quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

UM SONHO DE AMOR

NOTA 8,0

Longa aborda a decadência de
uma tradicional família italiana
paralelo ao drama da matriarca
infeliz redescobrindo o que é viver
Infelizmente temos a cultura de assistir um filme apenas uma vez e levar a sério o ditado que diz “a primeira impressão é a que fica”. Dessa forma, deixamos de apreciar filmes excepcionais, mas que por vários motivos podem não revelar suas principais qualidades em um primeiro momento. Podemos apreciar as atuações, a trama, a trilha sonora, a direção de arte, as locações, mas é difícil encontrar um filme que reúna todos esses elementos de forma uniforme e com qualidade. Provando que premiações são puras ações de marketing, Um Sonho de Amor passou batido nesses eventos, conquistando como prêmio de consolação uma indicação ao Oscar de Melhor Figurino, uma injustiça feita a um trabalho que flerta com a moda antiga de se fazer cinema, principalmente na Itália (cenário da trama), mas que traz a tona temáticas relevantes e sempre atuais. O diretor Luca Guadagnino, de 100 Escovadas Antes de Dormir, tem mais experiência na área de documentários, mas demonstra competência e intimidade com o mundo ficcional. Ou melhor, ficção é modo de dizer já que este drama está carregado de toques realistas. Na trama escrita pelo próprio cineasta em parceria com Barbara Alberti, Ivan Controneo e Walter Fasano, somos apresentados à família Recchi, aristocratas cujo poder e riqueza são notados logo nas primeiras cenas passadas dentro do casarão do clã em Milão. Uma grande festa está sendo preparada para comemorar o aniversário do patriarca Edoardo (Gabrielle Ferzetti), dono de uma das maiores fábricas de tecidos da Itália. A ocasião está sendo muito aguardada por todos os convidados, pois será revelado o nome do sucessor dos negócios da família. Sua nora Emma (Tilda Swinton) está tão envolvida com os ajustes finais do evento que até parece a governanta da casa, misturando-se facilmente aos empregados. De origem russa, ela está casada há muitos anos com Tancredi (Pippo Delbono), que está sendo preparado para ocupar o lugar de chefão da empresa do pai, mas o relacionamento entre o casal parece um tanto frio. Eles são pais de Edoardo (Flávio Parenti), que está prestes a ficar noivo de Eva (Diane Fleri); Elisabetta (Alba Rohrwacher), que não está certa se realmente ama o namorado, e Gianluca (Mattia Zaccaro), o filho caçula. Durante o jantar, é anunciada a esperada nomeação de Tancredi para assumir a empresa têxtil, mas seu pai ordena que as obrigações da presidência sejam divididas com seu neto mais velho. Não por acaso o rapaz leva seu nome, o que agrega aquela irresistível sensação de confiança e tradição à empresa.

Ironicamente, o sólido e organizado mundo dos Recchi começa a sofrer rachaduras nesta mesma noite de festa. Após o jantar, o jovem Edoardo recebe a visita de Antonio (Edoardo Gabbriellini), um chef de cozinha que o havia vencido em uma corrida horas antes e que inesperadamente vem lhe trazer um presente por conta da disputa honesta que travaram, um gesto cordial em desuso, mas ainda muito apreciado por aristocratas. O rapaz apresenta o novo amigo à mãe, mas ele educadamente recusa o convite para entrar na casa nesta noite tão particular aos Recchi. Conforme o tempo passa, a amizade entre os rapazes se fortalece e Antonio passa a ser o responsável pelos jantares de negócios que a família realiza com certa frequência, assim constantemente ele encontra com Emma com quem conversa normalmente, sem pesar a diferença de idade ou de classe social. Ela fica encantada e sensibilizada com o seu talento para a culinária, tanto que chega a experimentar sensações que há tempos não sentia, se é que algum dia as vivenciou. Quando junta certa quantia de dinheiro e com a sociedade de Edoardo, o cozinheiro decide montar um restaurante na cidade em que vive, San Remo. Elisabetta convida a mãe para fazer uma viagem para um local próximo e Emma não pensa duas vezes antes de aceitar, afinal essa era a desculpa perfeita para se aproximar um pouco mais do universo de Antonio e é do contato entre estes dois personagens que o restante da narrativa se sustenta ou, em outras palavras, passa a mostrar a decadência da aristocracia. A princípio o longa não deixa claras suas intenções, mas Guadagnino não tem pressa alguma de desenvolver seu enredo, arriscando inclusive trabalhar com dois temas principais paralelamente. O primeiro fala sobre as relações sociais e corporativas atuais, onde um nome tradicional pode não significar mais muita coisa. O outro aborda a dúvida entre seguir uma vida monótona, porém, segura e respeitável, ou ceder ao desejo de viver uma paixão avassaladora, um amor que pode ser passageiro, mas cuja intensidade não poderia ser vivida em cerca de duas décadas de união estável. Com foco em um ou outro, o fato é que ambos são temas de apelos universais e contemporâneos. Já faz algum tempo que as sociedades em geral estão vendo a aristocracia ruir e emergir uma nova classe social baseada no poder aquisitivo, mas praticamente desprovida de cultura. Tancredi, ao assumir os negócios do clã, percebe que a economia mudou e que há riscos do império que seu pai construiu ruir, o que pode também significar o fim do prestígio dos Recchi. Um investidor árabe surge e Tancredi está disposto a negociar a venda da empresa. Preservando o nome, a posição social de seus fundadores continuaria intacta. Com tal ideia, ele acaba batendo de frente com os interesses do primogênito que não vê com bons olhos negociar o sonho da vida de seu avô, preferindo arriscar tocar a tecelagem até quando for possível. Apesar de interessante, o entrecho infelizmente soa maçante, mas faz uma crítica construtiva em relação ao ter e o ser.

