terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

DESONRA

NOTA 8,5

Apesar da narrativa aparentemente
lenta, drama traz a tona importantes
questões sociais, políticas, culturais
e históricas que merecem reflexão
O que é um estupro? Um ato sexual praticado quando a vítima também é submetida a violência física. Provavelmente essa seria a resposta mais apresentada, porém, poucos sabem que tal crime também pode ser praticado sob a influência da violência psicológica e moral. O pior é que muitas vezes quem estupra aproveitando-se de seu poder social ou financeiro para seduzir não se dá conta que também cometeu um grave erro, mas o fato de não ferir fisicamente parece que os exime da culpa. Bem, isso só em suas mentes doentes. O drama Desonra apresenta como protagonista um personagem contraditório, um homem que se encontra em uma encruzilhada moral quando precisa conflitar suas próprias condutas com as daqueles que aponta como fora-da-lei. Baseado no livro homônimo do sul-africano J. M. Coetzeel, o roteiro adaptado por Anna-Maria Monticelli em um primeiro momento pode desagradar, até por sua conclusão realista, porém, difícil de engolir. Talvez sejam necessárias mais uma ou duas revisitadas a esse universo onde discussões morais e políticas não faltam para compreender os propósitos da obra. A trama gira em torno de um professor universitário que se relaciona com uma aluna utilizando-se de sua autoridade, é descoberto e obrigado a se demitir. Com a imagem manchada, ele resolve ir morar na fazenda da filha onde passará por uma nova provação. Resumidamente, a premissa parece não ter nada demais, nem impacta mais a notícia do abuso daqueles que deveriam educar. Infelizmente tornou-se um problema comum. O que injeta potencial nesta produção é o contexto em que esta história se desenvolve e suas mensagens subliminares. Com direção de Steve Jacobs, também sul-africano, somos convidados a conhecer um pouco da sujeira existente na região, particularidades que talvez não sejam identificadas a primeira vista, que necessitem de um pouco de reflexão para um completo entendimento. A trama começa nos apresentando ao cinquentão David Laurie (John Malkovich), professor de literatura na Universidade da Cidade do Cabo. Detentor de um histórico de muitos casamentos e relacionamentos rápidos, ele fica obcecado por uma de suas alunas, Melanie Isaacs (Antoniette Angel), a quem paquera descaradamente, embora a moça se mostre incomodada com as investidas. De forma respeitosa, porém, insistente, ele acaba forçando um relacionamento com a jovem em troca de boas notas em sua disciplina. Na realidade, ele não quer namorar com ela e sim conseguir transas casuais até que se canse dela ou o mais provável que ela fuja dele até sua desistência finalmente.

Quando não aguenta mais a situação, Melanie acaba revelando o que está acontecendo à família e o caso ganha os corredores da universidade. Alunos passam a se revoltar contra o professor, este que descaradamente dá aulas usando exemplos literários de personagens cujas condutas se confundem as suas, tipos que agem por impulso sem pensar nas consequências. O caso é tratado como abuso sexual e levado a inquérito. Dissimulado, David assume diante da banca julgadora que realmente se valeu do poder que a hierarquia educacional lhe concedia para persuadir sua aluna a fazer sexo com ele em troca de notas, implicitamente também podendo se valer do retrógrado direito do homem branco explorar o negro como bem entendesse, porém, debocha de todos ao dizer que sua confissão não é sincera, deixando claro que em sua mente seus atos não configuram crimes, afinal ele não agiu pela razão e sim pela emoção que não pôde controlar o que explica seu vasto histórico de conquistas amorosas. Sem emprego e com sua imagem manchada na cidade grande, David decide passar uns dias com a filha Lucy (Jessica Haines). Homossexual assumida, ela atualmente vive sozinha em uma pequena fazenda, ou melhor, fez um acordo de copropriedade com Petrus (Eriq Ebouanly) que vive no estábulo, mas aparentemente tem acesso livre a residência principal. O professor estranha a situação, mas a filha diz que ele ganhou uma quantia em dinheiro suficiente para pagar pelas terras, mas não para construir uma moradia. Com poucas palavras e muitos olhares de desconfiança, David vai tentando se acostumar com a vida no interior. A situação se inverteu. Na cidade grande ele era visto de uma forma mais autoritária por conta de sua profissão, cor de pele e padrão de vida, mas agora ele se sente acuado, pois no campo são os negros quem dominam. Certa tarde, três homens desconhecidos vão até a fazenda com a desculpa que precisavam dar um telefonema urgente e Lucy permite a entrada de apenas um deles, mas em um momento de descuido todos invadem o local. David quando acorda percebe que foi agredido e que ficou desmaiado por um bom tempo no banheiro enquanto a filha foi estuprada e a casa saqueada. O professor fica horrorizado com a situação, mas a jovem parece ter encarado o episódio de forma mais comedida. O estado emocional de David está abalado neste momento, talvez por perceber que pode ter agido como um criminoso com muitas mulheres, mas ainda assim não se convence que praticava estupros, afinal não engravidou nenhuma delas e tampouco as roubou ou as violentou fisicamente. Depois de um tempo ele fica sabendo que ela só deu queixa sobre o assalto, omitiu o estupro para evitar qualquer confronto com Petrus que coincidentemente estava viajando quando o abuso foi cometido.

