terça-feira, 27 de maio de 2014

SOCIEDADE FEROZ

NOTA 3,0

Procurando relacionar costumes
de antiga tribo a comportamentos
contemporâneos, drama se perde em
meio a tantos personagens e situações
Quando somos jovens e entediados com nosso cotidiano é muito fácil acreditar que a vida pode ser diferente em um novo ambiente, em outra realidade. Se conseguimos mudar de ares, o entusiasmo inicial é inevitável, mas até quando ele vai durar? A única certeza é que depois de viver esta experiência ninguém mais consegue ser o mesmo de outrora e é isso que aprende o protagonista de Sociedade Feroz, drama com uma premissa interessante acerca do amadurecimento, não só de jovens, mas também de pessoas mais velhas que compreendem tardiamente que todo dia é um aprendizado e que nossas ações deixam marcas por onde passamos. Em meados de 1980, Finn Earl (Anton Yelchin) é um jovem de 16 anos que cresceu longe do pai, um antropólogo que ficou famoso por ser o primeiro a conseguir manter contato com membros da tribo Iskanani, indígenas da América do Sul conhecidos por serem extremamente agressivos e darem muito valor a rituais e atos violentos para provar coragem e liderança. O filho acabou ficando fascinado por esse povo por associá-lo como a única lembrança concreta que teve do pai em todos esses anos através de seus livros e documentários de televisão. A mãe do menino, Liz (Diane Lane), sempre levou uma vida meio desregrada e engravidou por um descuido de uma única noite. Atualmente ela ganha a vida como massagista, costuma ir para a cama com alguns clientes e é viciada em drogas e álcool. Certa vez, tentando ajudar a mãe, Finn acabou metendo os pés pelas mãos e foi pessoalmente comprar entorpecentes para ela se acalmar e teve o azar de cair em uma batida policial. Após ver o filho em maus lençóis, Liz resolve que é hora de colocar sua vida e a dele nos trilhos e decide aceitar o convite do milionário Ogden C. Osborne (Donald Sutherland), um antigo amigo e cliente que lhe ofereceu uma de suas propriedades para eles passarem uma temporada enquanto ela seria sua massagista particular. O idoso vive em uma espécie de comunidade alternativa, Vlyvalle, uma cidade fechada onde ele é uma figura ilustre, respeitada e seu dinheiro lhe dá poder absoluto, tanto que conseguiu promover o Sr. Gates (Blu Mankuma), seu motorista, à chefe da polícia local. No início, Finn mostra-se contrário a mudança, até porque não confia que sua mãe se regeneraria, mas aos poucos passa a gostar do novo endereço, até porque promete ser um período de grandes novidades e experiências.

