sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

JANTAR COM AMIGOS

NOTA 7,5

Com diálogos envolventes e
conflitos de fácil identificação,
longa discute o desgaste do
casamento e o valor da amizade
O relacionamento de um casal é como uma receita que precisa de certos ingredientes para dar certo, mas o problema é que é muito difícil manter a pimenta do início e evitar que a rotina não agregue um insosso sabor de água com açúcar à relação. Tem casais que se acostumam ao cotidiano com pouco sabor de paixão, mas outros precisam de um tempero a mais para se manterem unidos. Sem dúvidas a receita da felicidade de um casal é singular, cada um tem a sua própria e é essa a grande lição de Jantar com Amigos, erroneamente vendido como uma comédia romântica quando na realidade é um drama leve que explora a reação de um casal perfeito em relação a separação dos seus melhores amigos. Baseado na peça teatral homônima de Donald Marguiles, que também assina o roteiro, a trama começa com Gabe (Dennis Quaid) e Karen (Andie MacDowell) preparando mais um de seus famosos jantares cheios de iguarias para receber os amigos Beth (Toni Collette) e Tom (Greg Kinnear). Os anfitriões voltaram a pouco tempo da Itália e estão na expectativa quanto ao lançamento de mais um livro sobre gastronomia e como sempre querem dividir este momento feliz com aqueles que consideram extensão de sua família. Ambos os casais estão juntos a cerca de doze anos, tem dois filhos cada e as estruturas sólidas destes relacionamentos, tanto íntimo dos cônjuges quanto de amizade entre as famílias, pareciam inabaláveis isso até que uma noite de intensa chuva prenunciava que algo ruim estava para acontecer. Beth chega ao jantar acompanhada apenas dos filhos e justifica que o marido, um advogado de sucesso, precisou fazer uma viagem de trabalho às pressas. Enquanto discursam sobre as belezas e sabores italianos, a convidada demonstra um pouco de incômodo e entediada, mas educada esforça-se para parecer interessada na conversa. Os amigos já sabiam que ela tinha uma tendência desde a juventude para problemas emocionais, porém, não imaginavam que desta vez o problema tinha razões bem sérias. Ela revela que o marido confessou declaradamente que está apaixonado por outra e decidido a se separar, inclusive acusando a esposa de ter destruído sua vida. Beth julgava que o mau humor constante do rapaz era por conta dos problemas com o trabalho, mas assume que sabe que ele desejava mais intimidade na relação e ela negava.

Quando Beth vai embora é a hora do casal perfeito discutir o problema que para eles soa como uma refeição indigesta, uma situação que inevitavelmente cada um acaba tomando partido de um lado. Gabe tenta defender o amigo, mas a defesa de Karen à amiga parece contar com mais pontos a favor, pois da maneira como a notícia foi dada Beth seria a parte lesada da situação e Tom uma pessoa que não inspira confiança, afinal de contas qual homem íntegro seria capaz de jogar para o alto mais de uma década de relacionamento e ainda por cima correndo o risco de traumatizar os filhos? Bem, um homem com orgulho ferido seria capaz de tudo. Tom regressa para sua casa na mesma noite evidenciando que a viagem era apenas uma desculpa para mais um encontro com sua amante, figura cuja existência ele não faz questão alguma de esconder da futura ex-mulher, inclusive ratificando que ela não é uma simples aeromoça, mas sim uma comissária de bordo jovem, bonita e que o faz se sentir viril novamente. Ao saber que Beth contou aos amigos sobre a separação, entre a preocupação em saber se os filhos ouviram a conversa e o que foi servido no jantar, ele se enfurece. Ouvindo apenas um lado do conflito o casal aficionado por gastronomia poderia considerar ele a maçã podre da cesta. Tom e Beth então discutem verbalmente, há troca de violência física, mas por fim acabam transando. Depois disso, ele resolve ir até a casa dos amigos para contar a sua versão dos fatos e os encontra no calor de uma discussão. Claramente irritada, Karen é ríspida e se recusa a ouvir qualquer tipo de explicação. Gabe, mais paciente, tenta compreender o amigo e se surpreende ao saber que ele e a esposa ainda transavam com certa frequência mesmo após tantos anos de união. O problema é que a raiva era o afrodisíaco desta relação. O advogado ficou um tempo sem tocar a esposa carinhosamente com beijos ou um simples entrelaçar de mãos para ver quanto tempo ela demoraria a ter a iniciativa de acariciá-lo, mas simplesmente ela o deixou de lado limitando-se a lhe dirigir a palavra apenas quando extremamente necessário. Tal desprezo abriu as portas para que ele procurasse afeto nos braços de outra, mas no calor das brigas eles acabavam na cama vivenciando uma relação de puro prazer carnal. Tom tentou manter o casamento por consideração aos filhos, mas chegou a um ponto que não suportava mais a sensação de solidão e de ser humilhado pela esposa.

Exposto o conflito de Beth e Tom e deixando latente o desconforto que tal separação provocaria entre Gabe e Karen, que chegam a discutir sobre como reagiriam a uma suposta traição, o longa volta no tempo para mostrar o início do relacionamento do quarteto, período evidenciado por uma fotografia com coloração mais amarelada. No final dos anos 80, o casal gastronômico vivia o entusiasmo de seus primeiros meses de casados e convidaram seus melhores amigos para um fim de semana no litoral. A intenção era aproximar a temperamental Beth e o brincalhão Tom e imediatamente a ideia parece ter sucesso comprovando que os opostos se atraem. Diante de um belo pôr-do-sol, fica registrada a imagem de união do quarteto, uma amizade que parecia para sempre. O diretor Norman Jewison demonstra extrema competência para manter certa essência teatral em sua obra conseguindo envolver o espectador com diálogos longos, porém, interessantes e realistas. Somos convidados a participar da intimidade dos protagonistas descobrindo aos poucos peculiaridades da vida de cada um sendo perfeitamente possível se imaginar vivendo situações semelhantes, afinal idealizar o futuro é fácil, mas colocar os planos em prática são outros quinhentos. Gabe e Karen no dia do casamento fizeram um pacto com os amigos de envelhecerem todos mantendo a amizade, mas Tom e Beth tiveram a coragem de mudar os rumos de suas vidas. O último ato do longa mostra o reencontro dos amigos e das amigas separadamente após meses de afastamento. Os recém-separados já estão mergulhados em novos relacionamentos e exalando o frescor inerente ao recomeço da busca pela felicidade. Entre diálogos entrecortados, Gabe e Karen parecem não reconhecer mais seus amigos e estão dispostos a colocar um ponto final nestas amizades, mas mesmo assim a troca de experiências continua mexendo com o cotidiano do casal perfeitinho. Eles percebem que a velhice está chegando e passam a ponderar se ainda valeria a pena manter uma união baseada apenas em respeito e confiança. O fogo da paixão ficou no passado, mas será que revivê-lo é realmente uma necessidade? Pior, para recordá-lo é necessário buscar novas aventuras com parceiros eventuais e romper com as convenções? Telefilme produzido pela HBO, Jantar com Amigos é um prato agridoce para ser degustado com atenção para seus ingredientes serem um a um reconhecidos e saboreados com perfeição e por fim ter material suficiente para uma boa reflexão durante o cafezinho. O elenco competente é um show a parte que ajuda a afastar qualquer resquício de teatro filmado, efeito obviamente atingido pela excelente adaptação do texto original e uma direção sensível e segura.

Drama - 90 min - 2001 

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