A essa altura basta ligar os pontos. Não é surpresa alguma dizer que o crime parece premeditado, ainda mais quando um dos criminosos vai morar com Petrus que alega que o adolescente é parente de sua esposa e sofre de transtornos mentais. Enquanto David se esgoela para tentar obter alguma explicação ou providências, a calmaria do negro deixa os espectadores com os nervos à flor da pele assim como a forma que Lucy encara o episódio, ainda mais depois que descobre que engravidou. Qual a real ligação entre essas pessoas que aparentemente dividem as terras de forma amigável, mas que deixa latente a ideia de uma submissão invertida? A impressão que podemos ter primeiramente é que o longa propõe uma vingança aos anos de sofrimentos dos povos africanos nas mãos de colonizadores brancos, mas quem tem conhecimento cultural e histórico consegue se aprofundar nessa reflexão. Após o fim do Apartheid, os brancos poderiam ser vistos como intrusos que precisavam ser expulsos ou dominados. Uma mulher sozinha e com uma opção sexual que vai contra os princípios hipócritas da maioria das religiões é o exemplo perfeito de vítima desse preconceito. Lucy confessa que já foi estuprada outras vezes. Estas tentativas selvagens e despudoradas de “regenerar” a lésbica podem ser compreendidas como táticas de uma crença ridícula de que a mulher nasceu para o homem ou simplesmente como uma forma covarde de amedrontar a vítima a fim de ela desistir de fixar moradia na região. Lucy fazendo pé firme de ficar automaticamente está se submetendo aos mandos e desmandos de Petrus que ao que tudo indica se tornará o verdadeiro dono da fazenda e a assumirá como uma nova esposa. Por que não desistir desse inferno e voltar a viver com o pai ou mesmo sozinha, mas longa dali? Não ficam claros os motivos que a levaram a viver afastada, mas se a intenção era fazer o espectador se sentir inquieto, Jacobs atingiu seu objetivo. Até David não alcança a redenção. Uma providencial visita a Cidade do Cabo na reta final nos revela que ele continua impulsivo, mesmo depois de ver com os próprios olhos o sofrimento de sua filha, as mesmas sensações que possivelmente as mulheres que ele conquistava sentiam, mas como ele sempre lhes dava algo em troca talvez não consiga perceber plenamente ligações entre seus atos e o crime dos negros. Desonra não chega a ser excepcional por sua narrativa extremamente esquemática que não abre espaço para o leque de emoções e conflitos que a temática permitiria, contudo, quem leu o livro diz que a adaptação foi fiel. O final é contraditório aos tempos em que vivemos. Se os países ocidentais cada vez mais se gabam das liberdades conquistadas, parece que os países africanos, especialmente a região focada aqui, pararam no tempo na época da segregação como se fosse uma espécie de proteção do povo local aos avanços de imigrantes. Problema social, político, econômico, histórico... De uma premissa comum, um filme que traz muitos temas relevantes a serem discutidos.

Drama - 118 min - 2008 - Dê sua opinião abaixo.

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