sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

CAPITÃO SKY E O MUNDO DE AMANHÃ

NOTA 7,0

Apostando no casamento de
uma narrativa nostálgica com
visual moderno, longa diverte,
mas sua trama tem defeitos
Já fazia algum tempo que os filmes de ação e aventura estavam dependentes da tecnologia para atrair público e cada vez mais deficientes de trama para se sustentarem, mas eis que o estreante diretor e roteirista Kerry Conran trouxe em 2004 uma proposta ousada e inovadora. Capitão Sky e o Mundo de Amanhã tem visual de videogame, mas enredo que homenageia o cinema de antigamente. O início do projeto foi extremamente pessoal e sem recursos financeiros, apenas apostando na criatividade. O cineasta levou aproximadamente quatro anos de trabalho para criar míseros seis minutos de filme, uma pequena introdução que realizou em um simples computador para apresentar o universo diferenciado desta aventura e então apresentar a produtores e correr atrás de financiamento para levar a ideia adiante no formato de longa-metragem. A surpresa é que quem resolveu comprar a ideia e bancar o filme como um dos produtores foi o ator Jude Law que também se prontificou a protagonizá-lo. Na realidade, o projeto não era tão ambicioso inicialmente. O diretor apenas queria melhorar o que já tinha em mãos e lançar como um curta, mas foi convencido de que seu trabalho, que mostrava gigantescos robôs atacando uma Nova York nostálgica, inspirava uma projeção mais apurada. Até pouco tempo antes deste lançamento, Conran era apenas um estudante de cinema que trabalhava fazendo programação de computadores. Fã de quadrinhos e séries de TV antigas, como passatempo ele bolou um roteiro que colava estas lembranças aliadas a uma colcha de retalhos visuais, uma mistura de diversas técnicas que iam desde o uso de simples fotografias, passando por reproduções de trechos de filmes até chegar à animação computadorizada. O resultado retrô-futurista acabou conquistando a confiança de investidores e um razoável orçamento foi liberado ao cineasta de primeira viagem para investir naquela que podia ser uma obra divisora de águas, mas que acabou não sendo um sucesso e abortou qualquer possibilidade de se tornar uma franquia duradoura. Antes de falar sobre tal frustração vamos ao enredo. Em Nova York no final dos anos 30, a jornalista Polly Perkins (Gwyneth Paltrow) recebe um objeto de um homem misterioso que está sendo perseguido. Ela então descobre que os cientistas mais famosos do mundo estão desaparecendo sem deixar pistas, mas todos coincidentemente envolvidos em um projeto secreto dos tempos da Primeira Guerra Mundial.

Simultaneamente a estes desaparecimentos, a cidade também está sendo invadida por um grupo de robôs gigantescos que roubam geradores de energia. Polly acredita que os dois eventos misteriosos estejam ligados e quer investigar a fundo para escrever uma grande matéria e para isso recorre a ajuda de um ex-namorado, o corajoso aviador Joe Sullivan (Law) que sempre é chamado pelas autoridades quando surgem casos extraordinários. Os dois ainda têm assuntos mal resolvidos e vivem trocando farpas e em meio ao fogo cruzado está Dex (Giovanni Ribisi), fiel ajudante do aventureiro, e para esquentar ainda mais os ânimos Franky Cook (Angelina Jolie), uma suposta ex-amante de Sullivan, ressurge. O grupo precisa encontrar um cientista inescrupuloso que está escondido em algum lugar do Nepal e planeja destruir o mundo. Tal vilão, o Dr. Totenkopf, é vivido surpreendemente por Laurence Olivier, astro da Era de Ouro de Hollywood que faleceu em 1989. Law tinha o sonho de atuar com este ator e deu a sugestão a Conran, afinal para uma produção com cenários 100% virtuais nada era impossível. Após autorização de familiares, foram selecionadas imagens de arquivos de Olivier e contratado um dublador com voz parecida e assim o famoso intérprete voltou à cena, ainda que somando poucos minutos devido as dificuldades. Talvez tivesse sido mais fácil recriá-lo como um personagem totalmente digital. Para não estragar a matinê, a atriz chinesa Bai Ling entra em cena como agente do vilão e tocando o terror como uma verdadeira máquina de matar. Para todos os atores envolvidos, este filme significou um exercício e tanto para se aperfeiçoarem na profissão. O recurso do chroma key, a técnica de filmar os atores em frente a fundos falsos (geralmente verdes ou azuis) que depois são apagados para serem inseridos cenários previamente gravados, já é um truque velho da sétima arte, mas aqui a diferença é que todas as ambientações já estavam prontas no computador quando os atores começaram a filmar suas cenas, assim só foram feitos alguns reajustes na pós-produção como retoques de iluminação e inserção ou retirada de alguns detalhes cênicos. Os atores podiam analisar as locações das cenas previamente no computador e assim ter uma noção melhor de como agir sem ter interações com objetos. O contato era apenas entre os próprios intérpretes e seus figurinos, mas nem todos os seus esforços conseguiram sobrepor os personagens à sedução da tecnologia. Infelizmente os perfis não causam a identificação esperada com o espectador, o que acaba comprometendo o andamento da narrativa.

Curiosamente, Conran não chegou a ir a Nova York durante o processo de filmagens, aliás, nunca visitou a cidade, preferindo se basear em fotos antigas da metrópole para ser o mais fiel possível ao estilo que predominava em 1939. O ano é identificado pelo fato de uma cena destacar que estava em cartaz em um cinema local o clássico O Mágico de Oz. Outras referências cinematográficas tornam esta experiência especial, como descobrir com um pouco de sorte a silhueta do gorilão de King Kong escalando um edifício, referência a uma das cenas mais clássicas do cinema, e o visual dos robôs gigantes lembram aos usados em Metrópolis, ícone do expressionismo alemão. Também é possível reconhecer o estilo de filmes noir, afinal algumas cenas chegam a um colorido quase em preto-e-branco, há muito uso de sombras e a trama principal no fundo é um suspense policial adornado por perseguições e firulas de ficção científica. A sensação agradável de nostalgia é intensificada pelo uso de um efeito esfumaçante nas cenas que parece dotar os personagens de uma espécie de aura iluminada, além de tentar disfarçar a colagem dos atores reais sobre os cenários virtuais. Capitão Sky e o Mundo de Amanhã era um projeto aguardado com grandes expectativas pelos profissionais de cinema, pois em tempos de crise ele trazia a novidade de se criar filmes sem a necessidade da construção de ambientações ou locações reais, o que barateia muito uma produção. Existia ainda a promessa do perfeito casamento entre o passado e o futuro, uma narrativa clássica, com direito a todos os clichês possíveis, mas oferecida com visual inovador e com liberdades artísticas por parte do diretor, como a criação de hologramas, algo impensável para a época da trama. Realmente Conran corresponde a tais expectativas, porém, o longa não foi o estouro esperado entre o público. Poderíamos culpar o fato de o protagonista ser um herói criado com referência a tantos outros, mas não ter saído realmente das páginas de um gibi ou de um seriado de TV, assim o Capitão Sullivan não poderia contar com uma platéia de espera tal qual o Batman ou o Homem-Aranha, por exemplo. Todavia, é perfeitamente possível se familiarizar com seu universo e embarcar em suas aventuras. O problema é que passado o impacto da aparência diferenciada, a trama não consegue envolver perfeitamente o espectador, ficando a dever principalmente nas cenas de ação que não chegam a empolgar. De qualquer forma, este filme merece uma revisão mais branda por parte dos espectadores com a perspectiva desta ser uma tentativa de se fazer cinema de forma alternativa. 

Aventura - 107 min - 2004

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