segunda-feira, 28 de abril de 2014

SECRETÁRIA

NOTA 8,5

Longa segue viés original para
contar a história de duas pessoas
mal compreendidas pela sociedade
que tiveram a sorte de se encontrar
Cansado das histórias de amor convencionais? Talvez então você possa gostar ou no mínimo achar original o argumento e os caminhos traçados pelo romance com toques de humor e drama Secretária, produção vencedora do prêmio especial do júri no Festival de Sundance em 2002 e que fez ligeiro sucesso no circuito alternativo. A premissa pode vender a ideia de que é uma obra que objetiva falar sobre o abuso sexual em ambiente de trabalho, principalmente pelo título trazer a célebre figura que mexe com a fantasia de muitos patrões, mas felizmente a obra não segue esta trilha tão óbvia e preconceituosa. Conforme nos envolvemos com a trama vamos nos surpreendendo com os rumos. Baseado no conto homônimo de Mary Gaitskill, o roteiro de Erin Cressida Wilson gira em torno de Lee Holloway (Maggie Gyllenhaal), uma moça masoquista que tem como grande hobby ferir seu próprio corpo em busca de prazer. Após passar algum tempo em um hospital psiquiátrico, ela volta para a casa dos pais e tem que se readaptar ao estilo de vida de uma pessoa comum. Acostumada a horários regrados, o tempo livre agora poderia ser um grande vilão, ainda mais o dispensando junto a sua família disfuncional, o que poderia lhe deixar ainda mais fora de órbita. No entanto, ela decide ocupá-lo trabalhando e mesmo não tendo experiência alguma como secretária, apenas certa intimidade com a datilografia que lhe rendeu um prêmio regional, ela tenta uma vaga de trabalho no escritório de E. Edward Gray (James Spader). A primeira vista, o advogado é ríspido, exigente, mal humorado e excêntrico. Sim! Para a surpresa da moça, seu possível chefe é tão maluquinho quanto ela e deixa isso já em evidência logo na entrevista, já que dedicou boa parte do tempo preocupando-se em fazer perguntas de cunho pessoal a candidata, inclusive algumas questões de apelo sexual, algo improvável para a ocasião. Só por este cartão de visitas, já seria difícil alguma garota em sã consciência aceitar o trabalho, ainda mais se refletisse melhor quanto ao aviso de perigo implícito que se encontra na porta do estabelecimento. A fuga das secretárias já se tornou um problema tão comum na vida de Grey que ele já afixou um letreiro luminoso na entrada solicitando funcionária, assim limitando-se a acender ou apagar conforme a necessidade.

Para quem estava habituada com excentricidades, a ponto de provocar pequenos cortes em áreas pouco visíveis do próprio corpo como forma de exteriorizar seu sofrimento psicológico, não significava nada um chefe querer saber onde sua irmã mora ou se ela andava tendo relacionamentos sexuais com alguém. Respondendo tudo direitinho e dizendo que sabe atender telefonemas, ela  consegue o emprego na hora, mas é certo que a visão de alguns talhos que fez em sua coxa e ficaram a mostra com seu figurino ajudaram na contratação. Ao menos ela tem a consciência de que dificilmente conseguiria outro emprego de maneira tão fácil, assim ela trata de se esforçar para fazer o melhor que pode, embora suas tarefas sejam limitadas a redigir, passar a limpo e arquivar documentos, além é claro de fazer e servir cafezinhos. No entanto, a gaveta do Sr. Grey é lotada de canetas marca-texto vermelhas, uma pista do nível de exigência do empregador. Ele lê todos os textos e cartas que manda escrever com muita atenção e não deixa passar uma vírgula em lugar errado ou ausente. Os erros são punidos com broncas severas, mas pouco a pouco elas também são acompanhadas de atos violentos e sádicos, com direito a palmadas no bumbum desnudo da moça. Então percebemos o porquê do escritório ainda manter a arcaica máquina de escrever ao invés de um computador por mais vagabundo que fosse. Se para ser feliz na profissão é preciso trabalhar com prazer, Grey leva ao pé da letra tal consideração e faz questão que suas secretárias não consigam evitar os erros de datilografia. Por mais que refaçam várias vezes os textos, o cansaço evita a perfeição e sempre algum errinho acaba passando e ele tem a oportunidade de satisfazer sua sede de sadomasoquismo deixando latente seu transtorno bipolar. Entende-se que muitas moças sofreram estas tentativas de assédio, mas o longa não se apega a questões jurídicas quanto a possíveis processos, simplesmente nem toca no assunto. O foco é na estranha relação que nasce entre Lee e seu chefe. Ao mesmo tempo em que estão trabalhando, também estão vivenciando um caso de amor envolvendo dominação e submissão com papéis bem definidos. A cena inicial, com a jovem algemada a uma barra de ferro colocada atrás de sua cabeça e mesmo assim desempenhando suas tarefas de escritório, já dá a entender o tipo de relacionamento deles. Grey domesticou Lee criando a funcionária exemplar, para os seus padrões é claro. Para quem se interessou pela pegada erótica do enredo fica o alerta de que nudez só tem em uma única e poética cena e até o contato entre os protagonistas está longe de excitar, salvo se você também for adepto da praia deles.

