quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O ANO DA FÚRIA

NOTA 8,0

Misturando ficção e realidade,
suspense político prende atenção
com narrativa coesa, envolvente e que
encontra vínculos com a atualidade
Infelizmente temos a cultura de só dar atenção a filmes lançamentos e recorrer a antigos apenas por alguma indicação ou quando precisamos realizar trabalhos escolares ou empresariais e ainda assim a maioria assiste com ressalvas, apenas por obrigação. Bem, vendo por esse lado, O Ano da Fúria seria um título obrigatório para qualquer estudante ou trabalhador da área jornalística, no entanto, sua trama é razoavelmente interessante para agradar espectadores fora deste nicho mesmo sendo uma produção de 1991. O duro é alguém despretensiosamente topar ver um trabalho de Sharon Stone dos tempos em que ela ainda nem tinha dado sua famosa cruzada de pernas em Instinto Selvagem. Sim o filme é velho, mas muito bom. Um jornalista pode se envolver com o assunto de seu trabalho a ponto de interferir nos fatos? Vale a pena se arriscar para ter a matéria de sua vida? É melhor esconder a verdade para não comprar briga com gente influente? Estas são algumas questões que o roteiro de David Ambrose tenta responder com exemplos práticos e inspirados em eventos reais acontecidos a partir de janeiro de 1978, ano em que a Itália estava um verdadeiro caos devido aos intensos e violentos conflitos travados contra o governo, o que justifica o título. Baseado no romance de Michael Mewshaw, este suspense segue os passos de David Raybourne (Andrew McCarthy), jornalista norte-americano que está voltando a Roma para trabalhar no jornal de língua inglesa dirigido por Pierre Bernier (George Murcell), uma suposta conexão da CIA na cidade. Todos que trabalham na publicação são estrangeiros que atuam clandestinamente no país, mas os interesses do repórter vão além de notícias cotidianas. O rapaz deseja escrever um livro inspirado nos atentados terroristas organizados pelas Brigadas Vermelhas, grupo que se infiltrava em ambientes universitários incitando a revolta de estudantes e até de alguns professores com o objetivo de destronar os governantes da época e tomar o poder italiano. Certo do sucesso que sua obra seria, ele sonha com o dia que poderá se casar com Lia Spinelli (Valeria Golino), uma moça que ele conheceu em sua temporada anterior na Itália. Com um filho pequeno, ela não pode abandonar o país diante das ameaças do ex-marido que parece saber algum segredo seu, mas esse gancho a respeito de Lia acaba sendo esquecido quando outra personagem feminina forte entra na trama.

Em uma festa na casa de seu chefe, Raybourne conhece a fotojornalista Alison King (Stone), uma profissional ousada e corajosa que está em Roma para fazer uma cobertura da situação problemática e assustadora deflagrada pelas ações das Brigadas. Após colocar sua vida em risco para cobrir um assalto a banco, suas fotos acabam sendo publicadas em uma famosa publicação americana e ela se torna alvo de facções criminosas italianas afinal não mede esforços para penetrar nos conflitos e conseguir as melhores e mais impactantes imagens possíveis. Em muitos momentos de dificuldades Raybourne acaba ajudando a moça a se safar e pouco a pouco eles passam a se sentir envolvidos amorosamente. Bem, algum sentimento do tipo pode até ser que surja futuramente, mas em um primeiro momento Alison tenta seduzir o jornalista por interesses profissionais. Além de prestar atenção em seus comentários a respeito dos conflitos, a moça se lembra que o fotografou no passado quando foi taxado de revolucionário em uma manifestação, assim tem certeza que ele é tão interessado no momento político italiano quanto ela, tanto que se propõe a ilustrar seu livro, mas ele desconversa e diz que está redigindo apenas um diário de viagens. Na realidade sua obra será um romance que une fatos verídicos e ficcionais baseando-se nas especulações a respeito de um possível sequestro de uma importante figura do governo. Aliás, logo que chegou a Roma, outro homem respeitável da cidade já havia sido raptado e rapidamente morto e fatos assim estavam afastando famílias ricas e tradicionais do país, potenciais próximas vítimas. Para escrever seu livro, o jornalista recorre a pesquisas em jornais e a conversas com o amigo Italo Bianchi (John Pankow), um professor universitário simpatizante da causa defendida pelas Brigadas, porém, que deixa claro que não participa ativamente do movimento que ganhou forças num piscar de olhos graças ao destaque dado pela mídia aos seus atentados. Cada vez mais convencida de que Raybourne tem um trabalho secreto, mas na base da amizade não conseguindo persuadi-lo que poderia ajudar, Alison decide resolver seu problema levando o rapaz para cama, uma forma de poder bisbilhotar seu quarto. Suas intenções não eram de forma alguma prejudicá-lo, apenas o pressionar para deixá-la participar do projeto, mas sua insistência acabou os levando a trafegar por caminhos tortuosos. Sem perceber, em uma conversa informal, a fotógrafa revela sobre a existência do livro para uma pessoa ligada ao alto escalão das Brigadas que logo é encarregada a roubar os manuscritos.

