quinta-feira, 22 de maio de 2014

A OUTRA FACE DA RAIVA

NOTA 7,0

Talento e carisma do elenco são
essenciais para prender atenção em

filme que mescla drama e humor para
contar história simples, mas envolvente
É repetitivo dizer que devemos encarar nossos erros e frustrações tentando tirar algum saldo positivo, aquele velho ditado que diz que o não te mata te fortalece. Isso é o que as pessoas mais velhas sabiamente chamam de experiência de vida, mas a maioria não se dá conta que as decepções e até mesmo os momentos de triunfo não influem em nossas vidas apenas no futuro, mas atuam diariamente na construção do caráter e personalidade de todo ser humano. Às vezes é preciso que filmes como A Outra Face da Raiva nos lembre ou nos faça tomar consciência disso, um bom exemplo que se encaixa na linha de obras que abordam problemas familiares ou a volta por cima de um desacreditado. O filme dirigido e roteirizado por Mike Binder tem uma introdução que atrelada à narração em off já deixa o final revelado para quem tem um mínimo de cultura cinematográfica, mas o segredo da produção é cativar o espectador para convidá-lo a vivenciar os fatos que culminaram nesta cena. Três anos antes do funeral do patriarca dos Wolfmeyer, sua esposa Terry (Joan Allen) mudou seu comportamento radicalmente. Antes considerada a pessoa mais doce do mundo por suas filhas, ela tornou-se uma mulher triste e amarga desde que descobriu que o marido a traía com a secretária, mas piorou muito depois que foi abandonada repentinamente por ele. Sempre em posição defensiva, ela sabe que agora terá o difícil desafio de criar suas quatro filhas, embora já sejam bem crescidinhas, mas cada uma com seus problemas particulares a resolver. A narradora da história é Popeye (Evan Rachel Wood), a mais jovem e a que parece se compadecer mais com a situação da mãe, porém, fica perturbada quando se apaixona por um colega de escola mesmo tendo dúvidas sobre sua sexualidade; Hadley (Alicia Witt) é a mais velha e embora não more mais com a família culpa Terry pela fuga do pai, ainda mais agora que está com os hormônios a flor da pele devido a uma gravidez inesperada; Emily (Keri Russell) sonha em ser bailarina, mas seu futuro pode estar comprometido por conta de uma grave doença; e, por fim, Andy (Erika Christensen) deseja ser jornalista e acaba se envolvendo com seu patrão alguns anos mais velho. Para aguentar tantos problemas, Terry acaba se entregando ao vício do alcoolismo que a leva a se tornar uma pessoa sempre a beira de um ataque de nervos e desleixada.

Entre um copo e outro de bebida e uma discussão aqui e outra acolá com as filhas, Terry começa a manter contato seu vizinho Dennis Davies (Kevin Costner), um ex-jogador de beisebol que agora se dedica a um programa esportivo no rádio e que também é um grande beberrão. Não é necessariamente o álcool que une essas duas pessoas maduras, mas sim as frustrações e desilusões. O charmoso cinquentão vive das glórias do passado vendendo acessórios que levam seu nome e mantendo a autoestima graças aos autógrafos que dá de vez em quando, mas ganha uma dose de estímulo quando a passa a desfrutar da companhia íntima de sua vizinha, mais um motivo para ela guerrear com as filhas que logo acusam a mãe de ter encontrado um marido substituto em velocidade recorde. A sensação é que a qualquer momento uma briga pode acontecer na casa dos Wolfmeyer, mas também existe espaço para a emoção e momentos ligeiramente divertidos entre essas mulheres. Drama, comédia, romance e até suspense. Esta obra se encaixa perfeitamente no estilo independente de fazer cinema, modesto em suas pretensões assim como em seu orçamento. A intenção de Binder é mostrar que todos os acontecimentos na vida de uma pessoa estão ligados a algum tipo de sentimento. Amor, desejo, ansiedade, melancolia, medo ou raiva, qualquer um deles tem o poder de despertar uma ação, como no episódio em que Terry telefona para Davies se oferecendo para transar com ele só pela ira que sentiu ao saber que o vizinho facilitou uma colocação para Andy na rádio em que trabalha. Logo imaginou que ele fez isso simplesmente para poder se aproximar dela e se aproveitar se sua recém-solteirice. Aliás, como já dito, a garota acaba se envolvendo amorosamente com seu patrão, Adam “Shep” Goodman, vivido pelo próprio diretor que se mostra bem a vontade também na frente das câmeras. Diga-se de passagem, uma das passagens mais marcantes do longa é clichê, mas funciona muito bem. Durante um jantar em família o namorado de Andy mostra não ter muita etiqueta à mesa e a sogra enfurecida tem o delírio de que sua fúria conseguiu explodir a cabeça do rapaz e seu sangue espirrava por todos os lados, atingindo inclusive os demais personagens da cena. Humor negríssimo.

