quarta-feira, 28 de maio de 2014

A PASSAGEM (2005)

NOTA 8,0

À primeira vista confuso e
monótomo, longa exige reflexão e
desafia a inteligência do espectador,
mas seu final compensa o esforço 
Não entendi nada. Certamente esse é um dos comentários mais comuns feitos para o suspense A Passagem, mais uma daquelas produções que jogam peças ao longo da narrativa para que o espectador tente montar o quebra-cabeça proposto, só que neste caso quem assiste pode respirar aliviado ao final, pois tudo é explicado. O problema é que aqueles que se entediarem com a narrativa certamente vão dispersar a atenção e perder detalhes importantes, assim a conclusão continuará sem sentido inevitavelmente. Apesar de colher elogios de críticos amadores, é óbvio que não é um filme popular, é preciso estar preparado para encará-lo o que lhe confere certa aura de “obra de nicho”. De fato, o passar dos anos comprova o rótulo já que se tornou um título de procura específica ou apenas curiosos aficionados pelo trio de atores principais devem querer assisti-lo, estes que provavelmente vão se perguntar porque seus ídolos se meteram nesse projeto. Escrito por David Benioff, a trama fala sobre o mundo de paranoias em que um psiquiatra mergulha quando se torna muito próximo de um de seus pacientes. Sam Foster (Ewan McGregor) foi chamado para substituir por duas semanas uma colega e assim conheceu Henry Lethem (Ryan Gosling), um jovem com graves distúrbios mentais. A mudança repentina de profissional não agradou o rapaz que já tinha a sensação de ser um rejeitado e se até sua médica não queria mais lhe dar ouvidos... De qualquer forma, não demora muito para ele se sentir a vontade e revelar ao doutor que pretende cometer suicídio em três dias, assim Foster começa a investigar o passado do paciente para compreender as razões de seu desespero e impedir uma tragédia, no entanto, conforme se aprofunda no assunto ele também acaba se envolvendo com situações que o fazem perder a noção da realidade. Falar que vai se matar qualquer um pode afirmar em momentos de depressão ou angústia, mas o que intriga o psiquiatra neste caso é uma coincidência. Henry é estudante de artes plásticas e tem sua morte meticulosamente planejada para o dia em que completará 21 anos, a mesma atitude que tomou um pintor que ele admira quando completou essa idade. Lila (Naomi Watts), namorada de Sam e sua antiga paciente, mas que ainda sofre de depressão, acredita que compreende as emoções do jovem suicida e oferece sua ajuda. Curiosamente ela chama constantemente o companheiro de Henry, por que isso? Como o tal paciente consegue prever acontecimentos futuros, inclusive pensamentos de seu psiquiatra? Por que o rapaz insiste que seu médico mantém contato com o seu pai, embora este já tivesse falecido? A mãe do paciente também já teria morrido, mas como Sam conversou com ela pessoalmente? Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas que vão se acumulando e, como já dito, um desvio de atenção e tudo se embola.

O diretor Marc Foster, acumulando elogios ao denso A Última Ceia e ao belo e emocionante Em Busca da Terra do Nunca, não conseguiu a mesma projeção com este trabalho, uma proposta completamente diferente ao que ele havia apresentado até então. Todavia, ele é habilidoso ao conseguir empurrar o espectador para dentro de uma narrativa estranhíssima, o instigando a colecionar pistas, ainda mais pelo fato dos personagens não serem engessados a estereótipos, todos deixam dúvidas no ar. O diretor originalmente seria David Fincher, de Clube da Luta, e certamente o filme seria diferente, talvez para melhor ou para pior. Nas mãos de Foster, há quem acuse que o filme preocupa-se demais com o visual do que propriamente com o enredo. Na realidade existe um casamento perfeito entre imagem e texto. Se a história já é perturbadora, a confecção das cenas não fica por baixo. Cores, sons, ângulos de câmera, luzes, edição, detalhes dos cenários, trilha sonora, tudo que está na tela ajuda a compor uma atmosfera angustiante e de delírio. É nesta última palavra que pode estar o segredo do filme. Seriam todos os pontos desconexos da história apenas fantasias? Mas de quem? Henry ou Sam? Ou tudo realmente terá uma explicação coerente? Foster oferece uma conclusão plausível nos últimos cinco minutos, mas talvez ela não satisfaça a maior parte dos espectadores. Compreendê-la não é difícil, porém, exige reflexão posterior. Provavelmente a primeira frase deste texto será a primeira coisa que virá à cabeça da maioria, mas não entender nada de imediato de forma alguma desmerecerá sua inteligência, principalmente se tiver a sensação de que algo escapou aos seus olhos ou a sensibilidade necessária para constatar que todos vivem diariamente momentos em que podem vivenciar coisas sem sentido algum. Sim, é no sonho, no delírio, na imaginação que está a resposta de tudo, mas isso não diminui o interesse por este suspense. Quando chegamos ao fim temos vontade de reiniciar o filme para apreciar com mais atenção e ligar os pontos. Aliás, ao longo de toda a narrativa temos evidências de que é a mente de um dos personagens que está comandando a história, basta ficar atento na transição das cenas. Elementos cênicos marcam essas mudanças como o enquadramento de uma imagem que pode virar uma fotografia na cena seguinte e em outro cenário qualquer ou o porta-retratos cuja foto ganha destaque e de repente movimento para abrir uma nova sequência. Personagens podem abrir uma porta e entrar na próxima cena ou um jogo de câmeras fazer um simples pilar demarcar uma mudança de cenários. Tudo isso é feito de forma tão sutil e com a narrativa tão fluida que podemos nem perceber essas mudanças até porque, como de costume, nosso foco de atenção é nos personagens que agem naturalmente. É um pouco difícil explicar esses efeitos, só vendo para entender e poder elogiar.

