terça-feira, 6 de maio de 2014

DESEJOS E TRAIÇÕES

NOTA 6,5

Reencontro de irmãos é um
prato cheio para explorar, mas
longa perde bons ganchos adotando
estrutura teatral que engessa a obra
Roteiros com temáticas que abordam famílias problemáticas são as matérias-primas preferidas dos cineastas independentes que encontram neles possibilidades de trabalharem com questões psicológicas ou simples fatos cotidianos sem a necessidade de se preocupar em criar finais apoteóticos ou situações impactantes. Quem curte esse tipo de produção já sabe o que vai encontrar. Geralmente são obras que deixam pontas soltas para instigar o espectador a refletir sobre os assuntos propostos, mas nem sempre eles acertam em cheio o seu emocional. Por exemplo, talvez quem é filho único e viveu cercado de mimos não se envolva com os conflitos apresentados em Desejos e Traições, drama basicamente estruturado na reunião de quatro irmãos que quando adultos veem a necessidade de tentar resolver assuntos do passado a partir de situações do presente que os colocam a debater ideias, comportamentos e sonhos desfeitos. O roteiro de Richard Alfieri baseia-se em uma peça de sua própria autoria, “The Sisters”, e tem como ponto de partida uma festa surpresa para Irene (Erika Christensen), a caçula da família Prior cuja trajetória gira em torno de uma conceituada universidade na qual o chefe do clã era um dos mais importantes professores que já passaram por lá e seu legado é levado adiante por alguns de seus alunos e admiradores. Mesmo já falecido a algum tempo, seus filhos tocaram suas vidas também mantendo ligações estreitas com a faculdade, todos se formaram lá em profissões distintas, assim os festejos do aniversário da moça irão acontecer em uma das salas da instituição, mas o ponto ápice da festa acontece antes mesmo de Irene chegar. Suas irmãs mais velhas não perdem a oportunidade de discutirem. Olga (Mary Stuart Masterson) é mais séria, solteira e assumiu um papel masculino na família após a morte do pai. Já Marcia (Maria Bello) é extrovertida, casada com o psicólogo Harry Glass (Steven Culp), também ex-aluno da universidade, mas tem o grave defeito de falar o que lhe vem a cabeça sem pensar nas consequências, assim vive trocando farpas com Olga, mas com a caçula estranhamente adotou uma postura protetora, assim Irene cresceu educada por falsos valores moralistas que acreditava serem herança da educação que o pai deixou aos outros filhos já que ela era muito novinha quando ele veio a falecer. Veremos mais a frente que o passado desta família tem seus segredos obscuros.

Andrew (Alessandro Nivola), formado em música, é o único filho homem do clã dos Prior. Não temos detalhes sobre seu passado ao longo da narrativa, mas alguns comentários de Marcia nos levam a crer que ele sempre foi um rapaz extremamente carente e não pensou duas vezes antes de aceitar a atenção e os afagos de Nancy Pecket (Elizabeth Banks), uma bela jovem que claramente tem um perfil oposto ao do noivo. Ele parece introvertido e sério enquanto ela esbanja simpatia e não tem papas na língua, assim também vive as turras com a cunhada extremamente sincera. Marcia faz questão de ressaltar que a moça, avessa aos estudos, foi atraída até a universidade pelas opções de paquera, deu a sorte de encontrar seu irmão e até insinua que ela o trai constantemente com amantes ocasionais. Para rebater as alfinetadas, Nancy diz que Marcia jamais poderia ser mãe porque é tão egoísta que seria capaz de machucar os próprios filhos para defender seus interesses. Até Andrew acusa a irmã de não ser um modelo de esposa perfeita e que há anos faz Harry de bobo simplesmente para poder usufruir da vida de luxos que ele lhe proporciona. As vozes se exaltam, os diálogos começam a ficar acelerados e as ofensas correm solta nessa sequência pré-festa, tudo sendo observado por alguns convidados. O Dr. Chebrin (Rip Torn), chefe de um dos departamentos da universidade, é fanático por notícias trágicas e discretamente deve torcer para uma fatalidade acontecer nesta reunião, só assim para explicar implicitamente sua presença já que não agrega nada a trama. O acanhado professor de filosofia David Turzin (Chris O’Donnell) e o sarcástico professor de ciências políticas Gary Sokol (Eric McCormack) aguardam ansiosos a chegada da aniversariante, pois ambos nutrem sentimentos por ela que vão além da simples amizade. Por fim, todos são surpreendidos com a visita de Vincent Antonelli (Tony Goldwyn), que foi professor assistente do Sr. Prior e é natural da cidade de Charleston, antigo endereço da família onde ainda possuem a casa onde residiram agora ocupada por um inquilino. O diretor Arthur Allan Seidelman conduz com eficiência o primeiro ato praticamente todo centrado dentro um único espaço e com todos os personagens interagindo, uma forma de envolver o espectador como se estivesse fazendo parte desta reunião. Todos apresentados então queremos ver ação e é justamente nesse quesito que o filme falha. Praticamente nada acontece de concreto e somente faltando menos de dez minutos para acabar é que o enredo tem uma sequência mais vibrante. Todo o resto do tempo é calcado em longos diálogos que de fato possuem conteúdo, mas quando paramos para refletir sentimos que ficou faltando algo, algum elemento que nos fizesse sentir realmente fazendo parte das discussões que vem a seguir.

