quinta-feira, 3 de abril de 2014

NEM POR CIMA DO MEU CADÁVER

NOTA 5,5

Com piadas e personagens
clichês, comédia romântica
irregular cumpre razoavelmente
seu propósito de diversão ligeira
Se todas as ideias possíveis para comédias românticas em plano físico já foram usadas e abusadas, o jeito é imaginar uma história de amor envolvendo o além. Bem, a temática não é nada original e já serviu de inspiração também para dezenas de dramas e até mesmo para desenhos animados, mas o então novato diretor e roteirista Jeff Lowell acreditava que poderia tirar leite de pedra e assim surgiu Nem Por Cima do Meu Cadáver, uma grande reunião de clichês que no final das contas não é o lixo que se podia esperar. Até que é um entretenimento leve e que deve agradar aos fãs do gênero que adoram um repeteco. Para os chatos de plantão, um filme bobinho de vez em quando não faz mal a ninguém. A trama começa com os preparativos do casamento do veterinário Henry (Paul Rudd) com a perua escandalosa Kate (Eva Longoria Parker), um casal que obviamente não daria certo e Deus quis dar uma forcinha para evitar mais um divórcio relâmpago para inflar as estatísticas. Enquanto verifica cada detalhe da festa pessoalmente, a noiva surta ao receber a sua tão sonhada estátua de gelo em formato de anjo que adornaria o evento em local de destaque. O problema é que o artista a moldou sem asas para fazer uma obra mais estilizada, porém, Kate queria o modelo tradicional. Após um breve e insano bate boca, a pesada estátua cai sobre a dondoca que é então convidada a comprovar com seus próprios olhos que os anjos não precisam necessariamente ter asas. Ela demora um pouco a compreender o que lhe aconteceu, mas acaba aceitando sua morte repentina. O tempo passa e era de se esperar que Henry demorasse a se recuperar do baque, mas sua irmã Chloe (Lindsay Sloane) está disposta a acelerar seu retorno a vida normal de um jovem solteiro. Certo dia ela o convence a ir com ela até a casa de Ashley (Lake Bell), uma moça trambiqueira que banca a médium nas horas vagas. Chloe já sabia que a consulta resultaria em fracasso, mas está disposta a convencer o frustrado ex-noivo de que Kate esteja onde estiver deseja que ele seja feliz e arranje uma nova companheira. Eis que ela tem a ideia de roubar o diário da falecida e convence Ashley a fingir manter contato com a cunhada para instigar Henry a dar novos rumos para sua vida.

O plano começa a dar certo. Um encontro por acaso em um supermercado pouco conhecido já deixa Henry com a pulga atrás da orelha tamanha a coincidência, mas quando Ashley começa a detalhar episódios que só ele e a falecida tinham conhecimento seu interesse aumenta. Assim, os dois passam a se encontrar frequentemente e naturalmente passam a namorar, mas o espírito inquieto de Kate está de plantão para atrapalhar o relacionamento. Dizem que quem mexe com forças ocultas acaba atraindo espíritos e Ashley de tanto brincar de sensitiva passa a receber constantes visitas da fantasminha nada camarada que decide infernizar a rival até que ela resolva se afastar do noivo que ela pretende jamais abandonar. Até que a morte os separe? Não! Kate quer justamente a morte de Henry para que finalmente fiquem juntos. Brincadeirinha, ela não é tão má. Ela quer ver o veterinário bonitão com saúde e feliz, só não o quer ao lado de outra mulher. A primeira vista é óbvia a paródia ao clássico Ghost – Do Outro Lado da Vida devido ao argumento do cônjuge desencarnado que frequenta livremente o mundo dos vivos para proteção do companheiro, além é claro do gancho da vidente charlatã que acaba conseguindo contato com um espírito, mas Lowell faz uma colcha de retalhos com piadas já testadas e aprovadas a exaustão, todavia, que funcionam razoavelmente graças ao carisma de Rudd e Bell que formam um casal agradável. O visual da moça lembra um pouco o da ruiva Amy Adams, atriz já muito requisitada na época e que possivelmente tenha sido pensada para o papel, o que explicaria a semelhança do visual da personagem, mas falta alguma coisa para a intérprete no caso brilhar, assim como seu interesse amoroso que já viveu melhores momentos como coadjuvante em outras comédias. As piadas e situações manjadas certamente colaboram para que os protagonistas sejam apenas uma condensação de tipos já apresentados em tantas produções do gênero. O triângulo amoroso é fechado por uma espécie de vilã que não se enxerga como tal encarnada por uma atriz tentando aproveitar a boa fase da carreira, já que Longoria era uma das estrelas do seriado “Desperate Housewives”. Sua imagem transpira latinidade e seu exagero em alguns momentos parece dotar a obra de certo ar de novela mexicana ou de série americana de TV capenga, mas cumpre seu papel de alma-capeta aparecendo nos lugares mais inusitados para pregar sustos ou às vezes para injetar piadas de flatulências totalmente desnecessárias.

