quarta-feira, 16 de abril de 2014

O FANTASMA DE LUCY KEYES

NOTA 3,0

Monótono, previsível e sem
sustos, analisando o conjunto
é possível perceber ganchos e
até mesmo clichês desperdiçados
Entre os temas mais comuns dos filmes de horror e suspense temos as casas assombradas, os zumbis, as almas penadas, as crianças endemoniadas, os monstros clássicos, o amor materno e... Epa! A pura e singela relação de amor e carinho entre mãe e filho pode causar calafrios? A resposta é sim e a tendência vem de longa data. A Profecia e Halloween já demonstravam isso nos anos 70, mas nos últimos anos esse improvável casamento de ideias ganhou força e cada vez mais é oferecido ao público de forma banal, culpa das fitas de terror orientais que tornaram corriqueiras as histórias de espíritos de crianças brutalmente assassinadas em busca de um carinho de mãe, como em O Chamado e Água Negra. Talvez tentando adicionar um novo gostinho a essa receita o diretor e roteirista John Stimpson resolveu inverter a ordem dos fatores, mas sem alterar o resultado. No suspense O Fantasma de Lucy Keyes é a alma de uma mãe desesperada em busca da filha desaparecida que tira o sono dos vivos, mas o longa repete os erros e clichês de outros filmes semelhantes. O casal Guy (Justin Theroux) e Joanne Cooley (Julie Delpy) estão de mudança para a pequena cidade de Princeton, na Inglaterra, com as filhas pequenas, Molly (Kathleen Regan) e a caçula Lucy (Cassidy Hinkloe). Eles compraram uma antiga casa localizada aos pés de uma montanha cujas terras podem abrigar futuramente oito moinhos de ventos para geração de energia que trariam vários benefícios para a região em termos financeiros e para o meio ambiente. Guy é o responsável por implantar tal projeto, mas logo no primeiro encontro para explanações ao público encontra resistência da população extremamente tradicionalista e avessa a mudanças. Uma das manifestantes mais fervorosas é a Sra. Gretchen Caswell (Jamie Donnelly) que dá a entender que existe algum empecilho para a retirada da mata que envolve e cobre a montanha, algum tipo de crença que fez com que até hoje a região se privasse do progresso. Samantha Parker (Brooke Adams), a prefeita, diz que uma lenda boba cerca o local, algo envolvendo os antigos donos da fazenda vizinha a propriedade dos Cooley, mas Joanne não fica tranquila, ainda mais porque na noite anterior a reunião ela teve estranhos pesadelos e afirma ter ouvido vozes do lado de fora da casa.

A perturbação noturna volta a tirar o sono de Joanne que ouve a porta do celeiro anexo a sua casa batendo com o vento, mas quando vai fechar vê um estranho vulto seguindo rumo a floresta. A partir desta visão, a moça fica obcecada pela ideia de desvendar os mistérios que rondam sua casa e acaba desencavando uma história literalmente de outro mundo. Não é surpresa alguma revelar o que acontece até porque quem é escolado no gênero deve saber desde os créditos iniciais os rumos desta trama, afinal quem é louco de ir viver em uma casa velha e isolada hoje em dia? Como diz o ditado quem procura acha e Joanne fica sabendo do desaparecimento há cerca de 250 anos de uma garotinha chamada Lucy Keyes, filha da primeira família a habitar sua casa atual. A menina certa vez entrou na floresta e desapareceu. Muitos acreditavam que ela teria sido adotada por índios e tal fofoca fez com que sua mãe Martha enlouquecesse a ponto de matar os membros das tribos que cruzassem seu caminho. Todos moradores locais tentaram ajudar nas buscas por muito tempo, mas somente a mãe não desistiu e até o fim de sua vida a procurou e assim surgiu a lenda de que o fantasma de Martha só sossegaria quando encontrasse sua Lucy, por isso a floresta deveria ser mantida em sinal de respeito. Captou o drama? É óbvio que Joanne se apavora, pois tem certeza que o espírito está rondando sua casa em busca de sua filha mais nova. Os Cooley já haviam perdido uma criança, mas isso é só citado a certa altura infelizmente, mas este gancho bem explorado poderia dotar os protagonistas de uma carga dramática que poderiam tirar o longa da mesmice. Antes fosse apenas este o escorregão de Stimpson na condução deste suspense. Tentando seguir a risca a cartilha que consagrou o gênero, o diretor se cercou do maior número possível de clichês, mas não soube trabalhá-los, nem mesmo apresentando soluções óbvias, sendo que no conjunto muitas situações parecem simplesmente jogadas no enredo e que propriamente não agregam nada, apenas preparam o espírito do espectador para algo que jamais atinge seu clímax, a começar pelo sumiço de Lucy logo após os créditos iniciais e o reencontro com a menina dando trela a um desconhecido. Nada que acontece depois justifica esses probleminhas, assim como também não causa impacto algum ver o quanto ela se sente atraída por um quarto com janela quebrada ou o fato de que ela parece conversar com um amigo imaginário. Nada disso decola. Outros problemas se referem a inserção de personagens sem função. Logo que chegam à cidade, os Cooley recebem a visita dos vizinhos que se espantam ao saber o nome da filha caçula deles, tudo para reforçar o óbvio argumento que o título já faz questão de ressaltar.

Mais tarde, a vizinha Scheila (Michelle Greene) ao ouvir os gritos de Joanne dá a entender que a chegada de novos moradores na casa há anos desabitada acordou os espíritos adormecidos e ficamos sabendo que ela seria uma das descendentes dos Keyes. E mais uma vez nada acontece. Já a Sra. Caswell se apresenta como a bruxa da história, aquela típica mulher misteriosa e com falas enigmáticas e proféticas, mas a certa altura simplesmente a personagem some, não tendo direito nem a clássica fala “eu avisei” quando a crendice é afrontada. Algumas sinopses vendem a ideia que o casamento dos protagonistas está por um fio, o que poderia ser provocado pela citada perda de um terceiro filho cuja razão não é revelada, mas o que vemos na tela está longe de uma crise conjugal, ainda que o casal pareça mais amigos morando juntos que marido e mulher. É uma pena. O desenvolvimento de um perfil psicológico desequilibrado, principalmente para Joanne, poderia transformar O Fantasma de Lucy Keyes em uma obra marcante, mas o resultado obtido por Stimpson é apenas regular por optar por uma construção de clima de mistério mais aprofundada, porém, nos minutos finais isso se revela frustrante diante de tantas pontas soltas que ficam e o clímax ser prejudicado pela inserção de péssimos efeitos especiais e a tradicional corridinha para resolver apenas o conflito principal e não estourar o tempo previsto. É claro que esta é uma produção independente, portanto, com orçamento menor, mas isso não impediria o uso da criatividade na condução do texto. Difícil entender como Julie Delpy, que tem no currículo obras mais expressivas inclusive como roteirista, tenha aceitado estrelar algo tão comum e descartável. Para não dizer que tudo é ruim, a atenção do espectador pode ser mantida pelo personagem Jonas Dodd (Mark Boone Junior), vizinho dos protagonistas que é conhecido por problemas mentais. Tirando o sossego de Guy por sua mania de juntar restos de moluscos para alimentar seus porcos, ele é apresentado como uma espécie de guardião da região para evitar o aparecimento de fantasmas e terá muita importância no desfecho da história que, confusa, não deixa claro alguns pontos que podem ser refletidos posteriormente a quem se sentir incomodado pelo fato de uma premissa com potencial razoável ter sido resumida a um passatempo esquecível.

Suspense - 90 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

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