para sua condição, mas convenhamos que é bem difícil para uma garota em seu juízo perfeito se apaixonar por alguém que matou seu ex. Seria o mesmo que ceder a paixão por um assassino frio. Todavia, na base da amizade, quanto mais o romântico ser do além se aproxima de Julie ele passa a conseguir recuperar sua humanidade, um fenômeno inexplicável que ameaça abalar as estruturas já fatigadas do mundo maluco e predador em que vivem, pois o mesmo poderia vir a acontecer com outros da ameaçadora espécie. Voltando aos poucos à sua condição humana, mas sem saber se a reversão do quadro seria definitiva e o devolveria ao convívio entre os vivos, R. se anima e passa a ter perspectivas de que seu amor por Julie poderá ser plenamente usufruído, no entanto, existe um outro problema no caminho deles. Ela é filha de ninguém menos que o Coronel Grigio que pouco está interessado se existe a possibilidade dos mortos virem a viver em harmonia com os vivos. Motivado pelo ódio que guarda pela perda da esposa, o que ele quer é a extinção deles por completo o mais rápido possível. Quando a moça decide voltar para casa, o casal terá também que enfrentar a fúria dos “esqueletos”, estes sim zumbis do mal que perderam qualquer resquício de sentimento ou intelectualidade e que comem qualquer coisa que se mova, inclusive praticando canibalismo entre eles mesmos. Levine, que assina a direção e o roteiro, usa mais uma vez o humor para falar sobre vida e morte, ainda que seu trabalho anterior, o drama 50%, priorize o realismo e seja superior por ser um dos poucos filmes a abordar o tema câncer sem deixar o espectador depressivo. É muito bom ver como um profissional consegue transitar com desenvoltura entre o intimismo e o anárquico e já que era para se divertir, o cineasta aproveitou a chance com tudo que tinha direito. O início tem um tom de metáfora. A narração em off do protagonista serve para situar o espectador e melhor expor o conflito do rapaz que não se conforma em ter que viver por toda a eternidade vagando sem rumo e devorando pessoas, provavelmente uma alusão ao sentimento nutrido pelos adolescentes da vida real que em sua maioria se sentem insatisfeitos com a realidade condicionada que lhes é imposta, afinal quem já passou ou esta vivenciando a idade dos 17 ou 18 anos sabe o quanto é duro, por exemplo, decidir tão precocemente seu futuro profissional, uma escolha que tomada errada pode estagnar ou atrasar planos. Caso decida pensar na faculdade ou em trabalho mais para frente, automaticamente é apontado pela hipócrita sociedade como um zero a esquerda, um perdedor.

Levine também aborda o saudosismo, a importância das memórias afetivas através da inserção da cultura pop à narrativa. Um dos pontos que fazem Julie e R. se aproximarem é o gosto musical de ambos. Juntos exploram com animação e devoção a coleção de discos de vinil do adolescente repleta de tesouros do passado, assim a trilha sonora com muitas baladinhas melódicas e nostálgicas é um atrativo a parte e serve como mais um ponto de identificação do público com os personagens. É interessante que ao mesmo tempo em que busca modernizar o mito dos zumbis, o cineasta também propõe a preservação do tradicional em alguns aspectos, como no caso da predileção do som do vinil, por vezes ruidoso, à perfeição oferecida pelas músicas digitais, ainda que a arcaica forma de escutar músicas pareça estar dando sinais de recuperação (seria mais uma metáfora visionária do filme?). Obviamente, também temos referências cinematográficas. R. lembra o protagonista da animação Wall-E. Tal qual o solitário robozinho, o jovem adora colecionar coisas que julga serem importantes, talvez uma forma de construir um passado para si mesmo, visto que depois de morto suas memórias conquistadas em vida foram completamente apagadas de sua mente, até mesmo seu nome. Apesar de aparentemente beber na fonte de George A. Romero, diretor de Terra dos Mortos e tantos outros filmes de mortos-vivos, Levine tomou algumas liberdades na construção dos perfis das criaturas como forma de injetar humor como, por exemplo, o fato dos mortos continuarem a realizar tarefas que estavam acostumados quando estavam vivos, claro que de modo muito mais lento e desorientado. O visual em decomposição costumeiro também foi substituído por palidez e alguns poucos hematomas, cicatrizes ou veias saltadas, além do fato de manterem a capacidade de raciocínio e sentimentalismo. A exceção são os tais “esqueletos” que mantêm o perfil clássico de zumbi por já estarem em um estágio máximo de loucura da condição, sendo movidos apenas pelo instinto da caça para a sobrevivência. Da arte de Romero, também é preservado o clima desolador com predominância de tons acinzentados e tomadas panorâmicas que captam as ruas sujas e depredadas. Meu Namorado é um Zumbi poderia ser visto como um legítimo filme B, mas em tempos em que brincar com o óbvio está em alta a produção ganha valor dobrado, ainda mais por não se levar a sério demais, não querendo ser um romance revolucionário e tampouco uma fita de horror que quebra convenções, esquivando-se também de críticas ferrenhas à atualidade, apesar da insatisfação do protagonista com a sociedade que é obrigado a conviver. Hoult é a grande atração. O recurso do próprio R. narrar a trama, em contraponto a seu monossilábico comportamento nos diálogos, estabelece uma eficiente ligação com o espectador e casa bem com suas hilárias expressões faciais. Deixando juras de amor e frases melosas de lado, esta é uma opção que agrada a diversos públicos e deve fazer a alegria até mesmo dos aficionados pelas tradicionais fitas de zumbi que podem se divertir caçando referências e brincadeira com os clichês do subgênero.

Comédia - 97 min - 2013 

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