segunda-feira, 14 de abril de 2014

ANACONDA

NOTA 3,0

Trash do início ao fim, suspense
tosco consegue entreter literalmente
causando risos involuntários, seja
pelos diálogos ou pelo visual da cobra
Vítimas de mutações genéticas ou geradas pela própria natureza em decorrência das ações em nome do progresso, animais tornam-se ferozes, com força descomunal e passam a atacar aos humanos. Essa é uma das premissas mais clássicas dos filmes trashs e coisas do tipo bombavam nos anos 80 até mesmo nas salas de cinema, mas com o tempo a repetição da fórmula acabou gerando produtos de nicho para atender exclusivamente o mercado de home vídeo. Ninguém mais queria pagar um dinheirão para ver em tela grande cães assassinos, ratos endemoniados, aranhas gigantes, vermes malditos, cobras superdesenvolvidas... Epa! Para esse último tipo de besta tinha público sim, caso contrário Anaconda não teria chegado aos cinemas com pinta de superprodução às portas do século 21. Na época do lançamento, enquanto Steven Spielberg aperfeiçoava sua técnica para dar vida novamente aos dinossauros e George Lucas preparava o resgate da franquia Star Wars apoiado em novas tecnologias, por exemplo, o diretor Luis Llosa (quem?) tentava fazer seu grande blockbuster com uma cobra gigantesca feita de borracha e partes mecânicas. Claro que há emprego de efeitos especiais, mas no caso eles parecem defeitos na maioria das cenas realçando a qualidade fake da produção que surpreendentemente chegou ao Brasil com a publicidade de que os americanos gostaram desta aventura capenga que no final das contas conseguiu cobrir seu orçamento e ainda gerar uma boa margem de lucro. O estilo exótico adotado deve ter ajudado. Nós pobres tupiniquins mais uma vez tivemos nossa pátria retratada como uma terra hostil e selvagem e não é exagero. As locações escolhidas e o modo de Llosa usar sua câmera passam a impressão de um país ainda não desbravado e o pior de tudo é a sensação de que a qualquer momento um índio, jacaré ou macaco vai tomar de assalto a tela, mas a estrela da festa é a cobrona que empresta seu nome ao título desta aventura, uma gigantesca e feroz espécie que é quase uma lenda do folclore nacional. Muitos dizem que ela realmente existe e em grandes quantidades embrenhadas nas regiões de mata fechada da Amazônia, enquanto outros afirmam que cobras do tipo fazem parte da família de espécies já conhecidas, mas que acabaram superdesenvolvidas por diversos fatores. Bem, para que se preocupar com detalhes quando os próprios envolvidos na produção do longa não se esforçaram para imprimir credibilidade à obra, afinal ao que tudo indica este produto foi lançado com o intuito de devolver status a um subgênero esquecido e que tem seu público fiel que consegue enxergar no lixo o luxo.

