sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

PLATAFORMA DO MEDO

NOTA 6,5

Rápido, amedrontador, bizarro
e claustrofóbico, longa aposta em
situações clichês com eficiência,
mas evita piadas e personagens tolos
Dizem que para fazer cinema basta ter uma ideia na cabeça e uma câmera na mão e tal máxima acaba se confirmando quando analisamos o início das filmografias de alguns cineastas, mais especificamente o período em que ainda não eram corrompidos pela ganância dos grandes estúdios que tratam de recrutar as mentes brilhantes o quanto antes. Esse contraponto entre o antes e o depois do sucesso fica ainda mais evidente nos currículos de diretores apreciadores dos gêneros terror e suspense. A maior parte dos filmes de sucesso e emblemáticos dessas categorias nasceu da criatividade de profissionais desconhecidos e com poucos recursos financeiros, mas infelizmente nem todos os trabalhos do tipo chegam em grande estilo ao público em massa, ficando restritos aos aficionados por sangue e mutilação.  Esse é o caso de Plataforma do Medo, escrito e dirigido por Christopher Smith, que acabou se tornando apenas mais um título em uma extensa lista de produções que o tempo tratou de jogar areia em cima. Não é uma obra-prima, mas cumpre bem sua tarefa de amedrontar o espectador por cerca de uma hora e meia a começar pela premissa. Estamos acostumados com o agitado cotidiano das estações do metrô, mas como elas ficam altas horas da madrugada? Isso é o que vai descobrir Kate (Franka Potente), uma jovem londrina que gosta de curtir a vida sem medo de ser feliz e certa noite vai a uma festa onde bebe e se droga, sendo desafiada pelos amigos se ela teria coragem de invadir o quarto de hotel onde estaria hospedado o astro de Hollywood George Clooney (que lance forçado!). Quando vai pegar o metrô para tentar cumprir o desafio, ela se atrapalha para conseguir o dinheiro da passagem e acaba comprando o bilhete com atraso. Enquanto espera a próxima condução, ela acaba adormecendo e quando desperta percebe que todas as estações já foram fechadas e que ficou presa lá dentro tendo como única companhia alguns mendigos. Mesmo assim ela consegue pegar um último trem, totalmente vazio, mas que pára de repente e não no destino previsto. Para sua surpresa, ela encontra no vagão um conhecido que a seguiu desde a festa, Guy (Jeremy Sheffield), rapaz que nutria por ela uma paixão não correspondida. O encontro no início é um alívio para a moça, mas não demora muito para que o cara tente agarrá-la à força, mas eis que alguma coisa estranha surge e arrasta Guy para fora do veículo.