Gosto não se discute, principalmente as opções que as pessoas fazem para curtir suas intimidades, mas é inquestionável que tal história é bizarra, por mais que hoje as sociedades se esforcem para serem mais cabeça aberta. Todavia, em solo americano o longa recebeu críticas positivas tanto de público quanto de crítica, talvez por terem conseguido enxergar o que há por trás das imagens que flertam com o humor e o erotismo. Uma simples sequência na qual Grey oferece uma xícara de chocolate quente a Lee a fim de conseguir reposta a uma incômoda pergunta revela a proposta psicológica do enredo, algo que fica ainda mais latente quando eles começam seus joguinhos sexuais. Ambos têm personalidades afetadas e reprimidas que certamente lhe trouxeram muitos problemas com familiares e a sociedade de um modo geral, assim o encontro inesperado de praticamente duas almas gêmeas não poderia de forma alguma ser desperdiçado, pois é a chance de finalmente viverem plenamente e sem o peso de esconderem suas verdades e vontades. Quer dizer, escancarar a situação não seria possível, mas poder compartilhar com alguém tais particularidades já representa um alívio. Os protagonistas captam as atenções pela forma natural que conduzem suas personagens. Convenhamos, seria muito fácil descambar para o humor pastelão criando cenas como a secretária lendo uma carta curvando-se de quatro para deixar seu traseiro livre para receber as palmadas do advogado. Embora, tenham cenas divertidas como Lee bancando a égua para Grey montar, os atores não estão rindo, demonstrando que para as figuras que representam aquilo é algo sério, uma necessidade que precisam vivenciar.  Maggie, talvez por não ser um símbolo sexual, imprime uma credibilidade ímpar à sua secretária e ganhou vários prêmios pelo papel, além de ter uma excelente química com Spader que há anos não tinha a oportunidade de mostrar todo seu talento e versatilidade. Embora fiquem na memória as suas cenas bizarras, a dupla consegue transformar sequências simples, como as tentativas de Grey em eliminar os vícios comportamentais de Lee e ensiná-la a se vestir, falar e se portar melhor, em momentos de emoção genuína. Com direção de Steven Shainberg, que mais tarde outra vez viria a trabalhar com uma trama bizarra em A Pele, Secretária é um misto de surpresa e decepção, por razões já esclarecidas, mas na reta final apela para o triângulo amoroso, já que Peter (Jeremy Davies), seu amigo de infância, está sempre na área tentando conquistá-la e contando com o apoio da família dela. Contudo, esse é um detalhe insignificante para uma produção tão original que no fundo só quer falar de amor.

Romance - 111 min - 2002 - Dê sua opinião abaixo.

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