Quem leu o texto até aqui sem estar munido de informações adicionais sobre o filme certamente está na dúvida. Afinal de contas ele é bom ou ruim? As duas avaliações são corretas, depende do ponto de vista e da paciência de quem vê. Se a paranoia lhe angustiar rapidamente e você desistir de continuar assistindo, a avaliação negativa é iminente não sobrando elogios nem para os atores e tampouco para a parte técnica, tudo será espantosamente sem sentido. Agora, quem fizer pé firme e chegar até os créditos finais poderá se surpreender positivamente e ver que tudo se encaixa, inclusive o que parecia firulas visuais. Para chegar a tanto, não se intimide em assistir mais uma, duas ou quantas vezes for necessário, o objetivo de A Passagem realmente é instigar o espectador a valorizar detalhes, levá-lo a reflexão, tomar contato com uma forma diferente de fazer cinema. Vendo por esse prisma, o filme seria uma experiência e tanto para o público em geral tão acostumado a respostas objetivas e previsíveis. Que tal colocar o cérebro para funcionar um pouco? Na teoria a ideia é ótima, mas na prática não é tão fácil. Não se pode cobrar a mesma interpretação de um pré-adolescente, de um jovem de nível de escolaridade relevante ou de uma pessoa madura com pouca instrução. Cada um tem sua forma de analisar o filme de acordo com suas experiências de vida, até mesmo levando em consideração sua cultura cinematográfica. De qualquer forma, obras como esta nos levam a perceber que a reflexão é necessária, até para os atos mais corriqueiros do nosso dia-a-dia. O imediatismo é um vilão e tanto. Rotular esta produção com todos os adjetivos negativos possíveis conferindo dez ou quinze minutos dela é muito fácil, mas essa pressa pode levar muitas pessoas a deixarem de assistir um dos filmes mais inteligentes e bem realizados dos últimos tempos. É uma pena que seu ritmo arrastado e ausência de tiros, correrias e explosões não o elevem ao patamar de Matrix, por exemplo, até hoje considerado um marco cinematográfico. É certo que o filme de Foster não tinha bala na agulha para chegar a tanto, mas sua mirrada projeção quando lançado e praticamente ostracismo hoje em dia não fazem jus a suas qualidades. Como mesmo depois de assistir e ler esta crítica podem ficar dúvidas, é irresistível contar como tudo acaba, até como incentivo para aqueles que detestaram ou que elogiaram a obra só para fazerem tipo reverem e avaliarem melhor. A conclusão é bastante simples. No início temos um acidente de carro no qual Henry foi arremessado para fora do veículo, mas seus pais e namorada faleceram. Muito ferido, o jovem começou a ter alucinações à beira da morte, uma espécie de mecanismo de defesa onde fantasia e realidade se confundem. Com o peso da culpa que estava sentindo, em sonho ele planejava seu suicídio e até “criou” personagens para Sam e Lila que estavam entre as pessoas que foram lhe prestar socorro, quando na realidade os dois se conheceram naquele exato momento. Isso explica o porquê das ações de todo o filme serem desconexas e até se repetirem afinal de contas para a imaginação não há limites ou lógica a serem seguidos.

Suspense - 98 min - 2005 

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