segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

GHOST TOWN - UM ESPÍRITO ATRÁS DE MIM

NOTA 7,5

Após um procedimento médico,
homem ranzinza ganha o dom de
falar com os mortos e de quebra a
chance de dar novos rumos à sua vida
Os mistérios acerca da dúvida se existe vida após a morte já renderam diversos filmes nos mais variados gêneros, sendo os mais interessantes aqueles que enfocam espíritos que desencarnam deixando assuntos pendentes, uma temática que chama a atenção de muita gente assim como os fenômenos de almas que não deixaram o corpo físico eternamente e sim por algum período indeterminado, podendo ser até mesmo por alguns poucos minutos. Assuntos do tipo podem render ótimos dramas, romances, suspenses e até mesmo comédias. Sim, o campo do humor também pode explorar temáticas espíritas sem ser desrespeitoso com a religião específica e tampouco ofender os adeptos de outras crenças como prova a comédia Ghost Town – Um Espírito Atrás de Mim. A história criada por John Kamps e David Koepp, este último também responsável pela direção, não prima pela originalidade, mas de qualquer forma é um passatempo agradável, com ótimos diálogos, humor de bom gosto e com uma lição de moral importante. Fugindo do lugar-comum, a trama aposta em um protagonista com características longe de conquistar a empatia do espectador, mas graças ao carisma do seu intérprete é possível se envolver com seu mau-humor e torcer para que ele sofra ao longo da narrativa transformações que o tornem uma pessoa mais afável.  Bertram Pincus (Rick Gervais) é um dentista competente, porém, estranhamente repudia o contato com os seres humanos, evitando ao máximo conversas e intimidades com qualquer um.  Embora sua profissão o obrigue a ser simpático para conquistar clientela, todos parecem conhecer seu jeito egoísta e antipático de ser, afinal ele não faz questão alguma de disfarçar seu mau-humor e apreço pela solidão e privacidade. Contudo, sua vida muda completamente após ser submetido a uma colonoscopia, um exame para análises dos intestinos e região retal que exige a introdução de uma espécie de tudo com câmera... Bem, você já deve imaginar onde o tal aparelho é colocado. O constrangimento na hora de preencher uma ficha com algumas informações íntimas necessárias antes da realização do procedimento não é nada perto do que o rechonchudo dentista vai passar assim que deitar na maca, a começar pelos rostinhos jovens que compõem a equipe médica que irá atendê-lo, o que já o deixa apreensivo acreditando estar nas mãos de amadores. Seu medo é correspondido.

Com medo do procedimento, Pincus exige a aplicação de anestesia geral. Quando lhe dão alta ele parece estar muito bem, porém, coisas estranhas passam a acontecer. Muitas pessoas que ele jamais viu passam a conversar com ele, fazer pedidos e dizer coisas que parecem sem sentido. Como sempre, ele tenta fugir de qualquer tipo de contato pessoal com quer que seja até que se depara com um homem que caminha em sua direção e é atropelado. Contudo, o estranho nem chegou a cair no chão, simplesmente atravessou pelo veículo normalmente. Juntando as peças, o dentista chega a conclusão que está vendo e ouvindo espíritos e corre de volta a clínica para pedir explicações. Por um erro do jovem anestesista, que chegando a sua terceira falha foi despedido (!), Pincus teve uma parada cardíaca e morreu por sete minutos, sendo felizmente ressuscitado. Graças a essa experiência com o outro mundo, ele voltou a vida com o dom de ver fantasmas, todos com assuntos pendentes que precisam urgentemente serem resolvidos para que finalmente conquistem a paz. Um dos espíritos que mais pegam em seu pé é o de Frank (Greg Kinnear) que quer salvar Gwen (Téa Leoni), sua viúva, de cair em um golpe. Após alguns meses de luto ela está pronta para assumir um novo relacionamento com o advogado Richard (Billy Campbell), mas seu finado marido não acha que ele é um homem de confiança e pede para que Pincus se aproxime dela a fim de atrapalhar o romance. Em troca, ele promete convencer as demais almas ansiosas a deixarem o gorducho em paz. O acordo não inspira muita confiança, mas se livrando ao menos de Frank já seria um alívio e tanto. O problema é que o dentista já conhece a viúva. Eles vivem no mesmo prédio e ela já teve a chance de conferir a maneira gentil com que seu vizinho trata as pessoas. Não é difícil imaginar o desenrolar da história. Após muitas brigas e confusões, finalmente Gwen vai dar ouvidos à Pincus ao perceber que ele sabe muito da vida conjugal que ela tinha com Frank e a essa altura nosso médium já estará em estágio avançado de mudanças, assim se tornando um homem bem mais atraente que aquele que meses atrás fechou a porta do elevador propositalmente na cara da moça.

Não é errado dizer que Gervais é a alma desta produção. Conhecido por atuações em séries de humor de TV, o ator consegue encarar bem o desafio de viver um papel com todos os requisitos necessários para ser rotulado como antipático, no entanto, seus constantes momentos de raiva e egoísmo conseguem divertir o espectador e torná-lo uma figura simpática. Bem construído e com emoções genuínas, Pincus é um personagem realista, certamente existem milhares iguais a ele espalhados pelo mundo, ainda mais em tempos em que o individualismo impera. A grande mensagem de moral do longa vem justamente a partir do momento em que lhe cai a ficha que todo o desprezo que dedicou aos outros em nada o beneficiou, aliás, esse também pode ter sido o motivo que o fez ser escolhido por Frank para estabelecer comunicação com o mundo dos vivos. Kinnear aparentemente ganhou um tipo apagadinho, apenas necessário para criar situações de humor conversando com o protagonista  dando a impressão para os outros que Pincus estava maluco e falando sozinho, mas na verdade até quase a reta final seu papel deixa no ar dúvidas a respeito de seus objetivos. Queria realmente proteger a noiva de um mau caráter? Seria o tal noivo apenas um desafeto seu que ele cismou de pegar no pé? Teria ele uma missão do tipo angelical a cumprir com o próprio dentista? Por fim, Téa Leoni cumpre bem sua função de mocinha na história. Como já estava um pouco madura tanto em idade quanto em talento, felizmente ela não banca a adolescente sonhadora e sim uma mulher que ainda sente a partida repentina do marido, mas procura dar novos rumos à sua vida, um tipo crível e de fácil identificação. O diretor Koepp já havia flertado com o mundo dos espíritos em Ecos do Além, mas de forma mais séria e fincado no campo do suspense, porém, mostra-se seguro na condução de Ghost Town – Um Espírito Atrás de Mim que apesar de situações clichês e final previsível consegue realmente ser uma comédia espirituosa, desculpe o trocadilho. Só pelo fato de não existirem cenas e personagens em sessões de descarrego ou simulações de incorporações de espírito, geralmente exageros que chegam a constranger, já vale uma nota digna a esta produção.

Comédia - 102 min - 2008 - Dê sua opinião abaixo.

2 comentários:

CONDE disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
CONDE disse...

Belo filme e um escrito que convence a conhece-lo. O que pode desagradar é a não existência de se procurar um humor fácil.

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