segunda-feira, 12 de maio de 2014

ENCONTROS E DESENCONTROS (2003)

NOTA 9,0

Sem apelar para clichês, longa
se sustenta em cima de situações
corriqueiras engrandecidas por
interpretações emotivas e sinceras
Filho de peixe, peixinho é. Tal ditado popular cai como uma luva para muitos profissionais que passaram aos herdeiros o talento e o amor pelas carreiras que os consagraram. No meio artístico isso é muito comum e Sofia Coppola não nega o provérbio. Filha do cultuado Francis Ford Coppola, o responsável pelos três filmes da série O Poderoso Chefão, ela até tentou fugir um pouco da sombra do pai, mas não conseguiu se desgarrar totalmente. Ela arriscou a carreira de atriz fazendo seu debout no último filme da famosa trilogia do papai, mas foi extremamente criticada e por anos seu nome sumiu da mídia, até que em 1999 ele voltou a ser destacado com sua elogiada estreia como diretora em As Virgens Suicidas. Poderia ser apenas um golpe de sorte de uma mulher que teria que ralar muito para ser respeitada no meio cinematográfico, mas seu segundo projeto, Encontros e Desencontros, veio para provar que talento e vocação estão em seu sangue. Neste trabalho ela mostra que o amadurecimento e a cautela foram essenciais já que quatro anos separam os dois filmes. Neste tempo que ficou em off, Sofia deve ter passado horas diárias refletindo sobre sentimentos e contrastes, assim esta obra não nasceu hermética a um gênero específico. A vida, as pessoas, o mundo são feitos de diferenças e as variações podem acontecer em um estalar de dedos e este roteiro, escrito por ela própria, tem um pouco de tudo. Drama, romance e um sutil humor se misturam e até um leve suspense pode ser levado em consideração visto que os protagonistas se encontram em um país completamente diferente e não sabem o que os espera. Bob Harris (Bill Murray) é um ex-astro do cinema americano que está em Tóquio para fazer um comercial de uísque aproveitando os últimos suspiros de sua carreira. Frustrado com os rumos da sua vida profissional e ainda tendo que lidar com um casamento em crise, mesmo assim ele é dotado de senso de humor. No mesmo hotel em que está hospedado ele conhece Charlotte (Scarlett Johansson), também norte-americana e que está acompanhando John (Giovanni Ribisi), seu marido, um fotógrafo que está viajando a trabalho e a deixa sozinha o tempo todo, assim ela está deprimida. O fuso horário diferenciado acaba fazendo com que os dois sofram de insônia e eles se encontram no bar do hotel por acaso e imediatamente surge uma empatia mútua, mas engana-se quem pensa que a partir de então uma previsível história de amor será desenvolvida.

Sofia segue caminhos simples, mas originais e inesperados para uma obra catalogada para fins comerciais como uma comédia romântica. Harris e Charlotte mal conversam em meio a situações triviais e sem nada de especial, mas se entendem através de gestos e olhares e conseguem envolver de alguma forma mágica o espectador que se sente onipresente em todas as cenas. Não poderia ser diferente. Este é um filme de ator, ou seja, o roteiro é simples e eficiente, mas são as interpretações que o enriquecerão, assim a cineasta demonstrou ter sensibilidade para escolher os tipos ideias para viver os protagonistas que deveriam causar empatia imediata com o espectador, caso contrário o longa seria fracassado em seus propósitos de contar uma história sobre duas pessoas em busca de suas próprias identidades que perderam por motivos diversos. Em comum, eles têm apenas os fatos de estarem insatisfeitos com seus casamentos e de estarem em uma cidade completamente estranha. Quem já teve a oportunidade de viajar para algum país com costumes, alimentação e idiomas alheios a sua cultura certamente poderá se identificar com algumas cenas, mas é bom ressaltar que a obra de forma alguma quer ridicularizar ou insultar o Japão, pelo contrário, em meio a tradição mesclada a traços de ocidentalização a terra do sol nascente, pela ótica de Sofia, parece ferver 24 horas por dia e seu filme nos desperta um grande fascínio para conhecê-la mais detalhadamente. A capital nipônica é captada destacando toda a beleza presente em seu cotidiano, com seus diversos arranha-céus ostentando publicidades com esfuziantes luzes de neon que chamam a atenção seja dia ou noite, mas a pressa do dia-a-dia proíbe as pessoas de admirarem tais paisagens e só mesmo um olhar estrangeiro para se deslumbrar com elas. A cineasta propõe um rápido tour em companhia de seus personagens que pouco a pouco vão desnudando seus sentimentos e escrevendo uma breve história romântica baseada no companheirismo e confiança, sem amor carnal. É essa a grande mensagem da obra. Revelar o quanto uma amizade verdadeira pode ser importante, ainda mais quando estamos assolados pela solidão. Uma palavra, olhar ou gesto de carinho é o bastante para nos sentirmos vivos, ter a noção de que alguém lhe notou em meio a multidão. Aí percebemos mais uma vez a importância da construção dos personagens, não necessariamente as situações que eles vivem. A partir do momento em que conhecemos suas angústias, vontades e perfis, é muito fácil embarcar nessa atípica história em que episódios corriqueiros acabam ganhando dimensões inimagináveis graças a relação estabelecida entre o espectador e quem está em cena.