A segunda trama paralela, contudo, é a que domina as atenções, principalmente pela entrega de Tilda Swinton a sua personagem que lhe exigiu pleno domínio do idioma italiano e arriscar alguns diálogos em russo. Ela se envolveu tanto com a produção que acabou sendo creditada também como produtora da fita. Emma conheceu o marido quando ele fazia uma visita a negócios na Rússia, mas embora muito dedicada à família, ela nunca se sentiu realmente parte do clã, certamente porque os sogros preferiam uma nora italiana para agregar ainda mais prestígio ao tradicional nome Recchi. Os anos foram passando e ela se acostumou com um casamento de aparências e respeito mútuo. Até as alianças do casal ficam guardadas e só são usadas em eventos sociais. Abdicando até mesmo de seu nome de batismo que nem recorda mais, a sensação de isolamento desta mulher é amplificada pela magnitude do casarão em que vive. Entre ambientes e corredores amplos e com altura palaciana, Emma parece uma formiguinha de poucas palavras, mas onipresente em praticamente todos os cantos e que se desdobra para atender aos caprichos da família. O pouco que ainda guarda da cultura russa só consegue compartilhar com o filho mais velho que parece ser o único a lhe dar realmente atenção. Contudo, também existe um momento em que Emma se aproxima da filha. Elisabetta confessa à mãe que está apaixonada por uma garota. No início a mãe não compreende muito bem, mas respeita esse sentimento, contudo, ao ver fotos da filha feliz ao lado da amada, ela passa a rever seus conceitos. Seguindo as mudanças do mundo, a jovem na prática não tem compromisso algum em seguir a rígida moral dos Recchi, é livre para seguir o caminho que quiser. Tardiamente a submissa mulher resolve criar coragem para romper as barreiras daquele mundo preocupado com status social e perpetuação do nome da família com o qual nunca se identificou. Ela omitiu sua real personalidade para tentar se adequar, mas os tempos agora são outros e se ela ainda está viva não tem porque se submeter a infelicidade e assim ela decide se aproximar de Antonio. É curioso que inicialmente algumas situações e diálogos entre o cozinheiro e Edoardo sugerem que a amizade entre eles pode ganhar rumos mais íntimos, mas pouco a pouco tal expectativa vai se esvaindo, afinal já existe uma subtrama homossexual no enredo. O relacionamento com Emma envolve o rapaz de tal forma que ele também não teria chances de pensar em outro alguém, mas será que ela quer viver apenas uma aventura ou terá coragem de jogar tudo para o alto e trilhar um novo caminho? Com fotografia, cenários, locações e figurinos que nos fazem pensar por vezes estar assistindo a um clássico da Era de Ouro do cinema Italiano, Um Sonho de Amor é uma obra que pode não cativar em uma primeira exibição, talvez nem na segunda, mas vale a pena insistir. Cada vez que você assiste encontra um detalhe que deixou passar e fica ainda mais hipnotizado pela protagonista, cujo padrão de beleza exótico só contribui para a construção de sua personalidade, uma mulher aprisionada pelo passado, mas inclinada a se libertar para o futuro.

Drama - 120 min - 2010 - Dê sua opinião abaixo.

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