segunda-feira, 10 de março de 2014

AS PALAVRAS

NOTA 6,5

Três histórias são interligadas e
contam com o livro como elemento
de metalinguagem, mas produção
peca por não aprofundar os temas
Todo filme precisa de roteiro e para tanto é preciso que o responsável por essa parte tenha não só um bom argumento a ser desenvolvido, mas também habilidade para lidar com as palavras. O mesmo é exigido de um escritor literário e é esse o grande foco do drama As Palavras escrito e dirigido pela dupla Brian Klugman e Lee Sternthal. O título é simples, mas ao mesmo tempo já deixa claro que esta é uma obra para um público mais seleto, ainda mais quando pouco a pouco a narrativa mostra-se mais próxima do estilo literário, como se realmente tivesse sido adaptada das páginas de um livro. A forma como nos expressamos pode mudar a percepção de como as outras pessoas nos vê e até mesmo transformar vidas através das mensagens que transmitimos e é isso que vai aprender o protagonista Rory Jansen (Bradley Copper) que literalmente encontra um tesouro que se transforma em um divisor de águas tanto em sua trajetória profissional quanto pessoal. O rapaz trabalha em uma editora de livros e sonha em publicar seu próprio romance, porém, apesar de bem avaliado, sua obra só encontra recusas e a cada nova tentativa, inclusive em outras empresas, ele parece se convencer de que deve ser incapaz de seguir carreira como escritor. Por ser muito jovem, a falta de experiência de vida pode estar se refletindo negativamente em seus textos, contudo, ele é apoiado pela esposa Dora (Zoe Saldana) e até conta com a ajuda financeira do pai (J.K. Simmons) para enfrentar os problemas de um sonho que custa a gerar lucros. Quando estava prestes a desistir definitivamente, ele encontra por acaso um manuscrito perdido em uma valise comprada por sua esposa em uma pequena loja de antiguidades em Paris durante a lua-de-mel do casal. Jansen começa a ler e logo está totalmente envolvido pela história a ponto de resolver transcrevê-la para o computador palavra por palavra, inclusive repetindo os possíveis erros gramaticais e estruturais do texto original. Como não havia assinatura nos velhos papéis amarelados que encontrou, ele decide apresentar o livro ao seu editor, o Sr. Cutler (Zeljko Ivanek), como uma obra de sua própria autoria. Após uma rápida leitura, seu chefe muda completamente de opinião a respeito de seu até então subestimado funcionário e resolve investir na publicação com a promessa de que caso fosse sucesso de vendas o seu livro antes descartado também seria lançado. Dora, que talvez apoiasse o marido apenas para cumprir seu papel de boa esposa, foi quem o incentivou a apresentar tal obra quando a leu por acaso ao ver o arquivo aberto no computador. Sem saber do plágio, ela também festeja o salto de qualidade e criatividade do texto de Jansen, mais um empurrãozinho para ele decidir levar adiante a farsa.

O livro “A Janela de Lágrimas” automaticamente transforma-se em um best-seller provando que sua mensagem de amor estava fazendo a cabeça dos leitores e cativando cada vez mais novos fãs. Quando se torna famoso, Jansen passa a receber prêmios, elogios e a participar de encontros para autografar livros, mas não esperava que um fã em especial mexesse tanto com seu emocional. Certo dia ele encontra em um parque um senhor de idade (Jeremy Irons) que elogia muito seu trabalho, mas educadamente passa a indagá-lo sobre o que ele faria caso lhe contasse uma história que o inspirasse a escrever um livro. Cederia o crédito ao menos pelo argumento ou faria de conta que desde a concepção da ideia inicial tudo seria seu mérito? O idoso passa então a narrar um conto romântico que coloca Jansen em uma saia justa. O livro que catapultou seu nome ao estrelato foi justamente escrito por este senhor que não está atrás de dinheiro, mas sim de algum tipo de compensação emocional pelo fato de ter perdido aquele que seria o grande feito de toda a sua vida, uma obra que simboliza a sua abdicação de muitos bens materiais e afetivos por seu amor às palavras. Em flashback ficamos conhecendo o enredo do livro, um romance épico que fala sobre um jovem soldado francês (Ben Barnes) que toma contato com a literatura através de outro colega de combates e se apaixona pela escrita. Curiosamente, o rapaz só conseguia escrever em momentos conturbados de sua vida, o que acabou atrapalhando sua relação com a esposa e a filha. O filme então se divide em uma narrativa dentro da outra, mas como a ideia central de um escritor recorrendo ao plágio para alcançar o sucesso rápido não é nenhuma novidade Klugman e Sternthal adicionam uma terceira trama para fugir do lugar comum. O escritor Clay Hammond (Dennis Quaid) abre o longa com uma visita a uma universidade para fazer uma leitura de alguns trechos de seu último livro, homônimo ao filme obviamente, que justamente conta a história de Jansen e das origens da obra que o levou à fama. Na platéia ganha destaque a jovem Daniella (Olivia Wilde), uma grande fã do escritor que sonha em também seguir carreira no campo literário. Ela consegue um encontro particular com seu ídolo e com seu jeitinho sedutor consegue informações sigilosas a respeito de suas inspirações e modo de escrever, assim o longa inicia um diálogo entre realidade e ficção na qual as três tramas citadas são interligadas, deixando no ar a dúvida se Hammond criou a história do autor frustrado e seu sucesso meteórico ou se ele realizou uma obra autobiográfica na qual assume implicitamente seu erro da juventude em busca do sucesso sem medir as consequências. Todavia, a parte protagonizada por Quaid acaba sendo involuntariamente a menos interessante, principalmente porque seu personagem mostra-se frio em suas ações e falas e não temos subsídios para julgar seu caráter ou participar de seu universo, aparentemente de alto padrão de vida. Podemos arriscar que é um deslumbrado com tudo que o sucesso acarreta, visto que afirma ser separado da esposa e não pensa duas vezes antes de convidar Daniella para uma conversa em lugar mais reservado.

