terça-feira, 22 de abril de 2014

PROTEGIDA POR UM ANJO

NOTA 5,0

Repetindo clichês e buscando
um toque de filme europeu,
suspense meia-boca entretém,
mas parece uma obra datada
Já vivenciando a decadência do longo período de sucesso dos filmes de horror orientais, refilmagens ou originais, não importa, Hollywood tentava pegar carona nos últimos passos dessa esteira e lançou muitas produções com temáticas sobrenaturais procurando algum viés “inédito”, algo diferente dos fantasminhas de cabelos escorridos tapando os rostos tão comuns nos longas asiáticos. O excesso de produtos do tipo acabou fazendo com que o mercado norte-americano selecionasse com mais cautela aqueles que seriam exibidos nos cinemas, o que explica o fato de Protegida por um Anjo ter sido lançado diretamente em DVD por lá. Ele está longe de ser ruim, cumprindo seus objetivos de entretenimento rasteiro e oferecer alguns sustos, mas é relativamente fraco para lutar por bilheterias, tanto que no Brasil passou pelas telonas em um estalar de dedos, encontrando um espaço mais confortável nas telinhas de casa. O problema é que encabeçando o elenco está Demi Moore. Embora estivesse há anos de distância de seu auge artístico, seu nome continuava chamando a atenção, ainda mais atrelado ao meloso título que automaticamente nos faz lembrar de Ghost - Do Outro Lado da Vida, ainda o maior sucesso da atriz. Todavia, o romance proposto aqui não vinga e a intérprete mostra-se comum, não está com seu habitual brilho. Na trama escrita e dirigida pelo australiano Craig Rosemberg, de Ladrão de Diamantes, ela dá vida à Rachel Carlson, uma famosa e premiada escritora de livros de mistério radicada na Inglaterra que fica abalada com a morte de Thomas (Beans El-Balawi), seu único filho que com apenas sete anos faleceu afogado no lago ao lado de sua casa. Sentindo-se responsável pelo acidente, um ano depois ela ainda não está em condições de voltar a escrever e até seu casamento com Brian (Henry Ian Cusick) está abalado e eles preferem dar um tempo. Sozinha, Rachel resolve aceitar o adiantamento de uma editora como forma de incentivo e também a ideia de sua amiga Sharon (Kate Isitt) para alugar uma cabana em Ingonish Cove, uma pequena e remota ilha na Escócia, para assim poder relaxar e se inspirar a voltar ao trabalho. O povoado parece um lugar esquecido pelo tempo. Muito calmo e com poucos habitantes, pouco a pouco a escritora vai se adaptando a melancólica rotina e recobra a vontade de escrever ao se deparar com um isolado e antigo farol, contudo, as visões com o filho ainda a perturbam.

As coisas começam a mudar quando Rachel faz amizade com Angus McCulloch (Hans Matheson), o vigilante do tal farol que fica em uma ilha próxima e deserta. Ela volta a se interessar pela vida e recupera a vontade de escrever, principalmente porque agora tem um amigo que a compreende e a aconselha sempre que sente a presença do filho, mas aos poucos mensagens supostamente enviadas pelo garoto parecem querer avisar que ela está correndo perigo. Sem distinguir se os recados e as visões são reais ou fruto de sua imaginação, a escritora passa a acreditar que está enlouquecendo. O pior é que seu drama acaba sendo escancarado para todos na vila, pois depois de se entregar de corpo e alma à Angus a moça descobre que ele não existe, ou melhor, já existiu, mas se suicidou há cerca de dez anos após matar sua mulher e o amante dela. Depois desta revelação previsível para os escolados no gênero, que ocorre mais ou menos na metade do filme, o roteiro ganha um pouco mais de ação e prepara uma reviravolta, no entanto, essa surpresa não foi bem recebida e o longa foi execrado por críticos amadores e profissionais. Manifestações um pouco exageradas, diga-se de passagem, afinal a produção não é melhor e nem pior que muitas outras que nasceram praticamente rotuladas como medianas. O problema talvez seja esse mesmo: ela não acrescenta nada de novo a seu gênero, tampouco se esforça para retrabalhar os clichês. Estão aqui os vizinhos estranhos e fechados, a paisagem enevoada a noite, as possíveis provas da loucura da protagonista, a clássica sequência da busca de informações nos periódicos da região, o imóvel isolado e abandonado, no caso o farol, e a música alta nos momentos de tensão. Mesmo assim, para quem não é muito exigente o longa consegue entreter e intrigar, principalmente aqueles conquistados pelo visual e estilo narrativo europeu da fita. O diretor é um fã confesso dos antigos filmes de horror produzidos na Europa e se não podia inserir o castelo do Conde Drácula em sua história tratou de transferir para os cenários e locações a sensação de que o perigo podia estar em qualquer parte, inclusive surgindo a indagação se a população local não estaria contra Rachel e colaborando para seu enlouquecimento a fim de evitar que algum segredo do passado viesse a tona. Epa! Esse caminho, apesar de para lá de batido, podia dar algum caldo.

Rosenberg realmente não traz inovações, mas não merece alguns dos esculachos que recebeu. Podem reclamar dos personagens que com exceção da protagonista não criam empatia, das situações previsíveis, da trilha sonora e movimentos de câmera talhados para assustar, do romance piegas desenvolvido e do pouco aproveitamento da pegada espírita do enredo, mas chegar a falar que o filme subestima a inteligência do espectador e deixa zilhões de pontas soltas ao final é pegar um pouco no pé do cineasta. É óbvio que a reta final escorrega pelo seu esquematismo, tudo funciona perfeitamente, mas existem produções bem piores a serem humilhadas. Para quem assiste com o pé atrás, certamente acompanhará a trama com reticências, aquele velho preconceito com produções a la “Super Cine”, e não perceberá que as respostas para a guinada e dúvidas do enredo estão todas aqui, em diálogos ou em imagens.  Por exemplo, as cenas da sensitiva Mary Murray (Joanna Hole), aparentemente sem sentido, já nos deixam claras algumas respostas quanto as questões espíritas da trama que depois ganha contornos mais realistas e aí é só juntar os pontos. É uma pena que após produções como O Sexto Sentido e Os Outros, com a famosa surpresa no final, o público hoje em dia não aceita nada mais que o suprassumo do suspense. O que está abaixo disso automaticamente é rotulado como lixo e sem chances de mostrar seu potencial, por menor que ele seja. Vendo por esse prisma, Protegida por um Anjo merece uma avaliação mais branda. Apesar das falhas, o conjunto revela que simplesmente o projeto foi lançado em época errada, tendo chances de ter sido um grande sucesso nos anos 80 ou 90, afinal sua trama e estilo narrativo se assemelham muito a tantas outras obras que lotavam as locadoras no auge das fitas VHS. Sim, realmente o filme parece pinçado de décadas atrás, algo acentuado pela opção da protagonista em utilizar uma máquina de escrever ao invés do computador, e quem conseguir enxergá-lo com olhar de nostalgia pode se contentar com o resultado. No fundo, após subirem os créditos finais, o que incomoda mesmo é acreditar que em um povoado tão antiquado, com ares de interior e com uma quantidade ínfima de habitantes, Rachel possa desfilar a bordo de um carro maneiro e usar seu celular tranquilamente. Portanto, caso sinta-se atraído pelo enredo e curioso pela tal virada da trama, bom proveito, mas desligue o senso crítico, é melhor. 

Suspense - 110 min - 2006 - Dê sua opinião abaixo.


Nenhum comentário:

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...