Apesar dos boatos de que Liz e Osborne se relacionavam, Finn é bem recepcionado pelos habitantes de Vlyvalle, principalmente pelos netos do milionário. Bryce (Chris Evans), o mais velho, simpatiza-se logo a primeira vista com o adolescente por ele ter dado pistas de que era de confiança livrando-o de ser pego na cama com uma das muitas jovens que ele dava em cima. A identificação é ainda maior quando descobre que o garoto é filho do antropólogo cujos livros ele devorava na faculdade e que ambos compartilham admiração pela tribo Iskanani. Já Maya (Kristen Stewart), a caçula, literalmente prende Finn em uma armadilha quando ele estava andando pela floresta que cerca o vilarejo. Muitos caçadores frequentam a mata e foi uma bala perdida que levou o pai da menina a ficar em coma o que a motivou a proteger a área para evitar novas fatalidades. Cinco minutos de conversa e Maya e Finn já estão trocando o primeiro beijo e praticamente em cima do próprio pai dela que está vegetando em uma cama, o que rende um comentário irônico do protagonista. Bem, não há como seguir com o resumo da história sem ressaltar seus defeitos, sendo o principal o fato dos acontecimentos simplesmente surgirem na tela sem muita explicação. Liz tem a chance de recomeçar sua vida ao lado de um homem de sua faixa etária, mas os planos de uns dias românticos em um refúgio são atropelados por Osborne, isso porque ele já havia deixado claro que não tinha segundas intenções com a massagista. O velho simplesmente abaixou suas calças sem pudor algum para mostrar a Finn o motivo de não poder mais ter envolvimentos sexuais. A empregada Jilly (Paz de La Huerta) assim que conhece o seu novo patrãozinho já se oferece para transar com ele e mesmo depois de descobrir estar grávida de outro aceita ir para a cama com Finn sem muita conversa, um simples afago já basta como convite à loucura. Whitney (Jeff Westmoreland), um adolescente com deficiência mental, vemos de relance em cerca de duas cenas, mas ele volta na reta final com uma revelação bombástica e que tira o sossego de Vlyvalle, mais especificamente do clã Osborne até então tido como uma espécie de família modelo quando na verdade a sua nova geração é dissimulada, drogada e pervertida. Por fim, a paixão avassaladora de Maya e Finn não convence, apenas é empurrada na tela e sofre de momentos em que ora um ora outro está com os sentimentos às avessas, mas ficamos sem saber os reais motivos do afastamento ou eles são tão tolos que nem prestamos atenção nas justificativas. É claro que um fã de Crepúsculo não vai concordar com tal afirmação e pode afirmar até que o desempenho de Stewart valeria uma indicação ao Oscar, mas aí seria uma avaliação feita às cegas. Superficialmente o longa pode até enganar e parecer bem realizado, até porque tem uma fotografia caprichada e belas locações, mas uma análise mais profunda deve ressaltar seus problemas. Bons ganchos com apelo dramático e até psicológico foram para o limbo em prol de uma narrativa esquizofrênica. Só na última sequência temos a certeza de seus reais objetivos, mas nada que abone os tropeços ao longo da projeção.

Embora repleta de boas intenções, o diretor Griffin Dunne escorrega feio em todas as suas tentativas de envolver o espectador tentando amarrar a todo custo situações que parecem dispersas. Em suma seria o seguinte: mãe e filho tem a chance de recomeçar a vida em um lugar que parece à parte do mundo e o garoto, já com certa tendência a olhar mais profundamente para os seres humanos, sente que está fazendo parte de uma nova tribo e passa a estudar o comportamento e perfis de seus membros, anotando todas as suas observações em um diário que um dia sonha em entregar ao pai. Todavia, como em todo grupo de pessoas é necessário ter um líder, o protagonista compra sem querer briga com o herdeiro natural ao posto de chefe, este que coincidentemente analisa a vida com olhares arcaicos de um índio. De acordo com os Iskanani, quando um homem é humilhado seu “nureshi” (todo ser humano tem dentro de si uma alma animal) desprende-se do corpo para não compartilhar a vergonha e cabe ao perdedor lutar bravamente para recuperar sua dignidade, de preferência apresentando o coração do rival como prova de sua bravura. Juntando os pontos, basicamente o filme fala de uma guerra travada em um primeiro momento de forma dicreta entre Finn e Bryce para ver quem será o sucessor de Osborne no comando de Vlyvalle, visto que o mais novo morador caiu nas graças do milionário, mas o roteiro de Dirk Wittenborn, baseando-se no romance de sua própria autoria, não encontra um caminho sólido para desenvolver o argumento relativamente simples. Em alguns momentos parece que o tema principal é a desintoxicação das drogas, em outros apenas contar uma história de amor adolescente, algumas sequências parecem querer criticar os comportamentos de risco da juventude ensaiando uma espécie de Segundas Intenções mais comportado, mas no final nos damos conta de que o filme tem uma mensagem universal e atemporal a passar através da sugestiva frase “você muda a tribo e a tribo muda você”. Jamais seremos os mesmos depois de algumas experiências que vivenciamos e os locais por onde passamos também podem absorver elementos do nosso comportamento, principalmente aqueles que costumamos frequentar regularmente. Finn chega a conclusão que Vlyvalle o transformou assim como sua presença por uma temporada deixou marcas na cidade. Pena que Sociedade Feroz não faz o mesmo pelo espectador. O único benefício é nos dar subsídios para avaliar melhor outros filmes levando em consideração seus erros. Se as intenções de Dunne era irritar o público ou propiciar a sensação de desperdício de tempo aí sim podemos aplaudir o diretor. Conseguiu com folga.

Drama - 111 min - 2005 - Dê sua opinião abaixo.

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