O recurso da metalinguagem, no caso um livro dentro de outro, é dos mais interessantes, mas uma coisa é fazer alusão ou propor intertextualidades do tipo, porém, é bem difícil conduzir tramas paralelas, ainda mais quando são três envolvendo o mesmo objeto. Nossa curiosidade é instigada a tentarmos descobrir até onde estas histórias chegarão e como serão finalizadas, individualmente ou com um final único e uniforme. Bem, para quem gosta de produções que apostam em tramas entrecortadas e com um final arrebatador fica o aviso de que a conclusão neste caso dispensa o clímax, talvez uma forma de colocar o espectador para refletir tal qual um bom livro ao término de sua leitura. A narrativa, apesar de simples em sua essência, é apresentada de forma envolvente, mas que nunca chega a explorar ao máximo o potencial dos temas abordados. É comum que em projetos assim alguma trama possa ser ofuscada por outra mais interessante, no caso, o bloco protagonizado por Cooper é o que chama mais atenção por vários motivos. Além de ocupar a maior parte do tempo, também é o que atiça mais quem assiste, ainda mais quando entra em cena Irons interpretando uma figura misteriosa e complexa ao mesmo tempo cujo nome não é revelado. Ficamos na dúvida se ele quer apenas um agradecimento em público ou chegar a extorquir dinheiro do plagiador, o que potencializa a narrativa contida em seu livro, pois ficamos atentos se encontramos algum detalhe que nos ajude a decifrar a personalidade do escritor que deixa explícito em seu modo de falar que a escrita corre em seu sangue devido a forma pausada que articula seus lábios a fim de dar a entonação correta para cada palavra escolhida a dedo para exprimir sarcasmo ou melancolia, por exemplo. Já Cooper, antes de suas indicações aos Oscar, tentava desvencilhar sua imagem da série cômica Se Beber Não Case e encontrou um bom papel para mostrar sua verve dramática. Seu personagem, equilibrando-se entre momentos de euforia e de melancolia, mostra como as escolhas feitas na vida podem ditar rumos irreversivelmente. Quando procurado pelo dono do material que se apoderou, Jansen tenta colocar panos quentes na situação lhe oferecendo dinheiro, mas o escritor original quer que o rapaz aprenda a lição: não há castigo mais doloroso que carregar o peso de saber que seu sucesso é uma fraude e que mais cedo ou mais tarde irão cobrar um projeto tão bom quanto o primeiro e a máscara irá cair. As Palavras perde um pouco de seu impacto e brilhantismo justamente pela opção de descartar as consequências jurídicas e de reação por parte dos populares e da mídia caso o plágio viesse a tona, mas convence ao mostrar o auto-martírio de Jansen tentando remediar o passado. Ele seria um vilão ou um legítimo mocinho? Nem um e nem outro, apenas um ser humano comum tentando acertar e ludibriado pela euforia da possibilidade de vencer com o mínimo esforço. Nas mãos de cineastas mais experientes e corajosos, o longa poderia ter ganhado fôlego com a exploração da questão ética e sobre as dificuldades de sobrevivência no meio cultural, podendo inclusive chegar as badaladas premiações e festivais que adoram produções com um quê de intelectualidade acentuado.

Drama - 102 min - 2012 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

Marcelo keiser disse...

Sempre queria assistir a esse filme, mas nunca tive uma boa oportunidade para isso. Agora fiquei em dúvida. Gosto do elenco principal, e do gênero ao qual se encaixa. Além do enredo em si... Mas lendo seu texto vejo que as abordagens realizadas não foram muito felizes. Fica para o futuro...

abraço

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...