quarta-feira, 11 de junho de 2014

A TERRA ENCANTADA DE GAYA

NOTA 5,5

Desenho de origem europeia
tem bom argumento, mas seu
estilo de animação e narrativa
poderiam ser mais bem lapidados
Quando se falava antigamente em animação o sinônimo era Disney. Anos mais tarde a companhia do Mickey Mouse passou a dividir tal honra com a Pixar. No final das contas as empresas se uniram e fale de uma ou fale da outra estarão agraciando (ou difamando) as duas. Há décadas outros estúdios estão tentando chegar ao topo com suas animações, mas talvez só a DreamWorks conseguiu assustar a concorrência pesada. Se é difícil para americanos vencerem as batalhas, imagina para desenhos animados oriundos de outros países. Se as obras não estreiam em solo ianque, as chances de chegar a outros territórios também são minguadas, mas até que no Brasil muitas têm conseguido ligeiro progresso. A Terra Encantada de Gaya é um dos raros exemplos de desenhos estrangeiros que conseguiram uma passagem nos cinemas, ainda que relâmpago, antes de sair em DVD, mas nem por isso encontrou seu público. Esta é a primeira tentativa da Alemanha (em coprodução com a Espanha e a Inglaterra) em realizar uma animação computadorizada, mas apesar dos esforços mostra que ainda estão longe de brigar com cachorros grandes, não só quanto a parte técnica, pois o roteiro também deixa a desejar. A trama assinada por Jan Berger, Don McEnery e Bob Shaw, os dois últimos oriundos da Disney/Pixar, nos apresenta à “Gaya”, um programa de televisão que se passa em um universo paralelo criado por Albert Drollinger onde os personagens, híbridos de elfos com duendes, vivem aventuras que são acompanhadas por milhões de fãs. Em um dos episódios, o rei promove uma corrida automobilística oferecendo como prêmio um beijo de Alanta, sua rebelde filha que obviamente não gosta nada da ideia e quer provar que pode ser independente. Ela finge ser homem para participar do evento e provar que não é uma garotinha mimada, mas terá que enfrentar a dura concorrência de Zino e Boo, respectivamente o metido a herói e seu fiel escudeiro, que estão doidinhos por uma beijoca da princesa. Além disso, os Snurks, um grupo de trapaceiros formados por Galger, Zeck e Bramph, também estão no páreo para brigar com os Gayanos. Quando desaparece a dalamite, uma espécie de pedra mágica responsável por manter o equilíbrio desta terra, vilões e mocinhos são repentinamente arremessados para outra dimensão e vão precisar se unir para sobreviverem em um ambiente estranho.

O responsável pelo roubo da dalamite é o professor N. Icely que também mantém um programa na TV, mas está irritado com a perda de audiência de seu trabalho perante o sucesso de “Gaya” e está disposto a se vingar dos espectadores que mudaram de canal. Com a tal pedra, na realidade uma esfera energética, ele poderia utilizá-la no mundo real para fins cruéis, mas não contava que a roubando, através de uma engenhoca que criou, os personagens da telinha viriam junto para a realidade dos humanos. Agora Gayanos e Snurks têm que levantar bandeira branca e se unirem para resgatar a dalamite e nessa procura acabam encontrando com o próprio Drollinger que estava escrevendo um novo episódio da série sem se dar conta que seus personagens haviam sumido. A metalinguagem inserida no roteiro sem dúvidas é o ponto alto da produção com um gancho que remete a um dos principais temas do primeiro Toy Story. Tal qual Buzz Lightyear que não julgava ser um brinquedo e sim um astronauta de verdade, os habitantes de Gaya também só descobrem que são personagens de um seriado quando encaram o próprio criador deles. O interessante é que a partir do momento que caem na real, tanto física quanto psicologicamente, a turminha passa a influenciar a obra do artista escolhendo os próprios rumos de suas aventuras, mas se não conseguirem recuperar a dalamite e retornarem para o seu universo original as duas Gayas estarão condenadas a extinção, ou seja, deixariam de existir tanto o programa quanto o habitat dos personagens que então poderiam não sobreviver no mundo dos humanos caso não soubessem fazer uso da dádiva do livre arbítrio. O problema é que o vilão da história não segue script algum, a não ser o seu mesmo.  Complexo não? Realmente o recurso de misturar ficção e realidade neste caso torna-se um pouco confuso pelo fato de não termos uma clara distinção visual. É diferente você ver um filme em que os elementos animados invadem o mundos das pessoas de carne e osso ou o contrário como é o caso, por exemplo, de Uma Cilada Para Roger Rabbit. Aqui os dois universos são em desenhos e precisamos imaginar que um deles é o mundo dos humanos. Talvez por isso a criançada não tenha dado muita bola para o filme e consequentemente os adultos também não se interessaram. O argumento era bom, pena que pensando em fazer algo relativamente diferente a conclusão que se chega é que o tradicional casamento entre live-action e CGI (real e virtual) era a melhor solução. É uma pena também que os problemas da produção não se restrinjam a essa pequena confusão de ambientações.

A grande mensagem da obra a respeito do livre arbítrio pode não ser bem compreendida pelo público-alvo. Drollinger ocupa na trama um papel semelhante a de Deus na vida de muitas pessoas e isso fica claro nos diálogos travados no primeiro encontro entre criador e criaturas. A discussão a respeito do direito de fazer as próprias escolhas (agir, pensar, falar) é muito bem-vinda, mas acaba sendo diluída em meio a tanto colorido, ainda que nem a profusão de cores seja capaz de escamotear os clichês da trama e personalidades estereotipadas dos personagens unilaterais. Temos aqui o amor proibido pelas regras da hierarquia, o franzino que busca provar seu valor, o vilão com planos de dominação, a lição de moral e o herói e a mocinha que vivem às turras, mas que vão comprovar que os opostos se atraem. Não descartando o recurso da intertextualidade, a corrida que introduz o longa pode ser vista como uma referência a corrida de bicas do clássico Ben-Hur e o próprio argumento envolvendo a metalinguagem é um fetiche do cinema alternativo. Quanto ao estilo de animação, as técnicas utilizadas buscam agregar efeitos realistas como efeitos de luz, sombras e até poeiras, além de investir em texturas de cabelos e tecidos das roupas, porém, os personagens denunciam o artificialismo. Os principais, os habitantes de Gaya, estão corretos afinal são frutos de desenho animado, mas os humanos são retratados de forma caricatural. Essas caracterizações não representam teoricamente um grande problema, ainda que todos se movimentem de maneira um pouco robótica, mas em tempos em que o público se acostumou ao perfeccionismo da animação digital o quadro se agrava. Quem é fã de Shrek ou Os Incríveis, por exemplo, deve estranhar e esse já pode ser um ponto de desinteresse. Os diretores Lenard Fritz Krawinkel e Holger Tappe buscaram uma fazer uma animação computadorizada inspirada nos principais conceitos da tecnologia, mas quiseram dar certa personalidade à arte, adicionar algum elemento que caracterizasse como um produto próprio da Alemanha. A saída foi buscar traços estilizados, fugir do padrão propagado por Hollywood, e vendo por esta ótica tudo aquilo que é considerado falhas visuais podem encontrar justificativas. Por fim, A Terra Encantada de Gaya tem mais um agravante para nós brasileiros: a dublagem feita pela formação original do grupo de humoristas do “Pânico da TV”, detalhe que foi usado na publicidade do filme. Será que isso afastou o público? Todos enganam bem, porém, o “caipirês” de Sabrina Sato é inconfundível, mas ainda assim não detona o desenho. É verrrdade!

Animação - 88 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

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