sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O SACRIFÍCIO (2006)

NOTA 5,0

Refilmagem de suspense dos
anos 70 peca por entregar todo
o enredo em poucos minutos e
ser um amontoado de clichês
Nicolas Cage construiu um nome no mundo do cinema com tropeços e acertos, mas parece que os primeiros anos do século 21 não têm sido generosos com o ator que passou a colecionar fracassos. Pelo menos ele pode se dar por satisfeito de não chegar ao patamar de Adam Sandler, um recordista de indicações e prêmios do Framboesa de Ouro, lembrancinha para os piores do cinema. Fale bem ou fale mal, o fato é que enquanto o comediante ainda faz fortunas com seus filmes, por piores que eles sejam, o ex-astro do tipo pau para toda obra não emplaca mais nenhuma produção e os poucos que o assistem parecem já estar predispostos a falar mal de suas atuações seja em drama, comédia, romance ou qualquer outro gênero.  Está certo que O Sacrifício é um trabalho irregular, mas a má fama que Cage atrai contribuiu para que o longa fosse massacrado por público e crítica, mas será que alguém parou para refletir que existem produções bem piores para serem achincalhadas? As raízes do projeto demonstram que ao menos ele não foi realizado como um simples caça-níquel. Este suspense é uma refilmagem de O Homem de Palha, longa inglês dirigido por Robin Hardy lançado em 1973, um dos filmes prediletos do lendário Christopher Lee, ator que praticamente é sinônimo de cinema de horror. O longa não é dos mais famosos do estilo, mas é cultuado por uma grande legião de fãs, além de ter um conteúdo relevante por trás dos sustos. Pensando em suavizar o teor sexual da obra original e adicionar mais sustos, mudanças no remake foram necessárias e justamente elas tornaram a produção de Neil LaBute um mero passatempo que só não é totalmente esquecível por conta de seu final que, embora seja fiel a seu antecessor, é atípico para os padrões hollywoodianos. Contudo não espere sustos sobrenaturais e trama acelerada. A narrativa, apesar de algumas situações dispensáveis, é propositalmente lenta para envolver o espectador que apesar de não encontrar surpresas de certa forma se sente atraído a acompanhar a história até o final, seja para tecer um mínimo elogio ou para juntar mais detalhes que justifiquem suas críticas negativas. Baseado no roteiro original de Anthony Shaffer, o diretor reescreveu praticamente toda a história de Edward Malus (Cage), policial que faz rondas em estradas e que fica arrasado ao ver uma mãe e sua filha morrerem carbonizadas em um acidente sem chances de salvá-las. Essa introdução é uma das liberdades da atualização do texto, diretamente não acrescenta nada à trama, mas talvez a culpa que o protagonista carrega o impulsione a aceitar um desafio. Decidido a se afastar do trabalho por um tempo, ele volta à ativa, mais especificamente como uma espécie de investigador, após receber uma carta de uma antiga namorada, Willow (Kate Beahan), que diz que sua filha pequena Rowan (Erika Shaye Gair) está desaparecida e que só ele poderia ajudá-la.