Originado de uma peça teatral, o longa pode ser visto dividido em três atos bem definidos. Após a apresentação dos personagens, eles mudam de ambiente. A discussão na universidade é transferida para um hospital. A imagem de boa moça de Irene vai por água abaixo quando David a encontra desmaiada na entrada de seu prédio e é constatado que ela teve uma overdose e que as marcas em seu braço evidenciam que ela já se droga faz tempo. Marcia, após uma longa conversa a sós com Vincent em que trocam confidências, chega tarde para socorrer a irmã e mais uma vez lava roupa suja com Olga. No meio da discussão passam a refletir que Irene pode ter se sentido pressionada a honrar a vida perfeita que diziam levar com o pai, mas na realidade Marcia confessa que sofria abuso sexual constantemente dele enquanto Olga adotou um comportamento mais masculino para chamar a sua atenção e isso se refletiu em sua vida adulta quando se revelou homossexual. Nancy, que viu Marcia e Vincent se beijando, trata de colocar pimenta na conversa com a chegada de Harry que é humilhado pela esposa. Enquanto isso, David e Gary têm maneiras diferentes de demonstrar preocupação com o estado de saúde de Irene, esta que pede a Andrew para que assim que a antiga casa da família fosse desocupada eles pudessem voltar a morar lá. O tempo passa e chegamos ao terceiro ato. David e Irene estão namorando, o que deixa Gary desconcentrado para tudo, Andrew e Nancy se casaram e Marcia está sofrendo com a partida de Vincent para outra cidade, uma desculpa para se afastar dela e assim não perder o contato com as filhas diante das ameaças da esposa que sabe que ele tem uma amante. Os personagens voltam a ocupar a sala da universidade da introdução para mais uma sessão de discussões. Andrew faz uma revelação que enfurece as irmãs, uma nova troca de “gentilezas” acomete a todos e culmina com um dos personagens indo parar no hospital. Contar detalhadamente o que acontece é tirar o charme de Desejos e Traições, produção cujo trunfo é justamente prender a atenção do espectador oferecendo-lhe pouco a pouco dicas sobre o comportamento e ações de tipos comuns vivenciando problemas corriqueiros envolvendo escolhas, solidariedade, rancores e vontades. Seidelman tem os méritos de conseguir arrancar interpretações muito naturais de seu elenco, com destaque para o quarteto de irmãos e para Elizabeth Banks, coadjuvante que consegue se posicionar com facilidade no time de protagonistas. Como dito logo no início, esta produção é do tipo que precisa se refletir a respeito para tirar conclusões. Uma avaliação precipitada certamente seria desfavorável à obra. É certo que o elenco masculino é desperdiçado e muitos bons ganchos são apenas citados ou insinuados, mas no geral o longa conquista seus objetos de colocar o espectador para pensar. Quem conseguir vencer o desafio de tolerar diálogos intensos e em grande quantidade, mesmo com a vontade de algumas vezes desistir de acompanhar a trama, certamente se sentirá inquieto ao final. Fale bem ou fale mal, mas fale de mim. Você poderá simplesmente dizer cobras e lagartos sobre a produção ou imaginar quais caminhos você daria as situações que julga terem ficado mal resolvidas ou que foram jogadas fora.

Drama - 113 min - 2005 

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