terça-feira, 29 de abril de 2014

O NÚCLEO - MISSÃO AO CENTRO DA TERRA

NOTA 1,0

Mais uma bomba cinematográfica
acerca de catástrofes peca em
vários aspectos, além de testar a
paciência com sua longa duração
Durante os anos 50 e 60 o cinema temia a concorrência e a popularidade da televisão e começou a ousar mais para atrair público. Dessa forma, milhares de pessoas do mundo inteiro experimentaram a até então inédita sensação de terror e impotência diante do desconhecido com produções como O Dia em que a Terra Parou e Guerra dos Mundos. Filmes do tipo traziam como publicidade extra o uso de efeitos especiais revolucionários, além de narrativas que faziam alusões a problemas da época usando elementos alegóricos, como a invasão de extraterrestres, e que já diziam que os próprios seres humanos seriam os responsáveis pela degradação da Terra. Anos mais tarde, tornaram-se populares os filmes-catástrofes, produtos que também colocavam as pessoas em situações de risco, perigos ocasionados pela revolta da natureza ou por falhas técnicas de meios de transportes ou construções que prometiam modernidade e segurança. Com o tempo, produções dos tipos citados acabaram se tornando raros lançamentos, pois todas as possibilidades de destruição do mundo já haviam sido exploradas, contudo, sempre tem um desocupado de plantão e assim o diretor Jon Amiel resolveu cometer um insulto chamado O Núcleo – Missão ao Centro da Terra. Realmente, o longa é um dos piores lançados na década de 2000, quiçá da História do cinema. Foi mal, isso é exagero. Se tivesse sido lançado no mínimo trinta anos antes (ele é de 2003) talvez este imbróglio poderia ter sido um sucesso, pois se encaixa razoavelmente ao estilo das produções populares da época, todavia, não há motivos para um filme desse tipo ter sido produzido em pleno século 21 e nem adianta dizer que foi preciso esperar tecnologia avançada para tornar o projeto realidade, pois os efeitos especiais são para lá de toscos. Às vésperas do lançamento, um ônibus espacial sofreu um desastre e obrigou o diretor a cortar uma importante cena em que coincidentemente os fatos fictícios faziam alusões aos reais, mas nem isso ajudou o longa que não conseguiu recuperar nem metade de seu orçamento nas bilheterias. Antes de continuar com as críticas negativas rasgadas, vamos ao mirabolante enredo escrito por John Rogers e Cooper Layne. Estranhos fenômenos começam a chamar a atenção dos cientistas, desde o comportamento estranhos de animais, passando por mudanças climáticas bruscas até as mortes simultâneas e inexplicáveis de pessoas com problemas cardíacos, problemas que parecem atingir o mundo inteiro. Para analisar o caso, é chamado o geólogo Josh Keyes (Aaron Eckhart) que chega a conclusão de que o núcleo da Terra parou de girar inexplicavelmente e isso afetou o campo eletromagnético que envolve e protege o planeta.

