quinta-feira, 1 de maio de 2014

FÚRIA PELA HONRA

NOTA 6,5

Drama aborda as etapas que
levaram um estudante sonhador
do céu ao inferno, mas termos
científicos entediam a narrativa
Muitas pessoas desconhecem a força das palavras, mas quem nunca se sentiu melhor ao ouvir uma mensagem de conforto, um elogio ou uma frase positiva? E quem nunca se sentiu mal ou entristecido devido a uma fofoca, intriga ou frase mal elaborada que acabou sendo interpretada de forma errada? O pior é quando constatamos que fomos enganados por palavras amigáveis e essa sensação amarga é sentida plenamente pelo protagonista Fúria Pela Honra, drama pouco conhecido mesmo tendo como coadjuvante de luxo Meryl Streep. Com direção de Shi-Zheng Chen, tentando fazer carreira fora da China, a primeira vista o longa pode parecer tedioso e até didático demais tentando ensinar, sem sucesso, ciências cósmicas a um público leigo. No entanto, uma apreciação livre de preconceitos, nos faz atentar mais à trama e percebemos que há sim muito conteúdo emocional e humano por trás dos cálculos e termos técnicos. Baseado em uma história real, o roteiro de Billy Shebar gira em torno do jovem Liu Xing (Ye Liu), um brilhante estudante chinês que passa em um teste para fazer seu doutorado em uma conceituada universidade dos EUA. Muito otimista quanto a seus estudos sobre as origens do universo, logo ele chama a atenção do professor Jacob Reiser (Aidan Quinn) que, além de orientar seu projeto de doutorado, o convida para participar de seu grupo de cosmologia elogiando muito sua inteligência. A proposta caiu dos céus afinal de contas o homem que ele tanto admirava e cujos estudos lhe inspiravam estava lhe dando uma prova de confiança, a pista de que ele estava no caminho certo. Xing não é o único estrangeiro chinês a viver essa experiência. Historicamente conhecidos pela intimidade com as mais variadas formas de ciência, além dos chineses que já eram estudantes, mais dois novatos foram aceitos e assim eram oferecidas reuniões de orientação para ajudar os alunos asiáticos a se adaptaram ao solo norte-americano. Joanna Silver (Streep) é uma entusiasta da cultura chinesa e costuma levar os estudantes a passeios por pontos turísticos, ao mesmo tempo em que quer mostrar que no novo país eles não precisam abandonar suas raízes, como mostra a sequência do espetáculo teatral tipicamente oriental, contudo, não é bem isso que Xing vai perceber com o passar do tempo. No início, Reiser mostra-se um grande parceiro do estudante incentivando-o a levar adiante suas teorias e aumentando suas responsabilidades no estágio, inclusive o próprio jovem chega a ajudar seu mentor quando este é desafiado pelo professor Gazda (Erick Avarai) a comprovar uma ideia. Todavia, quando ganha total confiança, o aluno acaba tendo suas asinhas cortadas.

Xing sempre falou muito sobre a matéria escura (que intitula o filme originalmente), uma substância que ajuda na formação e sustentação de tudo o que há no universo composta por partículas suspensas que mesmo com o telescópio mais potente não consegue ser vista. Exemplificando usando como modelo uma montanha, o pico dela representaria uma estrela e sua formação (rochas, terra) seria a tal matéria invisível. Não há pico sem os elementos que compõem a montanha, assim como não haveria estrelas sem a camada negra que forma o universo. Com essa teoria ele tem a pretensão de ganhar o prêmio Nobel e com a fama e fortuna conquistar o amor de uma americana loura, uma sutil crítica do enredo aos sonhos estereotipados de quem deseja viver o modelo americano de sucesso. Contudo, suas ideias quanto a matéria escura, que surgiram a partir da observação de uma frigideira com óleo fervente, conflitam com os conceitos defendidos por Reiser que recusa a tese para o rapaz conseguir seu doutorado. Na realidade, Xing tem embasamento crível para defendê-la, algo acordado entre os membros da banca avaliadora, mas seu mentor convence os demais do contrário. O mundo do chinesinho então desaba. Ele já havia tido uma recusa quando apresentou a ideia do projeto, mas mesmo assim a levou adiante e em segredo acreditando que Reiser ficaria orgulhoso quando apresentasse seus estudos, mas ficou claro que o professor não admite que ninguém mostre ser mais inteligente que ele. Curiosamente, o próprio educador já esteve na posição de Xing, pois confessou que quando jovem ele ousou fazer um texto criticando uma das teorias de seu mentor, justamente o tal Gazda que passou a odiá-lo e não perde uma chance de tentar desbancar a imagem de seu pupilo, mas tudo civilizadamente, fique claro. Xing interpretou tal mensagem erroneamente como um incentivo para não se impor barreiras, mas acabou traindo um dos principais ensinamentos de seu povo: um subalterno jamais pode afrontar seu superior, no caso, um aluno sempre deve acatar as ordens do professor. Três anos de esforços prestes a serem jogados no lixo caso não aceite defender uma tese com tema comum e praticamente já esgotado. Acomodação virou requisito para ser doutor em ciências? Para completar sua sensação de fracasso, já a algum tempo Xing tem sentido que Reiser não é o mesmo com ele, mais precisamente desde que Feng Gang (Lloyd Suh) chegou à universidade. Eles disputavam o título de melhor aluno quando estudavam juntos em Pequim e mais uma vez estavam vivendo uma rivalidade velada. O novo queridinho do professor chegou a mudar seu nome para Laurence Feng para ser mais fácil dos americanos o reconhecerem, algo que Xing condenada, pois acha que a troca de nome é o primeiro passo para os estudantes perderem sua identidade, pensamento imediatamente retrucado pelo rival que lembra o colega de que no momento eles trabalham para os americanos e precisam se adaptar ao máximo ao estilo deles.

