terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

GUERRA S.A. - FATURANDO ALTO

NOTA 6,5

A guerra como fonte de economia
é alvo de comédia que ainda faz
outras críticas contundentes, mas
no final longa cai na palhaçada
Temas ligados a guerras devem ser tratados com seriedade, ainda mais conflitos recentes envolvendo povos árabes. Bem, o diretor Josh Seftel acreditou que os problemas entre os EUA e o Oriente Médio podia sim gerar uma comédia e apostou suas fichas em Guerra S.A. – Faturando Alto que passa longe de ser um trabalho excepcional, mas é bem melhor que muito filme por aí que tem a pretensão de fazer o público rir. Fazer as pessoas caírem na gargalhada sem apelar para o humor pastelão é muito difícil, que dirá quando a comédia tem que caminhar paralelamente a um argumento relativamente sério. Com roteiro de Mark Leyner, Jeremy Pikser e do ator John Cusack, também protagonista e produtor, esta obra é uma divertida crítica a absurda realidade do mundo atual, ao negócio lucrativo que é a guerra e sobra espaço até para criticar a indústria de bens de consumo e culturais, mais especificamente o campo fonográfico e midiático.  A ação se passa no fictício país do Turaquistão que foi devastado pela guerra e que está recebendo a visita de Brand Hauser (Cusack), um matador profissional que foi enviado para lá para impedir que Omar Sharif (Ludomir Neikov), o Presidente da Ugi Gas, conglomerado ugiquistanense, construa um oleoduto para escoamento de petróleo. O assassino foi contratado pela empresa Tamerlane, responsável por manter o monopólio de exploração dos recursos naturais da região e que ganha milhões forjando cenários de guerra em vários países com o intuito de mostrar os pontos positivos e ideológicos das batalhas como a reconstituição moral e ética do local atingido e o advento do direito a liberdade a seus moradores, entre outras pomposas justificativas. A corporação é propriedade do ex-Vice Presidente dos Estados Unidos (Dan Aykroyd) que tomou conta deste país visando apenas lucro, mas agora é preciso se livrar do tal empresário árabe que pode se tornar um grande concorrente. Hauser, um tanto desequilibrado, aceita a tarefa e para tanto ele terá que se disfarçar de produtor de eventos e organizar o casamento da ninfeta pop Yonica Babyyeah (Hilary Duff), uma espécie de Britney Spears idolatrada nos países asiáticos e adjacências. A cerimônia na verdade é uma ação de marketing praticamente e irá acontecer em meio ao congresso anual da Tamerlane, evento que reunirá grandes nomes da empresa, políticos e jornalistas.

A tal feira, uma vitrine para a Tamerlane comercializar seus produtos para o novo Turaquistão e celebrar um novo recomeço ao país, é um evento de suma importância para os EUA, afinal o sucesso da empresa é sinônimo de vitória para os norte-americanos, ao menos para os poderosos locais. Em meio a organização, Hauser será assessorado por Marsha Dillon (Joan Cusack), uma eficiente secretária, mas que por vezes parece um pouco aloprada, e terá que fugir das cantadas nada discretas de Yonica, a quem ele repudia por considerá-la um produto que a indústria fonográfica criou para alienar e erotizar os jovens. A moça claramente vai se casar com um árabe por interesses comerciais que provavelmente ela desconhece, mas iludida pela atenção que a mídia dispensaria ao evento ela topa tudo, aliás, sua carência de qualquer tipo de afago é nítida. Enquanto tenta bolar a melhor maneira de atacar o seu alvo, o matador ainda terá que lidar com Natalie Hegalhuzen (Marisa Tomei), uma jornalista politicamente correta que tenta se infiltrar no evento da Tamerlane com o objetivo de desmistificar a aura positiva da empresa revelando seus podres. Dessa forma Hauser, pouco a pouco, esquece de um dos principais mandamentos de sua profissão: nunca se envolva com a situação, apenas faça o serviço e vá embora. No passado ele teve uma grande decepção com um crime que envolveu sua esposa e filha pequena e desde então se tornou um homem frio e solitário, mas que pela primeira vez em muitos anos parou para pensar duas vezes antes de levar adiante os planos da Tamerlane. A cena da virada se dá quando o protagonista se vê sozinho com Yonica e Natalie em um antigo casarão, como se elas estivessem ocupando os lugares vazios daquelas que eram as mulheres da sua vida, mas como isto é uma comédia, o clima familiar logo é quebrado quando Hauser deixa aflorar seu instinto de violência para defender as duas, mas elas ficam horrorizadas com seus métodos de trabalho. Os três nomes citados do elenco feminino defendem bem seus personagens, com destaque para a subestimada Tomei que vive sob a maldição de um ingrato Oscar conquistado em hora errada e para Duff que de certa forma ironiza a figura daquilo que ela poderia ter se tornado, mas sua carreira como cantora não foi o estouro esperado. Há males que vem para o bem. John Cusack, por sua vez, parece ter encontrado o personagem sob medida para seu talento, construindo meticulosamente a imagem do homem sem escrúpulos que aos poucos vai cedendo à redenção. 

O elenco ainda conta com o premiado Ben Kingsley interpretando Walken, o vice-rei do Turaquistão nomeado pelo próprio governo dos EUA obviamente para manter sua imagem de dominação sobre o “recém-conquistado” país. Hauser irá trabalhar para ele na realidade desde o início, porém, sua identidade e até mesmo seu nome ficam incógnitos até quase o final. O personagem ainda reserva um outro mistério, assim compensando a revelação sobre quem ele é, mas não tinha como não citar o nome do ator neste texto, até para frisar que este é um dos raros casos que ele frustra com sua interpretação. O problema é que o perfil deste poderoso não condiz com o talento de seu intérprete, obrigado a viver sem dúvidas algumas das cenas mais patéticas de toda sua carreira. Fazer o que? A própria história como um todo converge em uma conclusão pastelão, com muito corre-corre, barulhos e diálogos apressados, tudo bem ao estilo que Hollywood gosta. Apesar do final debochado, Guerra S.A. – Faturando Alto tem sim um conteúdo relevante, mas para compreendê-lo talvez seja necessário um pouco de informações além da tela, podendo os alienados até passarem batido pela crítica implícita na personagem Yonica. Enquanto é idolatrada e seus videoclipes repletos de malícia fazem sucesso em países orientais, muitas mulheres locais ainda sofrem com os costumes opressores que colocam o sexo feminino em posição submissa. Se a música norte-americana tem passe livre, automaticamente outros bens de consumo ianques também encontram portas abertas como o cinema, os programas de TV, roupas, fast-food entre tantas outras coisas que descaracterizam a cultura local. Iludindo as pessoas, as empresas exploradoras de recursos naturais não costumam encontrar resistência para entrar em territórios alheios e destruir ou usufruir ao máximo das riquezas, afinal estão todos muito entretidos para contestar qualquer coisa. De forma parecida também atua a indústria bélica que financia conflitos armados para depois os EUA posar de solidário e pouco a pouco dominar mais uma área e ampliar seu poder de grande potência. Apesar do aparente descompromisso, esta comédia tem muitos pontos a serem discutidos e que certamente levam a outros, algo louvável vindo de uma produção americana que desejou fazer uma crítica a própria soberania do país, podendo sobrar farpas até para a própria indústria do cinema dependendo da extensão da discussão sobre o tema principal do longa.

Comédia - 106 min - 2008

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