sexta-feira, 25 de abril de 2014

MADRUGADA DOS MORTOS

NOTA 7,5

Apesar de ser mais uma história
sobre humanos fugindo de zumbis,
longa injeta ânimo com humor,
adrenalina e mortos-vivos repaginados
Quem decide assistir um filme a respeito de zumbis quer ver essas criaturas bizarras aos montes e o máximo de tempo possível na tela, então para que perder tempo com blá-blá-blá? Recém-saído da posição de espectador, o diretor Zack Snyder fazia sua estreia com Madrugada dos Mortos em grande estilo e justamente atendendo aos anseios dos fãs de terror: partindo direto para a ação. Em menos de cinco minutos a protagonista Ana (Sarah Polley) já é vítima de uma adolescente zumbi, ou melhor, seu marido é atacado e transformado também em um morto-vivo, mas ela consegue escapar do ataque. Tanta agilidade pode ser justificada como uma forma de inserir os zumbis em uma nova realidade. George Romero é considerado até hoje o mestre dos filmes de terror desse tipo e ele é quem criou o estereótipo de que estas criaturas bizarras deveriam andar vagarosamente, tropeçando entre as próprias pernas e com olhar entorpecidos, modelos que assombraram filmes como Zombie – O Despertar dos Mortos, do próprio cineasta lançado em 1979. Snyder, certamente na esteira do sucesso um ano antes de Extermínio de Danny Boyle, decidiu fazer uma refilmagem do longa de Romero, mas acabou fazendo muito mais que uma homenagem a esse homem e conseguiu desvincular a imagem de que terror com zumbis é sinônimo de filme trash, algo conquistado com criatividade e também um bom orçamento disponibilizado pelo estúdio Universal que enxergava a possibilidade de resgatar um gênero de nicho que andava adormecido. A produção foi bem nas bilheterias mundiais, mas mesmo assim não gerou uma continuação e produtos similares que vieram depois não causaram barulho. Talvez tenha sido melhor assim, pois dessa forma a obra de Snyder conseguiu manter-se em evidência e hoje já pode ser visto como uma pequena joia do terror lançado nos anos 2000, um produto diferente que ousou brigar pela preferência do público enfrentando a avalanche de remakes de horror orientais tão em alta na época. Além da repaginada no comportamento dos zumbis, o diretor, egresso do mercado publicitário e de videoclipes, injetou dinamismo e humor e por trás de toda a correria, jatos de sangue e vísceras o longa esconde uma crítica social. O que decepciona é que ao término não encontramos uma justificativa plausível para o título nacional, mas isso é o de menos.

O roteiro de James Gunn, como já dito, não se preocupa em dar explicações para a existência dos zumbis, descartando hipóteses relacionadas a cultos de satanismo ou químicas que poluíram o solo e fizeram os cadáveres voltarem à vida, as desculpas mais comuns das produções trashs de antigamente. A certa altura simplesmente é mencionada uma frase profética que, em outras palavras, quer dizer que o Inferno já está tão lotado que os mortos são obrigados a vagar pela Terra. Para que tentar justificar o que não tem explicação, ainda mais quando o objetivo é entreter e saciar a sede de sangue do público aficionado? Contudo, isso não quer dizer que o longa é desprovido de clima de tensão, afinal de contas o próprio espectador teoricamente já está com o espírito preparado e na espera de que a qualquer momento um morto-vivo vai dar as caras. Os créditos iniciais dão uma mãozinha com cenas rápidas e impactantes entrecortadas por noticiários da TV que já indicam que um fenômeno inexplicável está tomando conta do mundo todo. A citada Ana é enfermeira e depois de um exaustivo plantão chega em casa e nem dá bola para os informativos que não param de pipocar informações sobre mortos que estão ganhando as ruas e invadindo casas em busca de carne humana. Detalhe, cada nova vítima acaba se tornando também um zumbi. A enfermeira só toma conhecimento da gravidade da situação quando foge de casa, sequências que, diga-se de passagem, chamam a atenção pelo apuro técnico para transmitir a nítida sensação do caos instaurado, com direito a perseguições alucinantes, incêndios e acidentes de carros. Rapidamente Ana encontra alguns outros sobreviventes, assim se junta ao policial Kenneth (Ving Rhames), ao valentão Michel (Jake Weber), o malandro de rua Andre (Mekhi Phifer) e sua esposa Luda (Inna Korobkina), que está grávida, e todos procuram abrigo em um shopping center, o lugar que julgam ser mais seguro. Lá eles se juntam a alguns seguranças que pouco ajudam, mas não demora muito para os canibais invadirem o estacionamento e cercarem o prédio. Ao contrário do que geralmente acontece nesse tipo de produção, quando ficamos na expectativa de quem será a próxima vítima, neste caso torcemos para que os zumbis não consigam invadir o shopping, pois queremos aproveitar ao máximo a convivência desse grupo de estranhos que passam por apuros e momentos divertidos, isso porque é fácil nos identificarmos com os personagens que se comportam de maneira crível diante do absurdo da situação. Apesar de a premissa ser semelhante a tantos outros filmes de zumbis, Snyder procura contornar a situação com humor e de forma mais realista, afinal presos em um shopping sem saber se sobreviverão e se isso acontecer quando será, o que fazer para passar o tempo? Lágrimas e unhas para roer uma hora cessarão, então o jeito é tentar manter a mente ocupada para não cai no desespero. Assim, eles passam a explorar o shopping deserto, jogam carteado, conversam sobre suas vidas e até articulam uma maneira de se comunicar com outro vivo que também está ilhado em um prédio da vizinhança. Não tem como não dar risada vendo os humanos se divertindo no topo do shopping enquanto os zumbis lá embaixo se esforçam para tentar invadi-lo. Só faltou fazerem um churrasquinho na laje.