Dizer que esta comédia só existe para servir de veículo publicitário para Longoria não é errado se pensarmos na febre que foi seu seriado, mas na realidade ela é quem se saiu pior no final das contas. Kate é um tipo arrogante demais e que não desperta simpatia alguma no espectador. Em alguns momentos suas tentativas de azucrinar Ashley lembram os truques usados por Elizabeth Hurley em Endiabrado para convencer o deprimido personagem de Brendan Fraser que não valia a pena sonhar com uma vida semelhante a de outro, mas sim procurar mudar o que havia de errado em sua própria, porém, o agravante da burrice de Kate, sempre vestida com modelitos elegantes e que acentuam as curvas e formas de seu corpo, ou melhor, espectro, ajuda a tornar suas aparições entediantes, isso sem falar em sua voz enojada. Por onde Longoria hoje em dia? Talvez tragada pelo além. Completando o elenco, temos Jason Biggs, o eterno moleque saliente da cinessérie American Pie, aqui vivendo Dan, o amigo homossexual da médium que a ajuda a tocar um serviço fuleiro de buffet a domicilio. Mais contido e sem dar muita pinta, o ator aparece pouco, mas tem sua importância na reta final para confirmar a previsibilidade do filme, ainda que seu personagem evolua de forma coerente em meio ao desespero de Lowell em amarrar as pontas do enredo. É realmente preciso ter muita coragem para levar adiante os planos de filmagem de uma comédia romântica que desde a premissa exala o cheiro de repeteco, mas é bom lembrar que algumas receitas nunca saem de moda. O problema é carregar demais ou faltar tempero. Neste caso, há excesso e ausência de elementos se alternando, como provam respectivamente cenas como a constrangedora primeira noite de amor dos protagonistas e a visita inicial pouco convincente de Kate à Ashley. Por outro lado, temos sequências simples e eficientes como a confusão no vestiário da academia que faz a médium surgir seminua em meio aos machos bombadões. Não desprezando a aparição de um patético exorcista e nem mesmo o corre-corre para chegar ao aeroporto antes da fuga de um dos protagonistas para assim garantir o happy end, Nem Por Cima do Meu Cadáver claramente não queria revolucionar o gênero, apenas servir o trivial, uma reunião de cenas previsíveis que no conjunto funcionam para entreter em momentos de ócio e até funciona como um programa para curtir em família, basta deixar o espírito crítico de lado.

Comédia romântica - 95 min - 2008 

-->
NEM POR CIMA DO MEU CADÁVER - Deixe sua opinião ou expectativa sobre o filme
1 – 2 Ruim, uma perda de tempo
3 – 4 Regular, serve para passar o tempo
5 – 6 Bom, cumpre o que promete
7 – 8 Ótimo, tem mais pontos positivos que negativos
9 – 10 Excelente, praticamente perfeito do início ao fim
Votar
resultado parcial...

Nenhum comentário:

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...