segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

ESTRANHA OBSESSÃO (2011)

NOTA 3,0

Com requisitos para atender as
expectativas de fãs de cinema mais
artístico, longa se revela enfadonho
e com situações desperdiçadas
A atriz inglesa Kristin Scott Thomas se transformou em uma espécie de marca de garantia de qualidade tal qual a francesa Juliette Binoche. Ambas com passe livre nas produções hollywoodianas, inclusive vez ou outra nas mais comerciais, e com carreira ativa em seus países natais, seus filmes geralmente são exibidos nos cinemas em circuito restrito ou lançados diretamente para consumo doméstico o que traz certa aura de intelectualidade a seus trabalhos. Não é difícil encontrar pessoas que enchem a boca para falar os nomes dessas atrizes para se passarem por intelectuais, mas no fundo não curtem suas obras ou sequer as entendem. Bem, quem decidir assistir a mescla de drama e suspense Estranha Obsessão atraído pelo nome de Kristin nos créditos não precisa fingir a frustração, o longa é realmente chato e sem pé nem cabeça. O título nacional genérico e desinteressante faz jus ao porte da produção, um trabalho menor e mal conduzido que pelo visto tentou reverter as expectativas nos minutos finais apostando no clichê da revelação bombástica, mas já tarde demais para alterar julgamentos, isso se alguém aguentar chegar até a conclusão, mesmo com a curta duração do filme. A trama acompanha Tom Ricks (Ethan Hawke), um melancólico professor de cinema e escritor americano que viaja para Paris a fim de se reconciliar com Nathalie (Delphine Chuillot), sua ex-esposa, que logo no primeiro encontro mostra-se contrária a qualquer tipo de aproximação, inclusive ameaçando chamar a polícia para denunciar o rapaz já que existe uma ordem judicial para que ele não se aproxime. Algum tempo antes ele se envolveu em um escândalo na universidade em que trabalhava e isso acabou com seu casamento e o afastou de Chloe (Julie Papillon), sua filha pequena com quem nunca teve muito contato. Após a tentativa frustrada de visitar a garota, esse homem azarado ainda é assaltado e perde sua bagagem e dinheiro. Sezer (Samir Guesmi), dono de um pequeno e decadente hotel, acaba ajudando Tom lhe oferecendo um quarto com a promessa de que tão logo ele arranje um emprego pagará a hospedagem. É conversando com este suspeito homem de origem árabe que ficamos conhecendo um pouco mais da vida do escritor.

Tom até hoje escreveu um único livro e nutre certa obsessão pela filha como se fosse o motivo que ainda o mantém vivo. Talvez percebendo que o rapaz teria dificuldades para encontrar uma vaga de emprego devido a seu deprimido estado emocional, Sezer vê como maneira de receber alguma coisa em troca da estadia que ofereceu ele mesmo lhe dar um trabalho, assim coloca seu novo hóspede para trabalhar como porteiro de um subsolo monitorando a entrada e a saída de pessoas, obviamente um espaço onde negócios ilícitos eram realizados. Tom aceita a proposta e vai aproveitando seus dias pela capital francesa dividindo seu tempo entre o turno de vigia, apreciar a filha a distância, tolerar seus vizinhos sem educação e curtir sua própria solidão. Sua rotina maçante muda na noite em que ele é convidado por acaso para uma festa que reunia intelectuais, uma espécie de encontro literário, onde ele conhece a refinada Margit Kadar (Kristin Scott Thomas), uma misteriosa, inteligente e sedutora viúva que automaticamente estabelece um vínculo de amizade com este homem. Ela assume o papel de uma confidente ou terapeuta, assim Tom cada vez mais passa a encontrá-la a fim de aliviar suas tensões e frustrações, não só verbalmente, mas também de forma carnal. Margit se autodenomina uma musa inspiradora para os intelectuais, seu falecido marido também era escritor, mas nunca teve seu talento reconhecido junto ao público. Deste relacionamento baseado em encontros casuais, Tom reencontra sua autoestima e a inspiração para voltar a escrever, assim rascunhando um novo trabalho. Paralelo a isso, o protagonista ainda estreita laços com Ania (Joanna Kulig), uma jovem funcionária da pensão em que vive com quem passa a viver um relacionamento mais amoroso e seguro, mas que pode atrapalhar sua recuperação profissional, afinal ela não compartilha do mesmo nível social e de educação que ele. Ania é como uma esposa amorosa e previsível, enquanto Margit faz o papel da amante que o leva a expandir sua imaginação e sentimentos. Fora as aventuras amorosas, Tom ainda se envolverá com problemas com um dos seus vizinhos, gancho pouco explorado pelo enredo e totalmente desnecessário caso não fosse o estopim para a conclusão que revela-se fantasiosa ou mórbida, tudo depende da interpretação de cada um.

Baseado no romance de Douglas Kennedy, o longa escrito e dirigido pelo polonês Pawel Pawlikowski, de Meu Amor de Verão, tem um bom argumento e um início interessante, mas a narrativa arrastada compromete o envolvimento do espectador que chega a um ponto que perde os detalhes da trama simplesmente por não conseguir evitar a dispersão de atenção. O estranhamento se deve ao fato da história não ser muito convencional. Temos poucas informações sobre os personagens, o que abriria margem para que o espectador participasse mais ativamente da trama especulando sobre o passado, rotina e futuro dos personagens, mas a produção esbarra em sua pretensão de não ser um simples thriller, mas sim uma obra artística que passeia por diversos gêneros (drama, romance, suspense, policial) e exige muita atenção do espectador. O problema é que mesmo para quem fique com os olhos atentos e assista até mais de uma vez, o resultado tende a ser o mesmo: frustração. Até a tal revelação impactante já mencionada não deve causar tanto efeito às pessoas com repertório cultural mais enriquecido, afinal a maioria dos intelectuais tendem a ter delírios e perturbações mentais pelo fato de necessitarem se sentir inseridos no mundo de suas criações para as completarem da melhor forma. É justamente esta sensação que temos do personagem Tom, um homem que por trás de seu visual apático e olhos cansados esconde uma mente criativa esperando uma brecha para ser desenvolvida, mas a própria rotina do escritor é um convite a reclusão, assim como a atmosfera que o envolve. Esqueça a Paris luxuosa e iluminada que geralmente costumamos ver em filmes. Pawlikowski, acertadamente, aposta em uma fotografia fria que capta paisagens nubladas e em cenários e figurinos em tons escuros, exceto vez ou outra que a tela ganha um colorido extra pelos tons avermelhados das roupas de Margit como se fosse a representação visual da mudança de estado de espírito de Tom no momento em que ele está em sua companhia. Estranha Obsessão no conjunto é um trabalho repleto de boas intenções, mas que acaba se enrolando em suas próprias pretensões. Sem dúvidas deve existir quem goste do resultado final, mas o número de críticas negativas deve ser maior principalmente pelo fato do protagonista não causar identificação com a maioria dos espectadores sendo um personagem extremamente distante. Todavia, Ethan Hawke, ator constantemente subestimado, mostra que tal qual um escritor realmente ele mergulha de cabeça no universo de sua criação.

Drama - 83 min - 2011 

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