sexta-feira, 28 de março de 2014

A CASA DOS PÁSSAROS MORTOS

NOTA 2,5

Ambientação e introdução prometem
um bom filme de terror, mas longa é
arrastado, sem impacto e os tais
pássaros mortos não existem na trama
É preciso reconhecer que produtores, roteiristas e diretores que desejam ainda investir em histórias de casas assombradas são pessoas dotadas de muita coragem e autoestima, pois é preciso estar preparado para a avalanche de críticas negativas que inevitavelmente surgirão. Já faz anos que este subgênero do horror e suspense não traz absolutamente nada de novo, apenas copia os acertos e principalmente os erros de outras produções semelhantes. Diante desse quadro, é inegável que pode surgir uma pontinha de esperança a quem der uma chance para A Casa dos Pássaros Mortos, a começar pelo seu mórbido título. A empolgação pode ser confirmada pelos primeiros minutos do longa dirigido por Alex Turner que situa a ação nos arredores do vilarejo de Fairhope, no Alabama, no ano de 1863. Sim, a mistura de terror e faroeste é intrigante. Um grupo de soldados chega ao banco local para depositar uma grande quantia de ouro sob ordens de seus superiores, mas no mesmo momento são surpreendidos por outro bando que diz ser oriundo de um acampamento nas proximidades. A cara de poucos amigos dos membros e suas vestes simplórias já deixam os seguranças do banco em alerta e nem a presença da jovem Annabelle (Nicki Aycox) entre eles os fazem baixar a guarda, mas um descuido rápido e essa é a brecha que o grupo precisava para roubar o estabelecimento e promover uma grande chacina a base de tiros e facadas. Após escaparem da revolta dos populares, o bando quer colocar em prática o mais rápido possível os planos de fugir para o México, mas a ameaça de um temporal os leva a adentrar na floresta em busca de abrigo em uma velha e abandonada propriedade cujo herdeiro, Jeffy Hollister (Harris Mann), morreu na Guerra Civil norte-americana na qual também lutou William (Henry Thomas), o namorado de Annabelle e líder dos criminosos. O embate inicial com jeitão de briga de filme de faroeste com dose extra de sanguinolência, as sequências de caminhada na mata densa e as tomadas acompanhando o bando atravessando um seco milharal para chegar ao tal casarão parecem indicar que algo bom está por vir, mas quando rola um desespero por conta de uma estranha criatura que surge inesperadamente e morre na frente dos bandidos as expectativas já começam a ceder. O bizarro neste caso trabalha contra a produção. Na pior das hipóteses poderíamos esperar que o roteiro de Simon Barrett tem pressa para começar o show de carnificina, mas pode surpreender tanto negativa quanto positivamente os rumos que a trama toma.

