quarta-feira, 9 de abril de 2014

A PROMESSA (2001)

NOTA 7,0

Apesar da introdução poder
indicar um típico suspense
policial, longa explora a solidão
e a paranoia de seu protagonista
Policial prestes a se aposentar se envolve no caso da morte de uma garotinha prometendo a sua família fazer de tudo para capturar o assassino, assim tomando a responsabilidade de um último trabalho para honrar sua carreira. A premissa é tão genérica quanto o título, mas A Promessa é um suspense que envereda mais pelo caminho do drama fugindo do lugar comum. Esqueça aqueles mirabolantes roteiros em estilo quebra-cabeça para se chegar a identidade do criminoso ou o famoso jogo de gato e rato entre policial e bandido. O roteiro de Jerzy e Mary Olson Kromolowski opta por desnudar a alma de um homem atormentado por uma promessa, o dilema moral de cumprir o juramento que fez quando iniciou sua vida profissional de sempre lutar pela proteção dos inocentes e buscar a verdade custe o que custar. Será isso mesmo? O caminhar da história sugere outra interpretação. Em um pequeno vilarejo no Estado de Nevada, nos EUA, Jerry Black (Jack Nicholson) é um policial veterano que está prestes a se afastar do trabalho após décadas de serviços, mas em seu último dia na instituição recebe uma incumbência que adiará a sua aposentadoria, ou melhor, ele mesmo é quem decide posicionar-se no caso. Durante a festa de despedida promovida pelos colegas, chega a notícia do assassinato de uma garotinha de apenas oito anos, estuprada e violentamente mutilada, e ele insiste para averiguar a cena do crime, mas também usa toda a sua experiência para dar a notícia triste para a família da vítima. Comovido com o desespero da mãe, A Sra. Larsen (Patricia Clarkson), Black promete que assumirá as investigações e não sossegará enquanto não ver o responsável sendo punido. Para tanto, ele será auxiliado pelo policial Stan Krolak (Aaron Eckhart) e juntos eles chegam até o nome de Toby Jay Wadenah (Benicio Del Toro), um descendente de índios com problemas mentais e antecedentes criminais que sob pressão assume a autoria do estupro e logo em seguida se suicida na própria delegacia, mas Black não está convencido que o caso está encerrado. Mesmo com a recusa do colega, investigador mais “relaxado” e que usou seu poder de persuasão e aproveito-se da mentalidade fraca do suspeito morto par dar um ponto final o mais breve possível nesta história, o veterano decide levar o caso adiante por conta própria. Em meio a averiguações de pistas e momentos de reflexão enquanto pratica a pescaria, o passatempo predileto do protagonista, é nesse ponto que a obra deixa de ser um suspense comum para ganhar força dramática e psicológica.

Baseado no romance do suíço Friedrich Dürrenmatt, o filme no fundo quer falar sobre os efeitos da solidão no ser humano e como este sentimento pode nos manipular a ponto de cometermos ações involuntárias em busca de reconhecimento. Assim como um aluno inibido pode achar que fará amizades propondo realizar tarefas e trabalhos aos colegas, Black usa o mesmo artifício inocente para continuar na ativa. Dedicando-se a vida toda ao seu trabalho e sem ter uma família ou companheira, a aposentadoria soa para ele como um aviso de que sua vida está próxima do fim, já não teria mais serventia no mundo. Com o caso da menininha, o veterano vê a chance de manter-se ocupado e provar que ainda poderia ser útil e agarra a oportunidade com unhas e dentes, mesmo não fazendo mais parte do quadro ativo da polícia. Ele compra um posto de gasolina estrategicamente localizado no cruzamento de algumas estradas importantes, assim o estabelecimento serviria como um ponto de observação e ele viveria sob a expectativa de que um dia o verdadeiro criminoso passaria por lá. Pelas evidências deixadas em um desenho da falecida, no qual é retratado um homem alto e proprietário de um furgão preto que estaria a cercando já a alguns dias, e das conclusões que tira das conversas que tem com a sua psicóloga (Helen Mirren) a respeito de outras mortes de garotas novinhas que poderiam ter ligações, Black acredita que está no caminho certo, todavia, acaba extrapolando seus objetivos quando conhece Lori (Robin Wright), uma garçonete que fugiu de casa com a filha Chrissy (Pauline Roberts) para escapar das agressões do marido e que lhe pede asilo. O envolvimento com esta mãe e filha acaba dando novos rumos à trama afinal se sentir útil era justamente o objetivo do aposentado, assim o longa frustra quem esperava um suspense clichê (bem, alguns são inevitáveis), mas arranca elogios, ainda que não rasgados, de boa parte do público que se surpreende com uma obra com conteúdo, performances cuidadosamente lapidadas (com exceção de Del Toro que surge em cena de forma bizarra, ainda bem que apenas em uma ponta de luxo) e que foge do estilo hollywoodiano o quanto pode. A promessa feita à mãe da vítima vira uma obsessão a ser cumprida para Black, assim o filme não se resume simplesmente a caçada a um serial killer, mas sim a um estudo psicológico e envolvente sobre a solidão e suas implicações. Até que ponto um homem solitário pode ir para ter um motivo para continuar vivendo? Neste caso, o aposentado chega a usar a pequena Chrissy, aproveitando-se de seu perfil ideal, para tentar atrair o verdadeiro assassino em busca de uma nova e indefesa vítima, assim colocando-a em risco em nome de sua paranoia.