O problema é que Raybourne não perdeu apenas o seu trabalho, mas também ficou na mira da facção criminosa irremediavelmente. Um único personagem é inventado, todos os outros são baseados em pessoas reais e suas funções no enredo fazem alusão as suas verdadeiras atividades, além de ser divulgado os planos de sequestro do tal político. Assim, o conteúdo do livro acaba interferindo diretamente nos acontecimentos posteriores da História italiana e no destino de várias pessoas, mas quando o autor toma ciência disso já é tarde demais o que o obriga a correr contra o tempo para tentar fugir do país junto com Alison que também fica marcada pelos terroristas como sua cúmplice. É nesse momento que Lia retorna à cena e o filme ganha sequências impactantes e reviravoltas que o elevam de patamar. O falecido diretor John Frankenheimer, adepto do thriller político como Sob o Domínio do Mal, estava há cerca de quinze anos colecionando produções medianas em seu currículo quando aceitou realizar O Ano da Fúria, certamente seduzido pelo conteúdo do roteiro que poderia gerar um suspense marcante. Bem, o filme não foi um sucesso passando batido como tantas outras fitas que prometiam se apoiar em clichês do gênero, no entanto, a obra se revela uma boa surpresa para aqueles que apreciam uma história bem contada. Tem uma cena longa de apelo sexual entre os protagonistas que poderia ser encurtada ou apenas sugestionada, mas no geral a fita mantém um ritmo relativamente lento e a violência, embora chocante, é adicionada nos momentos certos e em sequências totalmente justificáveis. É importante ressaltar que o gancho político não pretende dar uma aula sobre o tema, apenas expõe o necessário para ser compreendido por um amplo público e assim envolvê-lo com os dramas dos personagens invariavelmente ligados aos fatos do cotidiano da época. Curiosamente, essa essência ainda é bem atual. As manifestações populares que se tornaram tão frequentes no Brasil a partir de junho de 2013 trazem resquícios das motivações das Brigadas Vermelhas. O envolvimento de pessoas influentes em seus atos não foram comprovados, mas a revolta da população contra os abusos do governo a nível nacional lembram um pouco o que motivou os universitários italianos dos anos 70 a irem as ruas e em ambos os casos o destaque que a mídia deu a tais ações acabou  fazendo com que a maior parte dos manifestantes perdessem o foco e as reivindicações abrissem espaço para a baderna e o vandalismo. Fora isso, os personagens Raybourne e Alison, seja por levar a profissão a sério ou puro objetivo de enriquecimento e fama, retratam os sonhos daqueles que decidem atuar no jornalismo, a vontade de levar adiante o compromisso com a verdade, uma bela ideologia, mas difícil de ser sustentada. 

Suspense - 111 min - 1991 - Dê sua opinião abaixo.

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