quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O PÂNTANO (2001)

NOTA 4,0

Usando a decadência de uma
família como metáfora a crise
generalizada da Argentina, obra
é uma opção de difícil digestão
O cinema argentino desde o ano 2000 tem sido reconhecido mundialmente e suas produções consideradas o que há de melhor na área nas regiões latino-americanas. Muito premiado e com o ator Ricardo Darín automaticamente eleito como um grande símbolo do desenvolvimento da arte cinematográfica no país, é certo que suas comédias e dramas familiares fazem sucesso por geralmente narrarem histórias de apelo universal, o que explica a ausência de barulho entre os populares quanto ao festejado entre os críticos O Pântano, trabalho de estreia da roteirista e diretora Lucrecia Martel. É muito difícil se sentir envolvido por um filme cuja estética é literalmente suja, embora a opção seja justificada pela trama ácida, crítica, melancólica e porque não desinteressante. Sim, a percepção de um filme varia de pessoa para pessoa e implica vários fatores, como cultura e experiência de vida, ainda que muitos certamente prefiram omitir suas verdadeiras opiniões ameaçados pelo peso de menções honrosas como dos festivais de Berlim e Sundance, por exemplo. Bater de frente com a opinião de críticos especializados que vêem beleza na lama pode ser a assinatura de seu atestado de burrice ou surpreendentemente provar sua coragem de ser diferente. As divergências de ideias é benéfico, só não vale não assistir e passar adiante falsos elogios rasgados a fim de parecer intelectual, o que realmente não é o objetivo deste texto. A quem interessar participar desta estranha experiência, lá vai a sinopse. Mecha (Graciela Borges) é uma mulher em torno dos 50 anos, mãe de quatro filhos jovens, mas que não se entende mais com o marido Gregorio (Martín Adjemian), entregando-se a bebida para a embriaguez a ajudar a ignorá-lo. Ele, por sua vez, se preocupa com a aparência procurando recuperar o frescor da juventude, mas também é adepto do álcool para esquecer problemas. Já Tali (Mercedes Morán), prima de Mecha, também tem quatro filhos, só que ainda crianças, e ama e se dedica ao máximo para o bem estar da família, inclusive do marido Rafael (Daniel Valenzuela) que ocupa seu tempo caçando. Para escapar do clima quente da cidade, todo o verão estas duas famílias combinam de passar uma temporada no povoado de Rey Muerto que abriga o sítio La Mandrágora, reduto de cultivo de pimentões vermelhos.               

A cidade de La Cienaga é conhecida por suas extensões de terras que se alagam facilmente com as fartas e repentinas chuvas que caem na região, o que provoca a formação de pântanos que são verdadeiras armadilhas para exterminar a população de animais. Carcaças ou bovinos agonizando fazem parte do cenário diário, ou seja, um local pouco inspirador para um convívio harmonioso, assim em pouco tempo as duas famílias passam a entrar em conflito por pequenos problemas do dia-a-dia. Sabendo do cotidiano doentio vivido pelos primos, Rafael e Tali evitam ao máximo o contato com os parentes a fim de proteger seus filhos de má influência, mas a beberrona e escandalosa Mecha parece não se conformar com a situação, afinal ela não se enxerga como um problema, todavia ela e o marido contemplam o vazio absoluto de suas vidas sem perceber. Admiram o nada e se embebedam a beira de uma imunda piscina, símbolo de que um dia eles tiveram posses e viveram momentos felizes, enquanto seus filhos tentam fugir dessa utopia se distraindo como podem, sendo que o marmanjo José (Juan Cruz Bordeu) parece ser o que mais ganha a atenção da mãe. Não seria errado dizer que o clã representa o reflexo da crise política, social e econômica que assolava a Argentina na época das filmagens. O outro casal, por sua vez, se orgulha da aparente normalidade de seu clã, mas na verdade se fazem de cegos para os problemas. Em maior ou menor grau, todos em sua casa também estão expostos a medos e inseguranças. O filho caçula Luciano (Sebastian Montagna), por exemplo, constantemente relata aos pais que vê assombrações que parecem uma mescla de cães com ratazanas e tem muita imaginação para tentar adivinhar o que existe no quintal do vizinho separado por um grande muro, mas como diz o ditado a curiosidade matou o gato. Se já não bastasse a família populosa, ainda existem os empregados da casa que carregam o estereótipo de serem preguiçosos, ignorantes e de caráter duvidoso. Paralelo aos dramas domésticos, Lucrecia entrecorta seu trabalho com relatos nos noticiários de TV a respeito de misteriosas aparições da Virgem Maria, situação que provoca a multiplicação de fiéis. No contexto da crise geral argentina, é como se fosse uma alusão de que apenas um milagre pudesse salvar o país da derrocada total. Assim, temos um mosaico do estado caótico que a Argentina vivia, um quadro desagradável pintado com diálogos ácidos, mas que podem soar enfadonhos para o espectador que implicar logo com as primeiras cenas em que Mecha literalmente bebe até cair a beira da piscina festejando sua vida desgraçada. O pântano do título se aplica ao nome da cidade traduzido, pode ser encarado como uma alusão a fétida piscina da casa ou ainda como uma metáfora a decadência dos personagens que estão afundando na lama em vários aspectos.