Kate começa a correr desesperadamente pelos corredores da estação fugindo de algo que não faz ideia do que seja, mas tudo é em vão porque não há uma única porta ou janela destrancada.  O jeito é torcer para que o tempo passe rápido e ficar atenta para que a tal criatura estranha não lhe surpreenda. Por um acaso ela acaba encontrando como companhia um cachorro vira-lata e um casal de mendigos com quem faz amizade, Jimmy (Paul Rattray) e Mandy (Kelly Scott). Já faz algum tempo que os cantos escuros da estação servem de moradia para eles, assim como para tantos outros que não tem casa ou são viciados em drogas, no entanto, eles perceberam que alguns moradores andaram sumindo misteriosamente nos últimos tempos. Quando Mandy desaparece e Guy reaparece muito ferido, Kate consegue fazer contato com um vigia (Morgan Jones) que fica monitorando as câmeras de segurança em uma sala secreta, mas ele não dá muita bola ao pedido de ajuda, pois está acostumado com as peças que os moradores noturnos do local tentam lhe pregar para conseguir assaltá-lo. Só quando vê o corpo ensanguentado de uma vítima é que ele decide levantar de sua confortável cadeira e empunhar sua arma, mas já é tarde demais. Ele é o mais novo alvo de Craig (Sean Harris), o Creep do título original, um psicopata esquelético e deformado que vive nos subterrâneos da plataforma do metrô e que adora capturar os frequentadores incautos que ficam dando sopa no período noturno ou nas partes mais escondidas e vazias da estação. Revelar que há um assassino vivendo no local não é estragar a surpresa do longa, afinal de contas parece que Smith não faz questão nenhuma de esconder o que há de podre dentro da intrigante plataforma a noite. Esse talvez seja o maior pecado da produção. Seria bem mais interessante se o diretor recorresse a cortes rápidos de edição que mostrassem a criatura de relance ou o bom e velho recurso da ótica de um personagem captando o que se passa com os outros, no caso o olhar do assassino registrando o pânico e a agonia de suas vítimas. Logo que Guy é capturado, embora não seja revelado visualmente, sabemos que existe um estranho ser habitando o subsolo, isso porque muitos outros filmes já investiram em temática semelhante. Seres que passaram por mutações ou sofrem com o aspecto bizarro de seus corpos e resolvem se esconder do mundo e se vingar daqueles que ousam invadir seu território são um prato cheio para o gênero. Como ele sobrevivia nesse submundo? De que forma conseguia realizar seus assassinatos sem que a polícia virasse a estação de metrô de cabeça para baixo em busca de pistas das pessoas sumidas? Esqueça os detalhes do tipo e embarque na bizarra viagem sem pensar no que faz ou não sentido.

A cena da primeira grande aparição de Craig, justamente quando ataca o vigia, é muito bem bolada e garante a atenção do espectador para o que vem a seguir. Se seu visual é revelado por completo pouco depois da metade do filme, resta conhecer como vive tal criatura e o que ela faz com suas vítimas. Smith propõe no fundo uma variação dos batidos filmes de seriais killers. Sem falar uma palavra sequer, o slasher da vez causa arrepios com seu aspecto grotesco e os gritos de raiva e de dor que solta como se fossem urros de animais. Sua origem e razões para matar não são esmiuçadas, mas fica subentendido que seus traumas do passado estão ligados com a medicina e a estética, visto que ele tem uma espécie de câmara de tortura com itens de consultório médico e ele próprio se comporta como um cirurgião na hora de mutilar corpos ainda com vida. Essas cenas finais garantem a satisfação do espectador pelo seu sadismo, mas o longa poderia ter um resultado final melhor se fossem dadas mais explicações sobre Craig. Produzido em parceria entre a Inglaterra e a Alemanha, Plataforma do Medo acaba sendo uma surpresa agradável por vários motivos, apesar da premissa clichê. Os adoradores de carnificina são premiados com cenas com requintes de crueldade em abundância, mas apresentadas de forma diferenciada, principalmente as que mostram as “operações” realizadas pelo assassino. Sem apelar para truques de câmera nervosa e efeitos sonoros pesados, quem assiste é convidado a saciar-se lentamente junto com Craig a cada novo ferimento que causa ou com os closes de vísceras e fetos hermeticamente acondicionados em potes de vidros que ele coleciona. Smith também nos poupa de personagens idiotas e piadinhas tolas inseridas fora de hora, além de caprichar no clima de claustrofobia mesmo com boa parte das cenas sendo iluminadas com fortes lâmpadas incandescentes, mas a sensação de solidão acentua o temor. A curta duração também é benéfica. Ciente de que sua história não poderia ir além do apresentado na versão final, o diretor não caiu na tentação de espichar a trama a fim de aproveitar ao máximo o valor do aluguel que foi pago para que uma estação abandonada do metrô de Londres servisse como cenários, optando por algo mais enxuto e sem firulas. Até as atuações que em produções do tipo costumam ser péssimas, neste caso está no limite do razoável, sendo que Sean Harris é quem se sai melhor. Pudera, ele é a estrela do show.

Terror - 85 min - 2004 

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