O respeito à profissão ou simplesmente uma razão para viver, o que motiva Black nesta investigação? A boa interpretação de Nicholson sempre deixa esta dúvida no ar, embora acreditar que alguém seja tão devotado ao trabalho hoje em dia é praticamente uma utopia, ainda mais quando está em jogo valores e juramentos que para a maioria são apenas palavras bonitas usadas em discursos ou redigidas em documentos. Krolak, por sua vez, pode ser visto como o estereótipo do policial “moderno” e os resultados rápidos de suas investigações é o que lhe importa para justificar seu salário, algo explícito na cena em que ele vibra diante da câmera de segurança ao conseguir arrancar a confissão de Wadenah sem fazer muito esforço. Aliás, são em cenas e diálogos rápidos que o diretor Sean Penn mostra seu talento. Sim o famoso e polêmico ator (por conta de brigas com paparazzi, militância política e avesso as pompas de Hollywood) mostra ter muito talento atrás das câmeras. Ele já havia demonstrado isso no início nos anos 90 nos dramas Unidos Pelo Sangue e Acerto Final, mas como demorou para voltar a sentar na cadeira de diretor A Promessa soou quase com uma estreia na função, ainda mais sendo uma obra que flerta com o gênero suspense. Sempre execrando papéis idiotas que lhe ofereciam, é óbvio que Penn não colocaria o amigo Nicholson em uma roubada e lhe ofereceu um protagonista totalmente crível que ganha a empatia do espectador logo nos primeiros minutos. Da depressão a loucura, o premiado ator consegue gradativamente transmitir muito bem as angústias do personagem quanto a solidão e a sua excitação perante as investigações, mostrando uma interpretação bem diferente da que apresentaria depois em As Confissões de Schmidt, outro drama acerca de um aposentado na expectativa de descobrir o que fazer com seu tempo livre. O restante do elenco, que ainda inclui Vanessa Redgrave, Sam Shepard e Mickey Rourke, não tem muito tempo de cena, mas suas participações são valorizadas por Penn que sabe o quanto é difícil emocionar ou intrigar o espectador, ainda mais quando é preciso fazer isso em questão de poucos minutos e sem grandes aprofundamentos do texto. A personagem Lori acaba tendo uma participação mais intensa devido aos desdobramentos do enredo e não pelo fato da atriz na época ser casada com o diretor. Os anos que Penn ficou em jejum da direção, no conjunto, foram benéficos e também negativos. Com tanta bobagem lançada anualmente, sua inquietação para contar uma história decente lhe fez voltar à ativa com um trabalho com força narrativa indiscutível, mas sua reiteração de ideias, mesmo quando disfarçadas como as cenas de pescaria como metáfora a virtude da paciência e o plano de achar uma isca para pegar seu serial killer, acabam tornando o filme longo demais, algo acentuado pelo ritmo lento. De qualquer forma, o fechamento é surpreendente e original, mas não deve passar pelo crivo das plateias acostumadas com finais mastigadinhos.

Drama - 123 min - 2001

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