segunda-feira, 30 de junho de 2014

À FRANCESA

NOTA 4,0

Misturando vários gêneros,
longa não se define por nenhum
e narrativa ainda é prejudicada por
personagens que não cativam
Você certamente deve conhecer alguém que não resiste a assistir um filme que destaca alguma cidade europeia famosa por sua cultura, souvenires e pontos turísticos. Mais fácil ainda conhecer pessoas que só se empolgam com opções que tragam nomes famosos nos créditos ou que não resistem a tramas açucaradas cujo final feliz é sempre garantido. À Francesa poderia ser perfeito para atender a estes dois tipos de público. Traz o luxo, a beleza e a sedução do universo parisiense atrelado aos nomes consagrados de Kate Hudson e Naomi Watts que pelas disposições de suas imagens no material publicitário convidam o espectador para uma agradável comédia romântica. Quem cria tais expectativas na verdade recebe um belo banho de um amargo champanhe e nem é preciso esperar muito para isso acontecer. Os vinte ou trinta primeiros minutos de exibição já são o suficiente para nos desapontar. Simplesmente temos a sensação de que nada aconteceu e até sentimos falta dos clichês que tanto achincalhamos. Sorte de Winona Ryder e Natalie Portman que desistiram de protagonizar tal engodo. Baseado no livro “Le Divorce” (o mesmo título original do filme) escrito por Diane Johnson, o enredo parte do reencontro de duas irmãs americanas. Isabel Walker (Hudson) viaja até a capital francesa para passar uma temporada com Roxanne (Watts), sua irmã mais velha que já vive por lá há algum tempo desde que se casou com o artista plástico Charles-Henri de Persand (Melvil Poupaud). No entanto, o relacionamento está em crise. Mesmo com a esposa grávida e já com outra filha grandinha, o francês decide abandoná-las e sai de casa com total naturalidade, não tendo receio nem mesmo dos possíveis comentários da cunhada recém-chegada. A reação do marido é estranha, mas a forma de Roxanne lidar com a situação também não fica a dever. Cadê os escândalos e chantagens emocionais? Ela até tenta extravasar sua raiva, mas parece que já está domada pelo estilo de vida francês: bons modos em primeiro lugar. Mesmo separada, a americana continua tendo contato com a família do marido e assim sua irmã acaba se aproximando de Edgard Cosset (Thierry Lhermitte), um diplomata francês casado, mais velho e tio de Charles-Henri. Logo eles estão vivendo um romance não muito secreto baseado puramente em prazer sem ligações emocionais profundas, mas para Isabel ainda existe o bônus de ser presenteada com presentes de grifes.