Barrett e Turner não se preocupam com sustos fáceis, tanto que a primeira imagem impactante de assombração só surge pontualmente quanto o longa chega a sua metade. A essa altura o espectador pode até se perguntar se faria o filme diferente, apostando em clichês, mas ao menos não desapontando aqueles que esperavam ver um filme de terror esquemático. Ou o melhor seria realmente surpreender apostando em uma linha narrativa diferenciada? No caso, a intenção dos realizadores era apostar em um constante e crescente clima de tensão que é até envolvente, mas quem é atraído pelo título quer realmente ver vultos, almas penadas e descobrir o que tem a ver os tais pássaros mortos, assim a certa altura o longa começa a entediar e não surte efeito as aparições tardias das criaturas do além. Não se pode negar que é até interessante a expectativa que essa demora provoca, pois nos faz tremer a cada tomada do milharal na escuridão da noite ou a exploração dos cômodos da residência sob a luz de lampiões. Para quem já vivenciou as comuns situações de falta de luz em noites chuvosas em regiões rurais predominantemente ocupadas por casas afastadas umas das outras o efeito destas sequências tem um potencial absurdo sobre o psicológico. Esta é a prova de que cenários-clichês quando bem utilizados podem assustar até mesmo os fãs de carteirinha do gênero. É claro que pouco a pouco cada um dos personagens vai tomar contato em menor ou maior grau com o passado do casarão que justificará a sua aterrorizante aura, diga-se de passagem, mais uma explicação calcada em espíritos clamando por piedade, mas neste caso vítimas de crendices que comumente eram as razões das mortes de inocentes em tempos remotos em que a ignorância não escolhia classe social para exercer sua força de persuasão. Contudo, o grande enfoque de tensão na primeira metade do longa não são problemas de ordem sobrenatural, mas sim terrenos, mazelas da sociedade que até hoje provocam episódios traumáticos. A ganância é que corrói o grupo. Clyde (Michael Shannon) e Joseph (Mark Boone Junior) discordam da partilha que William faria do ouro roubado antes mesmo do rapaz ter falado qualquer coisa sobre o assunto, mas o líder bastante racional já sente no ar que há traidores no grupo e confia o tesouro a Todd (Isaiah Washington), que parece ter devoção ao chefe e sua namorada. Por fim, Sam (Patrick Fugit) aos poucos vai demonstrando ter pode mediúnico e ser a chave para desvendar os misteriosos acontecimentos que assombram o grupo cujos membros tomados de ódio e desconfiança tornam-se presas fáceis para o Mal.

Apesar do baixo orçamento e pegada trash, os efeitos de computação não comprometem a fita. Usados de forma limitada, não chegam a afetar o clima de tensão descambando para o humor involuntário, erro comum em filmes de terror, mas também são recursos desnecessários quando chegamos a conclusão que a tensão gerada pelo próprio comportamento humano é bem mais assustadora que qualquer coisa do além. É uma pena que o roteiro não invista neste viés e assim perde a chance de ao menos ser um produto com conteúdo razoável e que nos faça refletir sobre como a ganância, preconceito, frustrações e outros problemas podem alterar drasticamente o comportamento humano e suas relações com os demais. Turner acaba na reta final forçando a presença do sobrenatural no enredo, como se as forças malignas presas nas paredes do casarão agissem diretamente no controle das pessoas excluindo qualquer tipo de ação psicológica ou emocional, assim os personagens acabam sendo diminuídos a fantoches que não tem nada a dizer ou fazer. As atenções mais uma vez se voltam ao clichê de quem sobreviverá para contar esta história ou se a maldição do local mostrará sua força novamente aprisionando novas almas enfurecidas para atacar futuros visitantes incautos. Lançado diretamente em DVD no Brasil e também nos EUA, o que não é um bom sinal, A Casa dos Pássaros Mortos é aquele tipo de filme que se analisarmos parte por parte ficamos com dó de taxar como ruim, mas infelizmente a avaliação do conjunto não tem como fugir do crivo negativo. Não é o terror esperado, pelo contrário, faltam elementos, até os mais batidos possíveis sentimos falta. O clima de tensão visual e psicológico tão bem trabalhado até a metade é abandonado para abrir caminho a uma desinteressante trama do além. O elenco parece atuar no piloto automático, valendo a ressalva que os únicos nomes mais relevantes são o de Henry Thomas, o garotinho do clássico E.T. – O Extraterrestre que luta para sair do ostracismo, e o de Michael Shannon, nome quente hoje em Hollywood e indicado ao Oscar por 12 Anos de Escravidão. O pior de tudo é chegar ao fim e não ver ligação alguma da trama com o título, e olha que neste caso não podemos culpar a tradução nacional. Pode até ser que alguma ave morta ou para assustar com seu piar ou bater de asas apareça ao longo da trama (o tédio pode levar a alguns cochilos rápidos), mas a o fato é que apenas um pássaro negro moribundo caído no milharal é mostrado no início, depois disso esqueça qualquer alusão ao título. 

Terror - 91 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

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