Malus parte para Summersisle, longínqua ilha da costa do Maine, nos EUA, para reencontrar a grande paixão da sua vida, uma mulher que surgiu inesperadamente e o abandonou da mesma forma. Detalhe, a carta não tinha sinais de ter sido enviada pelo correio. Um pedido de socorro praticamente entregue em mãos, mesmo oriundo de um lugar distante, somado ao equivocado e explícito título nacional (a versão americana manteve o original), quem ainda teria dúvidas de que o policial está prestes a cair em uma armadilha? Com a charada matada em cerca de quinze minutos de projeção, não há muito que se esperar desta produção, mas LaBute ainda se esforça para tentar prender a atenção do espectador investindo no clima de mistério da tal ilha. Praticamente como uma sociedade e uma região paradas no tempo, Summersisle tem uma grande população de mulheres que se vestem e cultuam hábitos como camponesas de séculos atrás, os homens são em pouca quantidade e parecem submissos e o local é fechado a visitas, sendo que Malus faz valer a autoridade de sua profissão para adentrar no vilarejo que chama a atenção por suas construções idílicas e linguajar antiquado de seus habitantes. A cada pessoa que cruza o seu caminho o policial tenta descobrir alguma pista sobre o desaparecimento de Rowan, mas ninguém sabe de nada. Ou será que não querem falar? É até ensaiada a possibilidade de que Willow estaria louca e imaginando ter uma filha, mas todos os elementos narrativos e visuais denunciam a fragilidade do argumento e apontam para uma só explicação: Malus foi atraído para este remoto lugar, mesmo que a primeira vista a comunidade se mostre avessa a presença de estranhos. Desprovido de elementos surpresas, é natural que a trama se torne enfadonha e sem atrativos ao espectador que não consegue nem mesmo criar vínculos com os personagens, tampouco se envolver com a trama principal, afinal está claro que o protagonista está sendo feito de bobo. Só ele não percebe, talvez por ainda nutrir alguma esperança de poder reatar laços afetivos com seu antigo amor e a solução do caso do desaparecimento ajudaria bastante. Para fanáticos pelo gênero, também não deve surpreender os motivos deste homem ter sido aliciado, basta saber que os habitantes da ilha cultuam uma religião pagã e tem como forma de sobrevivência a agricultura. Para uma boa colheita é preciso... Ah, você já sabe! Apesar da previsibilidade, com a trama agregando elementos que remetem a Colheita Maldita e A Vila, por exemplo, LaBute compensa com a construção de uma atmosfera desolada na qual se destacam as belas imagens da natureza que evidenciam a reclusão da ilha e a fotografia e a direção de arte em tons ocres e amarelados que acentuam a sensação de estar em um lugar guiado por regras e conceitos ultrapassados.

O longa original tinha como protagonista um cristão fervoroso que ficava abismado com o modo de vida dos habitantes da região, um lugar perdido na Escócia, que seguiam uma seita que tinha como o líder o citado Lee que com suas expressões sérias e voz impactante pregava a liberação sexual, uma temática polêmica para os anos 70. A fim de conseguir uma censura mais branda para seu trabalho, e consequentemente ampliar seus lucros, LaBute eliminou por completo os rituais encenados por Hardy, praticamente orgias em que mulheres nuas e submissas dançavam músicas medievais, e procurou investir em um conteúdo mais familiar, porém, talvez sem perceber, acabou com um emaranhado de clichês nas mãos que trabalham contra o filme. A atualização do texto é extremamente feminista, retratando uma sociedade matriarcal onde as mulheres costumam se chamar de irmãs e tem como líder Summerisle (Ellen Burstyn) que a certa altura revela os fundamentos desse mundo a parte, uma espécie de refúgio que seus antepassados criaram para proteger as novas gerações dos podres da modernidade, de tudo aquilo que corrompe o ser humano, o que explica a sensação de viverem em um local bucólico e cultivarem hábitos medievais. Adeptos da apicultura, outra atividade bastante comum por lá, o grupo se organiza como as abelhas, sendo que os machos não passam de meros reprodutores e trabalhadores, apenas as fêmeas tem poder de tomar decisões. Summerisle atua como guia política e espiritual das demais mulheres e é a responsável por organizar um tradicional ritual oferecido aos deuses que cultuam em troca dos pedidos de uma boa colheita. É interessante observar o contraste do protagonista nesta situação. Em seu lugar de origem, Malus tem uma profissão que reforça o caráter de superioridade do macho na sociedade, mas quando se depara com uma comunidade às avessas seu distintivo e seu terno escuro não implicam autoritarismo algum e o medo desta afronta o torna um homem vulnerável até que se torna fraco diante das ameaças. Se há alguma mensagem em O Sacrifício talvez seja justamente em relação a essa guerra dos sexos, o velho medo masculino das mulheres dominarem e suas funções sejam resumidas à procriação. Também serve para pela milésima vez cutucar os adeptos exagerados de crenças e religiões que acabam ficando cegos e surdos para o que acontece a sua volta, não percebendo a manipulação que sofrem, algo que fica bem claro pela personagem Honey (Leelee Sobieski), claramente uma ferrenha defensora dos costumes e ensinamentos atribuídos à Irmã Summerisle e seus ancestrais. No geral, a proposta em si tinha tudo para render um bom filme, mas o problema é a condução do roteiro que acaba arrancando mais risos ou roncos do espectador do que soluços de tensão. De qualquer forma, a conclusão pode ser um deleite para quem odeia Cage.

Suspense - 102 min - 2006

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