Basicamente, a trama segue de forma previsível mostrando o contraponto do protagonista inicialmente feliz e depois amargurado pelos infortúnios que o assolam. As partes que mostram a adaptação de Xing fora do ambiente escolar e seu convívio com seus colegas com quem divide moradia ou até mesmo suas conversas informais com Reiser ou Joanna podem parecer cenas desnecessárias vendo isoladamente, mas no conjunto ajudam a dar credibilidade ao caminho traçado pelo jovem, a euforia inicial dando lugar ao desespero. Ye Liu rouba a cena mesmo reproduzindo clichês típicos do estrangeiro perdido em terras desconhecidas. Ele é desengonçado e tímido, mas seus olhos puxados crescem inegavelmente quando incitados pela euforia de algum momento ou descoberta. Nos momentos de melancolia pode não transmitir a carga emocional necessária, mas mesmo assim o intérprete nos convence devido ao contexto que está inserido. De acordo com sua educação tradicional, seu fracasso nos EUA o proibiria de voltar para casa, seria uma vergonha não só para si, mas principalmente para sua família, assim as cartas que constantemente escrevia a seus pais pouco a pouco começam a ganhar conteúdo fictício exaltando conquistas que cada vez parecem mais distantes de serem efetivadas. Joanna, que logo a primeira vista se afeiçoou ao jovem e o adotou como uma madrinha, tentou ajudá-lo insistindo para que não desistisse e assim ele publicou seu estudo recusado em uma revista científica, mas isso só piorou sua situação com Reiser. Streep sem dúvidas está em um papel aquém de sua capacidade, mas com seu faro para bons projetos talvez tenha se sentido tocada pelo realismo retratado na obra, mesmo que ele não esteja diretamente ligado a sua personagem. Sua participação é mais exigida na reta final, tendo como grande momento a sequência em que por pena aceita experimentar alguns cosméticos que Xing se vê obrigado a vender para conseguir sobreviver, uma cena que certamente mexe com o emocional de quem vive realidade parecida. Quantas pessoas estão sujeitas a trabalhos dignos, porém, sacrificantes e de baixa remuneração, enquanto outros despreparados ocupam funções alheias por meio de cambalachos ou a famosa estratégia da indicação de um conhecido? Uma personagem nos primeiros minutos do filme confunde cosmologia com algo ligado a área de beleza, assim não deixa de ser curiosa a ironia do destino. De promessa das ciências Xing é rebaixado a vendedor de cosméticos a domicílio. Quinn também se sai muito bem com um papel que pode parecer sem brilho, mas seu grande trunfo é a sutileza. Ele jamais é visto agredindo física ou verbalmente o protagonista, mas o fere com palavras minuciosamente escolhidas que de forma implícita querem dizer que ele está o abandonando. Ele não lhe dá um tiro à queima-roupa, mas o fere pouco a pouco com a sua indiferença o que ajuda a compreendermos a conclusão impactante. Por essa ótica, o título Fúria Pela Honra ganha total sentido e apesar do ritmo devagar a obra pode envolver, emocionar e de ainda oferecer muitas questões a serem refletidas.

Drama - 88 min - 2007

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