Na época do lançamento, Lucrecia declarou em entrevistas que a inspiração para a obra veio de memórias que tinha de sua própria família e que desejava realmente que desde o início do filme o espectador se sentisse desconfortável com a história que desejava contar. Bem, seus objetivos foram concretizados de um jeito ou de outro. A pessoa pode se entediar logo de cara ou se sentir estranhamente interessada em participar do cotidiano destas pessoas em meio a um lugar que transmite a sensação de umidade, frescor, ao mesmo tempo em que incomoda com sua claustrofobia e paisagem constantemente nublada. Tais sensações são transmitidas com perfeição pela fotografia que consegue quadros que remetem a algumas regiões interioranas do Brasil. Sim, pode-se dizer que a casa de veraneio que serve como cenário principal é equivalente a tantas e tantas construções espalhadas por nosso país cujos donos adquiriram em tempos de “vacas gordas”, mas hoje se encontram em estado de deterioração por falta de manutenção. No entanto, os dramas vividos pelos personagens, apesar de humanos e realistas, não atingem facilmente o emocional de quem assiste. Temos bons intérpretes em cena, mas o que eles querem expressar parece não chegar a lugar algum. É um amontoado de cenas, ora contemplativas ora com discursos acalorados, mas cuja mensagem principal se esvai aos poucos culminando em um final sem clímax algum. Analisando dramaturgicamente, é um trabalho que não segue aquele caminho certinho de começo, meio e fim. Sabemos onde ele se inicia, mas onde estas relações familiares e de amizade vão chegar não temos a mínima idéia. Já analisando artística e conceitualmente a obra ai sim podemos ver a beleza que os críticos viram. O pântano deve ser um lugar sufocante, feio, claustrofóbico e mórbido e Lucrecia conseguiu imprimir estas impressões com perfeição em cada frame de seu trabalho, não dando brecha para nem uma pontinha de humor, apenas um momento de descontração com música típica. Os filmes de arte têm como regra não precisar necessariamente entregar tudo explicadinho para o espectador e tampouco que tenha momentos arrebatadores de emoção e nesses aspetos O Pântano segue a cartilha direitinho. Cada cena quer provocar quem assiste a refletir, tirar suas próprias conclusões, compreender o passado dos personagens e imaginar o que pode acontecer com eles. Para quem curte um cinema mais cabeça, este trabalho é um prato cheio, mas até para os adeptos pode ser difícil encarar um repeteco. A mensagem nua e crua de crítica a uma sociedade sem esperança é de difícil digestão.

Drama - 96 min - 2001

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