Enquanto isso, Roxanne está envolvida com a partilha de bens, um problema que acaba se agravando com a intromissão da família Persand e a disputa por uma obra de arte que ela herdara de seus pais, um quadro que pode ou não ter um grande valor financeiro, tudo depende da confirmação de peritos que verificariam se ele seria da coleção de um cultuado artista da França. No entanto, nesta questão jurídica ele é quase um ponto de honra já que para os franceses tradicionais a separação é vista como algo repugnante, ainda mais quando fere a honra de um dos seus mesmo que no caso o próprio marido tenha causado o rompimento. A esposa ficaria de certa forma em uma situação humilhante, ainda mais sendo uma americana perdida em Paris, enquanto Charles-Henri já estava vivendo com outra, a irritante russa Magda (Rona Hartner) que também abandonou o marido, o desequilibrado Sr. Tellman (Matthew Modine). Roxanne até procura mostrar que tem sangue correndo nas veias tentando se suicidar em um breve momento de loucura, mas sobrevive para aturar os comentários sarcásticos de Suzanne (Leslie Caron), sua arrogante sogra. Solidária e deslumbrada, Isabel procura tirar a irmã desse universo depressivo levando-a para passear e participar da agitada vida social parisiense, quem sabe assim a animando a retomar sua carreira como poetisa. A caçula está desfrutando bem sua estadia. Além de se divertir e dos mimos que ganha como amante de Edgar, ela envolve-se também com o jovem Yves (Romain Duris) e até arranja emprego como arquivista de Olivia Pace (Glenn Close - desperdiçada), uma professora americana. Somam-se a este caldeirão de informações alguns outros personagens e situações de menor importância e por fim temos uma conclusão esquizofrênica que destoa completamente do caminho já desconjuntado trilhado pela fita até então. Basta dizer que de uma hora para a outra o longa ganha contornos de thriller e até de sátira tendo como cenário a Torre Eiffel, mas não abre mão de inserir um belo cartão-postal de Paris como última imagem. Drama, romance, sarcasmo, suspense e toques de filmes de arte. Tem de tudo e mais um pouco neste produto, mas a rigor vendido como uma comédia romântica a decepção é inevitável e a sensação de incômodo se faz presente assim que os créditos iniciais terminam. Nada parece fazer muito sentido e pouco a pouco o desinteresse só aumenta. Hudson de longe é a que sai menos chamuscada com uma interpretação mais vívida e natural e que encontra apoio no ótimo trabalho de Lhermitte que rouba a cena com um personagem dúbio. Ao mesmo tempo em que brada conceitos morais em público para manter a pose de homem honesto e honrado, na intimidade é um tremendo sedutor e cara-de-pau.

Chama a atenção que um filme tão esquisito leve a assinatura Merchant-Ivory. O que? Quem curte cinema ou só se liga no tema na temporada de premiações certamente deve ter em seu subconsciente pelo menos o registro de títulos como Uma Janela Para o Amor, Retorno A Howard Ends e Vestígios dos dias. O produtor Ismail Merchant e o diretor James Ivory fizeram muitos trabalhos em parceria, a maioria de época e consagrado com prêmios e elogios da crítica, assim suas assinaturas tornaram-se sinônimos de conteúdo e bom gosto. Todavia, a partir da metade dos anos 90 já é possível verificar que os trabalhos da dupla apresentam sensível queda de qualidade ou ao menos de prestígio. Tentando reverter a curva de declínio, eles procuraram abordar assuntos contemporâneos para fisgar um novo público, mas À Francesa revela-se o ápice da decadência desta grife. O caso ao menos serve para mostrar que nomes famosos não garantem sucesso. A obra foi recusada para ser exibida no festival de Cannes, mesmo fora de competição, teve seu lançamento atrasado nos EUA, provavelmente para tentar fazer algumas correções na edição final, e no Brasil a situação se repetiu sendo lançado nos cinemas e em DVD de forma minguada, certamente já escaldado pelas críticas negativas e merecidas. O roteiro escrito pelo próprio Ivory em parceria com Ruth Prawer Jhabvala no fundo tem pretensões de falar sobre diferenças culturais e suas consequências, mas faz isso de maneira um tanto insossa. Mesmo procurando renovar sua forma de fazer cinema, o diretor procura se ater as principais características de sua filmografia: a adaptação de romances centrados nas diferenças entre americanos e os povos europeus. Saem os pomposos figurinos de época para darem lugar aos cortes assimétricos contemporâneos, mas os cenários e fotografia ainda carregam lembranças do estilo que fez a fama de Merchant-Ivory, assim com o próprio enredo. Pode parecer estranha a relação de Roxanne com a família do marido para os tempos atuais, mas certamente o comportamento rígido dos Persand é uma crítica a alta sociedade francesa formada por muitas famílias presas a tradições e convenções, mesmo que já não possam sustentar tal pose. Contudo, a vontade de ridicularizar padrões acaba tornando-se enfadonha assim como os demais objetivos que acabam se diluindo ao longo (literalmente) da narrativa. No final das contas até a bela paisagem acaba denegrida. Quem ainda poderia sonhar com Paris baseando-se em um material tão frio e desinteressante? 

Comédia romântica - 117 min - 2003 

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