Llosa já havia passeado por terras latinas cinco anos antes para filmar Inferno Selvagem, aventura obscura estrelada por Sandra Bullock, mas parece que não aprendeu com seus erros e mais uma vez quis explorar a exótica imagem que muitos têm a respeito dos países que se encontram ao sul da linha do Equador no hemisfério ocidental. Para uma produção cuja grande diversão é descobrir em que condições cada personagem será assassinado e quem sobrará para contar história, é um exagero três cabeças trabalhando em cima de um mesmo fiapo de argumento. Hans Bauer, Jim Cash e Kack Epps Jr. assinam o texto que narra as desventuras de um grupo de pesquisadores que cai nas mãos de um homem sem escrúpulos. O professor Steven Cale (Eric Stoltz) e a cineasta Terri Flores (Jennifer Lopez) estão em busca de uma tribo perdida da Amazônia para filmar um documentário. Na equipe ainda estão Danny (Ice Cube), Warren (Jonathan Hyde), Kari (Denise Kalberg) e Gary (Owen Wilson), todos eles com personagens minimamente desenvolvidos, afinal marcam presença apenas para a dona anaconda ter opções de cardápio. Viajando pelo rio Amazonas em um precário barco, logo o grupo se junta ao aventureiro Paul Sarone (Jon Voight) que promete auxilia-los na busca, mas não demora a abortarem a missão diante dos mistérios e perigos que parecem cercar a região. O guia então insiste em indicar o melhor caminho de volta, mas na realidade tem um plano e cria um motim para conseguir ficar com a embarcação para assim poder tentar encontrar a lendária cobra. Todos se revoltam, mas não havia alternativa a segui-lo nesta loucura a não ser que eles próprios se livrassem do golpista. Em meio a intrigas, brigas e momentos piegas de sentimentalismo, os personagens vão sendo atacados pela anaconda que vira e mexe é atraída até eles por Sarone quando na verdade os outros a querem bem distante. O conflito é raso, pois o show é da titular que aparece em cena fazendo movimentos audaciosos, ou melhor, fantasiosos. Ela sobe em árvores com rapidez, se enrola nas vítimas feito serpentina e pega presas no ar como se fosse dotada de características das aves. Ela inda tem o dom das sete vidas tal qual um gato, pois escapa de uma saraivada de tiros e sobrevive a um incêndio. Tudo isso é apresentado com computação gráfica precária, mas o conjunto acaba sendo divertido por provocar risos involuntários, requisito essencial para uma produção trash que se preze. E não é só a cobra que é literalmente dura de matar. Os humanos sofrem o diabo, mas mesmo feridos são capazes de realizar feitos dignos de super-heróis, sendo o mais incrível de todos o personagem de Voight que parece ser indestrutível, um papel ridículo para um ator de talento e que já viveu seus tempos de glória. Não se pode dizer que este engodo foi feito para alavancar a carreira de Jennifer Lopez, mas de certa forma ajudou. A popularidade da fita e de sua imagem de heroína abriram portas para novos e bem melhores trabalhos, mas o mesmo não se pode dizer de Eric Stoltz, figurinha mais apreciada nos anos 80 e que batalhava na década seguinte para não ser enterrado vivo, porém, o próprio fez pior para sua carreira sujeitando-se a virar comida de réptil. 

Já Ice Cube continua com sua vidinha profissional sem graça, vivendo um bandido aqui, um policial acolá, mas nunca se destacando justamente por escolher mal os seus trabalhos ao contrário de Owen Wilson que percebeu que papéis mais sérios não lhe caem bem e preferiu enveredar pelo lado da comédia ganhando muito destaque. Bem, não se pode dizer que o loirinho já não demonstrava sua veia cômica nesta aventura trash. É impagável a cena em que a anaconda passeia bela e faceira pelas águas do rio com o personagem Gary dentro da barriga com a silhueta do rapaz bem marcada no corpo esguio da bicha dando até para perceber sua expressão de dor. Para não dizer que tudo é mal feito, a introdução com o feioso Danny Trejo, que ficou famoso interpretando o papel-título de Machete, consegue atingir um clima interessante como se a câmera fizesse as vezes dos olhos da anaconda prestes a atacá-lo e a cena de explosão de uma barragem que abrigava vários ninhos de cobras que depois são lançadas para a embarcação dos personagens consegue transmitir asco ao espectador justamente por usar serpentes de verdade, mas lá vem o Voight estragar tudo com seus discursos de admiração a tais bichos, inclusive insinuando que nós brasileiros os idolatramos. Pensam que somos primitivos? Não, nem tanto. Se fossemos ignorantes os roteiristas não nos representaria com o personagem Mateo (Vincent Castellanos), também um bandido, mas que fala com sotaque castelhano! Talvez percebendo o preconceito implícito no papel, Llosa faz questão que nosso hermano seja o primeiro a ser devorado para aliviar nossa vergonha. Contudo, não há como abaixar a cabeça para o excesso de erros existentes em Anaconda. Roteiro com furos, cenas ridículas, incoerências na ambientação e contexto, interpretações fraquíssimas e efeitos especiais constrangedores. Tá bom ou quer mais? Ah, não se pode deixar de comentar da cachoeira cujo fluxo da água é de baixo para cima. É só vendo para crer. A nota razoavelmente alta deve ser interpretada como uma reverência a um subgênero cinematográfico que já teve sua importância em algum momento na sétima arte, principalmente no período do boom das videolocadoras, e até para contemplar o clima melancólico conquistado pela equipe de fotografia, pena que, embora com belas tomadas da Amazônia sob céu extremamente nublado, reforcem a imagem de que o Brasil é uma imensa selva.  Em tempo: o longa gerou três continuações, sendo que apenas a primeira tiveram a coragem de lançar nos cinemas. Cada novo episódio consegue o feito de declinar ainda mais em todos os aspectos negativos do original.

Suspense - 89 min - 1997 

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