Trocar experiências e compartilhar anseios e frustrações, essa é a base de uma boa amizade que pode demorar anos para se solidificar, no entanto, Harris e Charlotte passam apenas alguns dias juntos e mesmo assim parecem ser amigos de longa data. Isso é graças a surpreendente química de seus intérpretes que conseguem não dar brecha para especulações quanto a diferença de idade afinal a oposição é justamente a inspiração do longa. Ele encontrou na moça o frescor da juventude e ela, por sua vez, absorveu a maturidade dele para aprender a lidar com seus problemas. Ambos perdidos em suas vidas pessoais e sem saber o que fazer para passar o tempo em uma cidade onde não compreendem uma palavra coincidentemente eles se encontraram, algo que não precisaria acontecer precisamente em uma cidade japonesa. Poderia acontecer até mesmo no Brasil ou no próprio EUA. Contudo, é inegável que a escolha do Japão foi certeira para justificar o título original, “Lost in Translation”, algo como “perdido na tradução”. Propositalmente, as falas no idioma local não são legendadas para dar ao expectador a mesma sensação vivenciadas pelos protagonistas. Poderiam até estar sendo ofendidos, mas nem tomariam conhecimento. O melhor é que tais sequências são extremamente naturais já que os atores tiveram liberdade para improvisar e suas reações à cultura nipônica são verdadeiras e comuns a qualquer pessoa alheia, assim os boatos de que o longa usa a ironia como ofensa aos japoneses não tem fundamentos válidos, assim como também não é certo afirmar que a obra é um pastiche arrastado e sem conteúdo. Sendo curto e grosso, não curte cenas contemplativas, não tem paciência para desenvolvimento de personagens e tampouco para refletir após a conclusão, não perca seu tempo. Quanto as atuações, Murray parece que teve um papel construído meticulosamente para se encaixar a seu perfil, quase uma criação autobiográfica. Assim como Harris, Murray teve seu período de glória e depois ficou muitos anos atuando em produções de baixa repercussão, sendo redescoberto pelo cinema independente americano. Suas expressões faciais e olhares revelam todos os sentimentos que o roteiro lhe nega em diálogos. Boa parte do tempo caladão e observador, o personagem por pouco não deixa a companheira em segundo plano na história, mas Scarlett, ex-atriz mirim que finalmente vinha a ser conhecida pelo grande público, posiciona-se com segurança em cena para transparecer a alma melancólica de Charlotte que poderia até ser vista como um alter-ego de Sofia. Encontros e Desencontros é inspirado em uma breve passagem da vida da diretora dos tempos que ela era casada com o também cineasta Spike Jonze e precisou acompanhá-lo a uma viagem de trabalho ao Japão. As prováveis horas de contemplação do país da janela do quarto do hotel ou os solitários passeios renderam muito para a moça que teve a honra de ser uma das poucas mulheres a serem indicadas ao Oscar de direção.

Vencedor do Oscar de roteiro original

Comédia romântica - 105 min - 2003 

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