quarta-feira, 2 de abril de 2014

THE KING

NOTA 8,0

Drama aborda religião, amor,
verdade, família e justiça de
forma envolvente e realista,
abrindo caminhos de reflexão
Estamos acostumados a assistir filmes cujos argumentos giram em torno de mentes perturbadas que bolam planos para fazer justiça ou concluir vinganças, aquelas velhas desculpas para filmes de seriais killers, mas como julgar quando uma pessoa acaba fazendo mal a outra sem a real intenção? Longe da carnificina hollywoodiana, tal temática é um prato cheio para produções independentes que focam suas atenções no desenvolvimento dos personagens. Por trás do silêncio de um homem, por exemplo, pode estar escondido um frio assassino ou simplesmente alguém suportando o peso da culpa de uma fatalidade. O espectador pode até saber de antemão a resposta, mas o filme se sustenta pelas dúvidas que cercam os personagens, assim quem assiste acaba participando da trama passivamente como uma figura onipresente e que sabe de tudo, mas impossibilitado de interferir nos rumos da ação. É essa sensação que temos ao assistir o drama The King que apesar da tímida projeção é protagonizado pelo astro latino Gael García Bernal, na época já um nome quente. Ele dá vida à Elvis Valderez, um jovem que após ser dispensado pela Marinha americana decide ir em busca de suas origens para entender seu presente, já que é uma pessoa um pouco instável. Para tanto, ele viaja para a pequena cidade de Corpus Christi no interior do Texas a fim de se encontrar com David Sandow (William Hurt), um pastor evangélico muito radical e conservador. O rapaz quer simplesmente que o religioso reconheça que é seu pai, mas logo no primeiro encontro o pedido é negado e justificado pelo fato de Sandow hoje levar uma vida completamente diferente da que tinha no passado, inclusive alegando que precisa preservar sua imagem perante Twyla (Laura Harring), sua atual esposa, e os filhos do casal, os adolescentes Malerie (Pell James) e Paul (Paul Dano), além de não poder em hipótese alguma frustrar sua comunidade religiosa, já que é visto como um homem legitimamente íntegro. Mesmo assim, os dois acabam se cruzando várias vezes e o pastor justifica os encontros dizendo a todos que o jovem quer apenas se tornar um membro da igreja, mas para o filho faz a promessa de que assumirá suas responsabilidades paternas, precisa apenas de um tempo para preparar o espírito dos mais próximos para receber a notícia.

Elvis não fica atiçando a ira do pai com visitas inesperadas a sua casa como forma de pressioná-lo, mas de qualquer forma acaba cutucando a onça com vara curta. Logo que chegou a cidade ele conheceu Malerie por acaso sem saber quem ela era e a achou interessante, já que apesar de apenas 16 anos de idade aparentava ser uma garota mais madura. Eles passam a se encontrar as escondidas e acabam namorando, mantendo relações sexuais com certa frequência, mas até então não sabia que ela era sua meia-irmã. Enquanto isso, Paul, o irmão mais novo da garota, está passando por frustrações no colégio e tenta compensá-las com as músicas que executa com sua banda de rock religiosa nos cultos. O pai não gosta da atitude do garoto por perceber nas letras das canções seu desapontamento com a religião e que esse poderia ser o primeiro passa para ele se afastar de Deus e consequentemente da família, assim o pune severamente. Entre o desejo de mudar os rumos de sua vida ou seguir os passos familiares, Paul escolhe a segunda opção e não pensa duas vezes antes de enfrentar Elvis e cobrar satisfações depois de flagrá-lo saindo certa noite do quarto da irmã, um crime contra a honra do clã. Seu espírito justiceiro acaba traindo-o e algo inesperado acontece. O adolescente é dado como desaparecido, mas incentivado pela polícia Sandow prefere acreditar que o filho sumiu como sinal de rebeldia. Paralelo a isso, os laços entre Elvis e Malerie ficam mais fortes, mesmo ela sabendo a verdade sobre o sumiço do irmão. Há males que vem para o bem. Acreditando que errou na criação de Paul, o pastor resolve recuperar o tempo perdido com seu filho bastardo e o apresenta perante a comunidade como fruto de seu passado desvirtuado. Assim, pouco a pouco o ex-marinheiro assume o lugar do meio-irmão na casa e na família, mesmo com as ressalvas de Twyla que ainda acreditava no regresso do filho. É doloroso para o espectador saber a verdade e se sentir impotente para mudar os rumos da trama que, diga-se de passagem, segue rumos inesperados e violentos, apesar de que o modo sutil como tudo acontece abrande um pouco o impacto das ações, porém, jamais anule seus propósitos. Para quem gosta de histórias fortes, humanas e que proporciona reflexões, eis uma excelente opção que para variar não recebeu a devida atenção de público e crítica.

O roteiro de Milo Addica e James Marsh, este último estreando na direção de longas-metragens de ficção, acaba sendo um soco certeiro no estômago do espectador que fica com um nó na garganta ao subirem os créditos finais, ainda mais por ficar em aberta a conclusão do protagonista, dando a oportunidade de seu futuro ser imaginado ou simplesmente abrindo margem para que críticas negativas surjam daqueles que gostam de obras bem mastigadinhas. Extremamente realista, no final das contas, não temos um vilão para apontar como o foco dos problemas da família Sandow. Seria muito fácil acusar que o responsável é Elvis que apareceu inesperadamente para semear a discórdia entre o clã, mas ele tem seus motivos e a ótima construção do personagem, apesar de não ser uma grande interpretação de Bernal, deixa a dúvida se tudo o que passa a acontecer é obra do acaso ou se realmente foi premeditado. É até possível comparar a essência desta obra com Vale Proibido, drama protagonizado por Edward Norton lançado mais ou menos na época. Em ambos os filmes os personagens principais são solitários com objetivos de se aproximarem de famílias que julgam perfeitas, cada um com suas justificativas particulares, e para tanto acabam se aproveitando da ingenuidade de adolescentes. A diferença é que neste caso, como já dito, não parece um plano de uma mente insana, mas não é errado em alguns momentos interpretar que a relação entre Elvis e Malerie é uma forma de vingança do rapaz contra o pai que o desprezou. Com experiência na área de documentários, era de se esperar que Marsh adotasse uma linha mais realista e carregada de conteúdo para a narrativa de The King, assim é preciso prestar atenção aos detalhes visuais, tanto cenográficos quanto de expressões faciais e gestos dos personagens, para compreender o enredo em sua totalidade. Para os sonecas de plantão fica o aviso que se cochilar nos minutos finais perderão uma conclusão surpreendente, com significados implícitos e difícil de ser esquecida, mas apresentada de forma sutil, sem áudio estridente ou firulas visuais, apenas um belo passeio de câmera pela residência do pastor que culmina em uma acachapante imagem. 

Drama - 103 min - 2005

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