Talvez seja justamente a mistura de gêneros que não ajudou a obra emplacar. A rigor, este é um drama que traz a tona situações de fundo emocional protagonizadas por personagens o mais próximo possível da realidade. Nenhum ser humano é perfeito e entre erros e acertos todos procuram levar suas vidas da melhor maneira que conseguirem e Binder tenta retratar essa imperfeição na tela mostrando tipos ora felizes, ora deprimidos e outras vezes zangados. Talvez seja essa honestidade que nos faça ficar íntimos tão rapidamente dos protagonistas, um casal com química e que passa longe do ridículo de parecerem jovens querendo viver o primeiro amor, pelo contrário, são pessoas conscientes e maduras que sabem que devem assumir seus atos. O roteiro foi criado especialmente para Allen brilhar, uma das melhores atrizes de sua geração e que apesar de acumular três indicações ao Oscar costumeiramente é subaproveitada em Hollywood. Aqui ela encontra um papel a altura de seu talento e que lhe permite experimentar várias facetas. É impressionante como consegue alternar momentos de megera, com outros de sensibilidade e alguns de receio com extrema naturalidade, realmente como uma mãe que tem que se preocupar com os filhos e ao mesmo tempo se policiar para não abdicar de si mesma. Costner, por sua vez, também surpreende ao apresentar outro estilo de personagem ligado ao mundo do beisebol, uma necessidade já que o universo deste esporte serviu para a construção de pelo menos três outros papeis de sua carreira. Resignado de sua fase megalomaníaca, quando o sucesso subiu a sua cabeça, o ator tem encontrado refúgio em produções menores e aqui consegue entregar uma performance sincera e longe do dramalhão, mesmo com o tentador mote de que Davies ainda está digerindo o fato de que a idade o forçou a se aposentar do esporte e que precisa lutar para manter o seu nome em evidência. Aliás, tal gancho até faz alusão com a própria trajetória de seu intérprete, com a diferença que ele não se entregou a bebida, mas repensou sua carreira. É uma pena que a mesma veracidade dos protagonistas não sentimos no elenco feminino jovem. Seus conflitos são extremamente frágeis e se adequariam melhor a uma produção juvenil (até o clichê de uma doença para interromper os sonhos de uma das garotas bate ponto), mas atendem as expectativas de Binder que procura nunca colocar o dedo em ferida alguma, apenas uma leve resvalada, assim ele consegue transitar por diversos campos emocionais sem causar rupturas na narrativa afinal ela não está enraizada em nenhum gênero em específico. Com um momento quase surpresa nos minutos finais, A Outra Face da Raiva é o típico filme de ator. Sua premissa não traz nada de original, mas é sustentada com vigor pelo elenco que consegue transformar fatos corriqueiros em situações que mexem com o emocional do espectador, ainda que falte uma dose a mais de ousadia neste drinque.

Drama - 116 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.


Um comentário:

Ana Leonilia disse...

Oi, Guilherme! :) Eu amo esse filme! Já assisti várias vezes... Allen tem uma atuação tão forte e versátil, que rouba a cena em todos os sentidos. haha
A química entre ela e Costner é perfeita. <3

Bjs ;)

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