O argumento, explicado cheio de termos técnicos e científicos só pra chatear o espectador, poderia ser resumido em termos ao velho problema da camada de ozônio visto que a principal consequência seria a incapacidade dos raios de sol serem filtrados, assim a Terra ficaria superaquecida e levaria ao extermínio de todas as espécies de seres vivos em decorrência de outros efeitos negativos. Todavia, seguindo esse caminho mais lógico iria por água abaixo a ideia principal: a exploração do núcleo do planeta, área que provavelmente 99,9% dos habitantes não tem sequer ideia de que existe. A prova é que Keyes usa uma maçã para exemplificar sua teoria a militares e cientistas desatualizados partindo-a ao meio para demonstrar onde fica o núcleo e chega a atear fogo nela para demonstrar o que pode acontecer com a Terra caso algo não seja feito o mais rápido possível. Se pessoas teoricamente entendidas precisaram de uma explicação tão didática, imagina para os pobres e leigos espectadores. Keyes então organiza uma expedição para tentar reiniciar o movimento do centro a bordo de uma supernave capaz de resistir a altíssimas temperaturas. Em sua companhia estão a Major Rebecca Childs (Hilary Swank), o Comandante Robert Iverson (Bruce Greenwood), o inventor da nave Dr. Ed Brazzleton (Delroy Lindo) e seu pretensioso rival, o Dr. Conrad Zimsky (Stanley Tucci). Com o consenso do governo norte-americano, reforçando a ideia de que o destino da humanidade está nas mãos deles, embora até o presidente seja acusado a certa altura de ter ajudado a provocar o problema por aprovar experiências perigosas sem levar em consideração possíveis implicações, só para não dizer que a expedição é patriota ao extremo temos um único estrangeiro na tripulação, Serge (Tchéky Karyo), apenas para fazer número. Boa parte da primeira hora de filme é dedicada as apresentações destes personagens afinal temos que estar íntimos para sofrer quando eles estiverem vivenciando os iminentes perigos desta missão que tem por finalidade detonar uma bomba nuclear no miolo do mundo para ele voltar a pegar no tranco. Como somente os cientistas podem ter alguma noção de como é o tal núcleo, Amiel quer nos fazer acreditar que essa região é como um vulcão em erupção, com lava incandescente e de cores vivas que derrete tudo o que vê pela frente. Para exemplificar isso, um dos tripulantes é comicamente sugado pelo efeito fake dessa massa nuclear. De qualquer forma, talvez se focasse a atenção neste sexteto responsável (ou deveria ser) pela parte de adrenalina do enredo e desenvolvesse melhor as situações de tensão que se envolvem, o longa poderia ser diferente, mais tolerável, porém, a trama ainda tem que dar conta de mais uma meia dúzia de personagens que estão comandando a exploração de dentro de uma sala equipada com ar condicionado, modernos computadores e lanchinho grátis em solo seguro. Bem, quase seguro.

Na turminha do bem bom está o jovem hacker Theodore Donald Finch (DJ Qualls), ou simplesmente Rat, um cara estranho e com uma porção de processos nas costas por conta de crimes cibernéticos. Devido a sua experiência em invadir sites, ele é procurado por autoridades para colaborar impedindo que notícias sobre a missão dos cientistas e a respeito de catástrofes cheguem ao público, um tremendo furo do roteiro. A ponte Golden Gate em San Francisco vai abaixo atingida por um super-raio enquanto em Roma as ruínas do Coliseu acabaram mesmo virando pó graças a uma tempestade elétrica e nessas um monte de gente morre. Como seria possível esconder tragédias de tamanhas proporções? Extremamente chato e arrogante, Rat além de dar aulas de geologia para os que o cerca acaba de bandido virtual se tornando herói quando descobre a lógica capaz de destravar os computadores para enfim descobrir onde está a nave perdida ou ao menos o que restou dela. Sim, tal qual um suspense dentro de um avião ou submarino, aqui também a tripulação e o próprio equipamento sofrem o diabo até que alguns poucos gatos pingados sobrevivam para contar história. Adivinhe quem são eles. Obviamente os nomes mais famosos do elenco. Eckhart estava em alta na época participando de várias produções, mas que não chegavam a ser sucesso, enquanto Swank trazia o respaldo da publicidade de uma recente avalanche de prêmios por Meninos não Choram. É tentado um gancho romântico com seus personagens em meio ao caos, o que não convence e chega a ser estapafúrdio. Aliás, persuadir o espectador parece ser o de menos para Amiel, que tinha feito o razoável A Armadilha com Catherine Zeta-Jones e Sean Connery alguns anos antes. O elenco esforça-se para dar credibilidade ao engodo, pelo menos não gargalham enquanto travam diálogos ridículos ou soltam frases de efeito que são verdadeiras pérolas do absurdo, mas são tantas as situações tolas, mal resolvidas e clichês que chega a um ponto que o próprio espectador se envergonha de ter escolhido assistir a isso. Com pontos discutíveis a respeito de similaridades com Armageddon, este sim campeão de bilheteria, é de se perguntar o que levou produtores a investirem em O Núcleo – Missão ao Centro da Terra, um repeteco mal feito de uma temática que já não assombrava mais afinal o medo do fim do mundo fez as bilheterias de muitos filmes catástrofes antes da virada do milênio, mas passado o susto o efeito é nulo. É ainda mais difícil acreditar que deixaram a obra final ter mais de duas horas de duração. Mesmo com uma reviravolta pouco depois da metade, o clichê que sempre alguém do grupo tem um segredo bombástico capaz de desvirtuar os planos, é muito tempo para contar uma história tola que poderia ser resumida a uns 80 ou 90 minutos no máximo.

Suspense - 134 min - 2003 - Dê sua opinião abaixo.

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