No conjunto, focar boa parte do tempo nas atividades e emoções dos humanos isolados reforça que o filme não é banal. A mensagem original criticava o consumismo desenfreado que prometia fazer a cabeça da geração anos 80, mas a opção de manter as ações dentro de um centro de compras na refilmagem ganha uma outra conotação: tal espaço serve como uma fortaleza, um local onde pessoas poderiam sobreviver por tempo indeterminado sem se importar com o que acontece do lado de fora. O problema é que tal metáfora ao estilo de vida de quem opta por morar em condomínios fechados ou edifícios onde não é preciso sair para fazer mais nada praticamente acaba sendo diluída ou até mesmo anulada em meio a cenas de tensão e outras que flertam com o bizarro. Os mais antenados devem gargalhar com uma sequência em que os sobreviventes matam o tempo exterminando celebridades que também se tornaram mortos-vivos, como Burt Reynolds e Rosie O’Donnell, uma forma de mostrar que ninguém estava a salvo e saudar o passado, mais especificamente o período oitentista, época que foi o auge desse tipo de produção e também o início de sua decadência. Para reforçar a homenagem, temos situações grotescas (em sentido positivo) como o nascimento de um bebê-zumbi e a transformação de uma velha obesa em morta-viva sanguinária. Aliás, aqui os humanos recém-mordidos demoram um pouco para perceberem os efeitos da contaminação, o que injeta um pouco mais de tensão, pois os que gozam de saúde ao mesmo tempo em que querem manter o espírito de solidariedade e acreditar que existe uma solução para o problema também ficam receosos de manter um doente entre eles que a qualquer momento pode perder a razão. Madrugada dos Mortos é produto do tipo ame ou odeie. Não foi feito para mudar a cabeça de quem assumidamente não curte zumbis e nojeiras, mas sim para agradar aos fãs do estilo e quiçá angariar novos adeptos. Divertido e ligeiro, pode deixar alguns descontentes por não dar muito espaço para os zumbis, diga-se de passagem, muito bem caracterizados e articulados tornando-os realmente ameaçadores, mas a adrenalina e fluência da história compensam tal falha, assim como também redime o longa da superficialidade de seus personagens, não havendo nem a exploração do clichê do traidor ou metido a espertinho que nos minutos finais tenta se dar bem e ferrar com os demais. Por outro lado, um dos policiais que em um primeiro momento vende a ideia de vilania acaba virando a casada e dando pinta de herói. Aos apressadinhos, prestem atenção: quando estiverem falando cobras e lagartos pela conclusão abrupta, fiquem ligados que durante os créditos finais, de forma frenética e entrecortada, temos um final digno, ainda que previsível.

Terror - 100 min - 2004 

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2 comentários:

Marcelo Keiser disse...

Naquela época Zack Snyder já dava indícios que vinha para estremecer o cinemão a partir desse remake, que para mim é um dos poucos filmes que se mostram válidos numa infinidade de outras refilmagens já realizadas. Nunca assisti ao original, mas sei bem de sua reputação. Adoro esse filme!

abraço

Ramon Prates disse...

Esse sem dúvidas é o melhor filme de Zack Snyder.

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